O Volume 2 de “Mar de histórias” compreende o período “Do fim da Idade Média ao Romantismo”. Os primeiros contos, isto é, aqueles do fim da Idade Média, são interessantes sob alguns pontos de vista, mas não são capazes de nos causar, hoje, o mesmo impacto que tiveram ao tempo de sua publicação. O que me pareceu, lendo os escritores dessa época, é que havia uma tendência incrível de desvalorizar a mulher e duvidar da sua fidelidade e constância. São diversos os contos nessa linha. Parece que era um tema-chave da literatura da época. Um dos contos do Trancoso é das coisas mais absurdas que já li na vida. Por outro lado, o conto do Matteo Bandello vinga as mulheres (e todos os homens que não se sentem em nada superiores às mulheres).
Sobre o Cervantes, eu tenho a impressão de que há em suas “Novelas exemplares” histórias mais saborosas que “Rinconete e Cortadillo”, escolhida pelos editores. Achei muito interessante os dois contos do chinês Pu-Sung-Ling. Por mais difícil que seja para o Ocidente conseguir absorver a maneira de se expressar do Oriente, acho que os contos escolhidos são de se apreciar. Chama a atenção, como destacado pelos editores, a naturalidade com que o autor inclui o elemento sobrenatural. Do Daniel Defoe há “O Diabo e o relojoeiro”, uma história muito bem contada que tem como único e importante defeito o fato de acabar abruptamente, quando era visto que merecia mais.
Quando os contos começam a se aproximar do Romantismo, eles se tornam mais palatáveis à nossa atual mentalidade. “O terremoto do Chile”, do Heinrich von Kleist, eu já conhecia, e ele me admira por sua força e pela carga dramática. Um dos melhores do livro.
“Encontro inesperado”, do Johann Peter Hebel, é igualmente um dos mais bonitos.
O Xavier de Maistre leva o posto de melhor conto do livro com o insuperável “O leproso da cidade de Aosta”.
E o livro termina bem com o famoso “Rip Van Winkle”, do Washingon Irving, que, se não é o melhor conto de todos, deixa antever a evolução que teria o conto em terras norte-americanas.
Foi bom ler, bem mais pelo Romantismo que pela Idade Média.