Este livro é um imenso nó na garganta, que começa logo na dedicatória:
“Dedico este livro a todos quantos a vida não chegou para o relatar. Que eles me perdoem não ter visto tudo, não ter recordado tudo, não me ter apercebido de tudo.”
Não é um livro de leitura fácil, por várias razões. A primeira é, evidentemente, o conteúdo, o relato da experiência do autor e de outros 27 antigos presos políticos nas prisões e campos de trabalho russas nos anos 1930-50. Mas o livro também se torna difícil pela escrita torrencial e pela nomeação de políticos da época e personagens e acontecimentos históricos, que me deixaram um pouco perdida dados os meus fracos conhecimentos da história da Rússia. No entanto, é um livro que recomendo e que me deixou com vontade de ler mais, tanto sobre o período pré, como pós revolução.
Ficam alguns excertos que fui anotando: da pág. 93, onde após uma descrição bastante gráfica dos vários tipos de tortura a que eram submetidos os presos políticos, e que não quero reproduzir, o autor conclui que Aquilo que ainda se admitia sob o poder de Aleksei Mikhailovich e que já sob Pedro, o Grande parecia bárbaro; (...) e que já era completamente impossível de suceder no reinado de Catarina, isso foi realizado em pleno florescimento da sociedade do nosso grande século XX, concebido segundo os princípios socialistas (...). E foi realizado, não por um criminoso isolado num lugar secreto, mas por dezenas de milhares de bestas humanas, especialmente amestradas, sobre milhões de vítimas indefesas.
Na pág. 156, encontrei a descrição exata da minha opinião acerca das ideologias, embora nunca a tivesse formulado:
A ideologia! Ela fornece a desejada justificação para a maldade, para a firmeza necessária e constante do malfeitor. Ela constitui a teoria social que o ajuda, perante si mesmo e perante os outros, a desculpar os seus actos e a não escutar censuras nem maldições, mas sim elogios e testemunhos de respeito. Era assim que os inquisidores se apoiavam no cristianismo, os conquistadores no engrandecimento da pátria, os colonizadores na civilização, os nazis na raça, os jacobinos (de ontem e de hoje) na igualdade, na fraternidade e na felicidade das gerações futuras.
Na pág. 171, Soljenitsine descreve como conheceu, na prisão, um velho bolchevique, agora considerado indesejável e, mesmo após conhecer a sua história, contada na primeira pessoa, tem dificuldade em libertar-se das suas ilusões acerca do regime (p. ex., que Lenine era um herói, e a culpa de tudo o que se passa no presente é unicamente de Staline, não possuindo raízes mais fundas):
(…) chega-se à conclusão que da deportação czarista somente não fugiam os preguiçosos, tão fácil isso era. Fastenko foi dos que “fugiu”, ou seja, saiu simplesmente do lugar do desterro sem passaporte. Dirigiu-se a Vladivostoque, esperando partir de barco com o auxílio de um conhecido. Não conseguiu, não se sabe porquê. Então, sempre sem passaporte, cruzou tranquilamente, de comboio, toda a mãe Rússia, viajando até à Ucrânia, onde era bolchevique clandestino e onde tinha sido preso. Ali deram-lhe um passaporte de outra pessoa e dirigiu-se para a fronteira austríaca, a fim de a passar. Esta empresa era considerada pouco perigosa, e a tal ponto Fastenko não sentia atrás de si o hábito da perseguição que manifestou uma despreocupação surpreendente: ao atingir a fronteira e ao dar o seu passaporte ao funcionário da polícia, apercebeu-se, de repente, de que não se recordava do seu novo apelido! Que fazer? Os passageiros eram uns quarenta e o funcionário já tinha começado a chamá-los. Fastenko fingiu que estava a dormir. Ouvira entregar todos os passaportes e como tinham chamado diversas vezes por um tal Makarov, sem ter a certeza de se tratar dele. Finalmente, o dragão do regime imperial inclinou-se para o clandestino e, amavelmente, tocou-lhe no ombro: “Senhor Makarov! Senhor Makarov! Por favor, o seu passaporte!”. Fastenko viajou até Paris. Ali conheceu Lenine (…).
