É sempre bom regressar aos clássicos e ao formato conto que gosto especialmente nos escritores russos. Este "O Diabo e Outros Contos" lê-se muito bem e os contos são dos bons. Vou apenas destacar os três de que mais gostei.
O Diabo:
É como a sinopse descreve, uma sombria parábola sobre tentações carnais. Um jovem, de boa educação, após morte do pai que os deixou, a ele e à mãe, cheios de dívidas, decide mudar-se para a propriedade da família na aldeia, onde pretende resgatar a economia familiar da falência.
É um homem correcto, bem amado por todos os que com ele se cruzam. No seu afastamento da vida da cidade, a única coisa de que sente falta, e porque ainda não encontrou a mulher com quem quer casar, é do sexo casual, sem compromisso. Entende isto como uma necessidade física e é por isso que o que mais o atormenta é não haver na aldeia, por ser um sítio pequeno, forma de o fazer sem que todos o saibam e o julguem como mais um senhor que se aproveita dos mais pobres. Acaba por encontrar em Stepanida, uma mulher da aldeia cujo marido trabalha na capital, aquilo que procura, e com a discrição possível, arruma o assunto e vive verdadeiramente feliz na aldeia.
Mais tarde conhece Lisa e apaixona-se. Casa com ela e nunca mais pensa em Stepanida, porque havia de o fazer, se agora tem em Lisa tudo aquilo com que sonhou? Um dia cruza-se com Stepanida... e todas as suas certezas deixam de as ser. :)
Gostei muito desta pequena história.
O Patrão e o Moço da Estrebaria:
O patrão, Vassilí Andreitch, é um homem ambicioso, egocêntrico e explorador. Homem de família, sai de casa numa noite fria e de tempestade, com uma quantia de dinheiro considerável, para fechar um negócio da compra de um terreno. Com ele leva um empregado, Nikita, o homem que lhe trata dos cavalos, o moço de estrebaria, que com cinquenta anos, de moço já nada tinha. Sóbrio há anos é um pobre diabo, que encontra em Vassilí um patrão menos mau, que ao menos não deixa que ele e a família passem fome.
Partem os dois, o patrão bem agasalhado, Nikita nem tanto. Com o tempo a ficar cada vez mais agreste, os dois perdem-se e desviam-se do caminho que levavam. Chegam a uma aldeia vizinha, onde conhecidos os acolhem e orientam para o caminho certo, não sem antes insistirem para que passem a noite resguardados e que partam de manhã, quando a tempestade tiver passado. Vassilí insiste em partir e na urgência de fechar o negócio dos terrenos antes que outro lhe passe à frente e faça subir o preço. Partem os dois novamente, e novamente se desorientam na noite cerrada e na estrada cheia de neve. Quando achamos que nesta história todas as persoangens são aquilo que esperamos delas, somos supreendidos. :)
Temos tendência, como seres humanos a catalogar as pessoas que se cruazm connosco. Nem sempre, aquilo que aparentam ser é o que acabam por ser nas alturas mais importantes. Gostei muito deste conto.
Albert:
Albert é um músico talentoso, alcoólico e de rosto celestial. Quando toca todos se rendem ao seu talento, e a forma como o faz deixa todos à sua volta estarrecidos e sensibilizados.
Num dos bailes dados por Anna Ivánovna, e onde Albert costuma aparecer para tocar, Deléssov depois de o ouvir decide ajudá-lo. Tem de o fazer, um talento daqueles não pode continuar a ser desperdiçado em salões de baile. Deléssov quer tirá-lo da vida desgraçada que leva, da rua, quer potenciar o seu talento, torná-lo num homem diferente e leva-o para sua casa. O que acontece nesta tentativa de reabilitar Albert terão de ser vocês a descobrir.
Estes são apenas três dos contos incluídos nesta colectânea de textos de Tolstói. Vale a pena lê-los a todos e à qualidade intemporal de Lev Tolstói.
Boas leituras!