Inédito de Luiz Antonio Simas, o historiador que é referência sobre cultura popular brasileira.
Crônicas exusíacas e estilhaços pelintras reúne registros de assombro e alumbramento sobre a cultura e a gente brasileira. Tocado por Exu – orixá mensageiro, senhor das encruzilhadas – e de seu Zé Pelintra, o historiador Luiz Antonio Simas compartilha visões e táticas fresteiras contra a mortandade produzida pelo desencanto do mundo.
Nos 77 textos que compõem o livro, passeiam personagens vivíssimos – deste ou de outros mundos –, como Jaiminho Alça de Caixão, o "inventor" da profissão de papagaio de pirata; o maestro Tom Jobim tomando uísque com o imperador Nero incorporado em um médium; e a descida da entidade Nelson Rodrigues na Penha Circular. Aparecem também temas como a violência do capital sobre corpos, culturas e territórios, a força do encanto, o samba e o jogo do bicho.
Para o pedagogo e escritor Luiz Rufino, que assina o texto de orelha, "Nos pontos riscados por Luiz Antonio Simas – professor amigo da rua –, as sabedorias praticadas no trivial enredam histórias confiadas com graça, afeto, cisma e firmeza, que honram as memórias plantadas nos quatros cantos da sua aldeia."
Luiz Antônio Simas (Rio de Janeiro, 2 de novembro de 1967) é um escritor, professor e historiador, compositor brasileiro e babalaô no culto de Ifá.
Professor de História no ensino médio, é mestre em História Social pela Universidade Federal do Rio de Janeiro.
Simas já trabalhou como consultor de acervo da área de Música de Carnaval do Museu da Imagem e do Som do Rio de Janeiro, e como jurado do Estandarte de Ouro, maior premiação do Carnaval carioca. Foi também colunista do jornal O Dia[2], e desenvolveu o projeto "Ágoras Cariocas", de aulas ao ar livre sobre a história do Rio de Janeiro. Em seus livros, procura resgatar a memória oral da cidade, especialmente da população marginalizada
Os livros do Simas falam por si só, então deixarei uns trechos abaixo. Os três referente a samba. O material de trabalho do autor são as ruas, a história do Rio de Janeiro, da formação da identidade brasileira, estratégias de resistência ao desencanto proposto por grupos que querem a qualquer custo higienizar esse país.
"Crônicas Exusíacas" é um livro de textos curtos, bem ligeiros de ler, quase um apanhadão geral de muita coisa que já ouvi o Simas falando em redes sociais e palestras. Muito bom e ligeiro. Se você nunca leu nada dele, recomendo começar por "O Corpo Encantado das Ruas" e pegar esse em seguida.
Trechos: Escolas de samba são – em suas origens – instituições comunitárias de construção, dinamização e "redefinição de laços associativos e comunitários dos negros cariocas no período pós-abolição. Um desfile de escola de samba tem particularidades incompreensíveis para aqueles que não têm qualquer laço de pertencimento com estas vivências e seus rituais."
"A experiência da casa da Tia Ciata mostra também que a história do samba é muito mais que a trajetória de um ritmo, de uma coreografia, ou de sua incorporação ao panorama mais amplo da música brasileira. O samba é muito mais do que isso. Em torno dele circulam saberes, formas de apropriação do mundo, construção de identidades comunitárias, hábitos cotidianos, jeitos de comer, beber, vestir, enterrar os mortos, celebrar os deuses e louvar os ancestrais. Tudo isso que se aprendia e se ensinava na casa de Ciata de Oxum, na rua Visconde de Itaúna, 117"
"O agogô também é utilizado nas macumbas cruzadas das umbandas e omolocôs, chamando caboclos, pretos-velhos, povo de rua, crianças, boiadeiros, marujos, ciganos e todas as linhas das entidades dispostas a descer nas gumas para quebrar as barreiras entre a morte e a vida."
O autor e os objetos de sua obra se encontram num único espaço: o Rio de Janeiro que inventou o Brasil que conhecemos, que jorrou influências para todos os cantos do país, deixando-o complexo, contraditório, dividido entre a esperança e a razão. Os textos deste livro são breves histórias contadas na mesa de boteco, como numa das aulas públicas que o Simas dá no Cervantes, em Copacabana, por exemplo, mas também tem um tom que foge das palestras ou demagogias instauradas por aqueles que querem saber demais ou que clamam, sem procuração, a tutela da verdade. Os textos sabem o que sabem e isso é o suficiente para nos deixar a nós, leitores, com vontade de mais, vontade de desbravar nossa própria formação cultural, conhecer os recantos de nossas cidades, descobrir os vultos de nossa História, em especial aqueles que foram apagados pelos vultos de nossa História. Ler este livro é como ter desejos de nós mesmos para além do que fomos ensinados a querer de nossa presença cívica ou nos sacudir para fora da carcaça do homem cordial. Quisera pudéssemos falar mais sobre nas escolas, nas aulas menos europocentradas, no acolhimento de nossa algaravia enquanto povo. Recomendadíssimo!
4,5 porque não foi toda crônica que me brilhou os olhos, mas Simas é de um conhecimento absurdo, e aqui teve uma escrita completamente gostosa e despretensiosa daquelas que te faz querer sentar num boteco com ele por algumas horas só trocando causo, e te faz (re)apaixonar pela lindíssima língua brasileira com todas suas influências e seus jeitinhos.