Para mim dir-se-ia que o mais importante e admirável nesse homem era o facto de ter conhecido pessoalmente Lenine, mas ele próprio recordava isso de modo completamente frio. (…)
Ele dizia-me claramente em russo: “Não cries ídolos!” Mas eu não o compreendia!
Ao ver a minha exaltação, ele repetia, insistentemente, por mais de uma vez: “Você é matemático, para si é imperdoável esquecer Descartes: há que submeter tudo à dúvida! Tudo!” Ou então dizia: “Quase não há já velhos presos políticos, eu sou um dos últimos. Os velhos deportados políticos foram todos aniquilados e a nossa associação foi dissolvida logo nos anos 30.” “Mas porquê?” “Para que não nos reuníssemos e não discutíssemos.” Embora estas simples palavras, ditas em tom tranquilo, fossem de bradar aos céus (…) eu compreendia-as só como tratando-se de outra malvadez de Staline. Um facto penoso, mas sem raízes.
Na pág. 188 encontrei uma descrição comovedora do conforto que os presos políticos encontravam nos livros, disponíveis em algumas prisões, no meio de toda a miséria em que (sobre)viviam:
Mas a biblioteca é o ornato da Lubianka (…) Mas que maravilha: cada dez dias, vindo buscar os livros, vai satisfazendo os nossos pedidos! Ela escuta, com essa mecanização inumana da Lubianka, sem se poder compreender se ouviu bem os nomes e os títulos, ou mesmo as nossas palavras. Depois sai. Nós passamos várias horas entre a inquietação e a alegria. Durante esse tempo são folheados e verificados todos os livros que nos foram entregues: procura-se ver se deixámos picadas ou pontos debaixo das letras (é esse um processo de correspondência dentro da prisão), ou se assinalámos com a unha as passagens de que mais gostamos. Inquietamo-nos com isso, embora não sejamos culpados de nada. Eles podem vir e dizer que foram descobertos pontos,e, como sempre, terão razão, como sempre não terão necessidade de provas e ficaremos privados, durante três meses, de livros, se é que não transferem toda a cela para os calabouços. E são estes os melhores e os mais radiosos meses prisionais, enquanto não nos enterram na cova de um campo de trabalho! Como é doloroso ter de passar sem livros! Nós não tememos apenas, estremecemos, tal como na adolescência ao mandar uma carta de amor e ao esperar a resposta. Virá ou não? E qual será?
Na pág. 265 é descrito o modo de funcionamento dos tribunais revolucionários, que após o derrube do regime czarista e eliminação do respetivo código penal, funcionaram durante quatro longos anos sem um código no qual se baseassem, sem que isso fosse considerado um problema. Estes são excertos retirados de uma coletânea de discursos de N.V. Krilenko, primeiro-comissário do Povo e acusador de alguns dos principais processos judiciais:
O Executivo do Comité Central tem o direito ilimitado de amnistiar e castigar segundo o seu belo prazer. (…) Tudo isto, diferencia com vantagem o nosso sistema, da falsa teoria da separação de poderes, que é a teoria da independência do poder judicial. É bom que os poderes legislativo e executivo não estejam separados, como no Ocidente (…) Todos os problemas se podem resolver rapidamente.
E que não venham dizer-me que os nossos tribunais penais devem aplicar exclusivamente as normas escritas existentes. Vivemos um processo revolucionário (…) Num tribunal revolucionário não devem renascer as subtilezas e os casuísmos jurídicos (…) O conceito de culpabilidade é um velho conceito burguês. (…) Um tribunal revolucionário é um órgão de luta da classe operária contra os inimigos e deve atuar sob o ponto de vista dos interesses da Revolução (…) tendo em conta os resultados mais desejáveis para as massas operárias e camponesas. (…) No nosso tribunal revolucionário não fazemos caso nem dos artigos nem das circunstâncias atenuantes; devemos partir de considerações de utilidade.
