Qualquer coisa que Jodorowsky faz artisticamente é digna de nota. E olhe que ele faz muitas - cinema, tarô, psicomagia e, neste caso, quadrinhos.
Seus filmes são atordoantes (o impacto de tê-los visto continua comigo até hoje), suas leituras sobre tarô, simbologia, alquimia e o que ele chama de "psicomagia" são sempre ricas em significados e começam a fazer, hoje, cada vez mais sentido à medida que outros grandes nomes também dos quadrinhos como Alan Moore, Grant Morrison e Neil Gaiman se revelam e até se autoproclamam, respectivamente, como um bruxo sagaz, um iluminado abduzido e um grande mitólogo - ou seja, aparentemente está todo mundo ficando maluco. Porém, Moore dá um exemplo muito simples dessa ligação entre o místico e o artístico ao atentar para a ambiguidade da palavra "Spell", que significa tanto "soletrar" quando "feitiço", e Joseph Campbell, o mais famoso e influente mitólogo do século passado, diz que os xamãs de ontem são os artistas de hoje.
Jodorowsky é um desses belos casos em que artista e místico se confundem e seus trabalhos, assim como os de seus companheiros híbridos, refletem pensamentos e leituras de nível espiritual e mitológico, que sempre soam atemporais e ressoam como poucos dentro de quem as lê. "O Incal", sua obra mais famosa em quadrinhos, é uma obra-prima, assim como "A Casta dos Metabarões", que fazem parte do mesmo universo de ficção científica. Em "Screaming Planet", a abordagem também é sci-fi, apesar de não ter relação com o universo das obras anteriores. Trata-se de pequenos contos ilustrados por artistas diversos, com rápidos e reveladores prefácios de Jodorowsky acerca de seu processo de criação e adaptação ao estilo de cada artista. Um planeta destruído por seus habitantes e que vaga no vazio do espaço, afligindo com seu lamento outros planetas pelos quais passa é o motivo que costura toda a trama. (semelhanças temáticas com "Melancolia", de Lars von Trier são mera coincidência, já que ambas as obras foram lançadas no mesmo período)
A proposta do projeto, de histórias curtas, e seu estilo, no geral, lembram os de "Heavy Metal", mas sem a alta dose de hormônios e de ironia. As histórias, apesar de curtas, são épicas e trágicas como já é habitual de Jodoroswky, além de seus temas favoritos estarem aqui, como androginia, ressureição, ciclos, sacrifício, sonhos, corpos amputados e conflitos entre carne e intelecto. Os entendidos reconhecerão facilmente as inspirações mitológicas e simbólicas de algumas histórias, como a da deidade que é o sonho de um grande tigre em "Who's Dreaming Now?", assim como Brahma é o sonho de Vishnu no budismo, ou o menino que chora ouro em "Tears of Gold" retoma as circunstâncias de uma benção maldita, como na lenda grega de Midas.
Já que o cinema já não mais lhe basta ou simplesmente lhe deu as costas, vida longa a Jodorowsky e que os quadrinhos continuem a reverberar e revelar toda sua dimensão mágica.