Na pág. 303 explica-se como foi preparado o novo Código Penal e as “melhorias” introduzidas por Lenine no seu rascunho:
Seis artigos do código previam como pena máxima o fuzilamento. Isso era insatisfatório. Em 15 de Maio, em notas à margem do projecto, Vladimir Ilich Lenine acrescentou mais seis artigos, para os quais era imprescindível o fuzilamento (entre eles, o artigo 69º: propaganda e agitação… em particular, o incitamento à resistência passiva contra o Governo, ao não cumprimento em massa das obrigações militares, ou ao não pagamento dos impostos). O fuzilamento devia ainda ter lugar noutro caso: por regresso, sem autorização, do estrangeiro.
Na página 500, Soljenitsine descreve o inesperado regresso à prisão onde havia estado anos antes, após transportes em vagões de gado e estadias em campos, e a forma como, por comparação com o que entretanto viveu, esta agora lhe parece quase um paraíso:
Nesse chão asfaltado, debaixo dos beliches, rastejando como os cachorros, com o pó e as migalhas a cair nos olhos, eu era absolutamente feliz (…) Dizia Epicuro, com justeza: “A ausência de diversidade pode sentir-se com prazer quando se sucede a amarguras diversas” (…) Nessa cela mantiveram-me dois meses, mas dormi o sono do ano anterior e o do ano seguinte (…) vinte minutos de passeio, era coisa mais deliciosa! Não renunciávamos ao passeio mesmo que chovesse torrencialmente. Mas o principal eram as pessoas, as pessoas, as pessoas! Pela noite não havia discussões, organizavam-se palestras, concertos. (…) Os emigrantes faziam relatos sobre os Balcãs e a França. Alguém pronunciou uma palestra sobre Corbusier, outro sobre os hábitos das abelhas, ainda outro sobre Gogol. (…) Kostia Kiula, da minha idade (…) lia os seus versos escritos na prisão. A sua voz estava embargada pela emoção. (…) Quando na cela ouves declamar versos escritos na própria cadeia, não pensas se o autor se desviou do sistema tónico-silábico e se as linhas terminam com assonâncias ou se rimam. Estes versos são sangue do teu coração, são lágrimas da tua esposa. Na cela, choravam.
E quase a fechar este primeiro volume, algumas reflexões finais:
O mais importante na vida, todos os enigmas dela, se quiserem, exponho-os já a vocês… Não corram atrás de fantasmas, atrás de alucinações, de bens e de títulos: isto consegue-se à força do nervos ao longo de décadas e é confiscado numa noite. Vivei com supremacia sobre a vida, não vos assusteis com as desgraças e não vos canseis da felicidade, pois, como quer que seja, nem o amargo dura um século, nem a doçura é plena. Já não será pouco se não ficardes gelados e se as garras da sede e da fome não vos rasgarem as vísceras. Se não tendes a coluna vertebral fraturada, se as duas pernas se movem, se os dois braços se endireitarem, se ambos os olhos vêem, e os ouvidos ouvem, a quem tendes de invejar? Para quê? A inveja dos outros é o que mais nos corrói, lavem o coração e dêem valor, antes de mais nada, aos que vos amam e estão convosco. Não os molestem, não os insultem e não se separem de qualquer deles por uma zanga: pois nunca ninguém sabe se essa pode ser a última atitude perante eles, e assim ficar-se lamentavelmente na sua memória!...
Em resumo, um livro difícil de ler, mas que estou feliz por ter conseguido levar até ao fim. Daqui a uns meses hei-de ler o segundo volume. Agora vou fazer uma pausa para aprender sobre a história da Rússia e intercalar outros livros que tenho em fila de espera.