«Mais tarde alguns lembraram que tudo começou naquele Domingo seco em que a terra tremeu. Coisa sem importância, num instante seco sentida noutro instante acalmada, nem mesmo Irene a tonta pensou que lhe servisse de mote em pregação. Um tremor ligeirinho no afrouxar da noite, hora de moribundos e de bêbedos, todos pensando que se balouçavam em líquidos maternos, quentes e protectores. Os outros, muito poucos, que estavam acordados: mulheres suspensas do tossir das crias, velhos apunhalados por insónias, tinham ficado em dúvida se fora realmente o chão que se ondeara numa sacudidela ou se tontura provocada por um sangue de repente engrossado ao de cima dos olhos.»
HÉLIA CORREIA nasceu em Fevereiro de 1949, licenciada em Filologia Românica e professora de Português do ensino secundário. Apesar do seu gosto pela poesia, é como ficcionista que é reconhecida como uma das revelações da novelística portuguesa da geração de 1980, embora os seus contos, novelas ou romances estejam sempre impregnados do discurso poético. Na sua ficção, conflui o reatar de uma herança literária que impõe certa linearidade à escrita romanesca com a assimilação de traços da narrativa contemporânea que vão de um García Márquez ou Carpentier até à novelística de Agustina Bessa-Luís, numa tendência para surpreender o sobrenatural no quotidiano da vida provinciana e burguesa, ou para transpor para a escrita romanesca o plano em que a dimensão social das relações humanas se cruza com a religiosidade, com a superstição e até com o irracional. Estreou-se na poesia, em 1981, com O Separar das Águas e O Número dos Vivos em 1982. A novela Montedemo, encenada pelo grupo O Bando, deu à autora uma certa notoriedade. Aliás, Hélia Correia revelou, desde cedo, o gosto pelo teatro e pela Grécia clássica, o que a levou a representar em Édipo Rei e a escrever Perdição, levadas à cena, em 1993, pela Comuna. Escreveu também Florbela, em 1991, que viria a ser encenada pelo grupo Maizum. Destacam-se ainda na sua produção os romances Casa Eterna e Soma, e, na poesia, A Pequena Morte/Esse Eterno Conto. Recebeu em 2002 o prémio PEN 2001, atribuído a obras de ficção, pela sua obra Lillias Fraser, e em 2006 o Prémio Máxima de Literatura, pela obra Bastardia.
4.5 ⭐️ Estou cada vez mais encantada com a escrita e com os temas que Hélia Correia aborda nos seus livros. Descobri-a quase por acaso e, desde então, tenho mergulhado nos mundos que ela nos oferece. Em Montedemo, existe o monte Montedemo, que parece ter uma vida própria, como se fosse um ser que respira e que, por isso, está separado de tudo o resto. Neste monte o espaço funciona como uma força mítica, algo que ultrapassa a lógica da aldeia e que perturba a ordem social. Aqui existem momentos em que relações humanas mais livres contrastam com a mentalidade opressiva da população. Focando-se em algumas personagens de uma aldeia, especialmente em diferentes mulheres, o livro aborda temas como a autonomia do corpo feminino, o racismo e as superstições que abalam uma população inteira. Por não compreenderem o que acontece à sua volta, as pessoas acabam por agir com base no medo, no preconceito e no ódio. Tudo isto acaba por unir a população numa espécie de ignorância coletiva, onde se tenta combater aquilo que não se compreende, ou aquilo que, simplesmente, se prefere não compreender. Vivem assim numa bolha de ódio, mesquinhez e miséria humana. O final do livro encerra de forma deliciosa. “Não há limites para o que é humano. — Amem-se — diz Dulcinha. — Nunca se sabe o fim.”
Neste tipo de situações custa-me manter a concentração durante a leitura, no entanto a escrita do livro despertou a minha atenção. Achei a escrita muito boa e delicada.
A história, que se passa numa aldeia, está cheia de simbolismos populares; destaca-se a figura da mulher e abordam-se temas como o prazer, o pecado e o preconceito.
Milena e Ercília, Tenório e Dulcinha, Irene, Dulcinha e Isaura, uma gravidez do nada, um bebé negro, mulato e... o Montedemo com uns ares diabólicos, tudo isto envolve o leitor que vai ficando preso na novela sem ter a certeza de ter saído dela quando lê a última frase de Dulcinha: «-Amem-se - diz Dulcinha. - Nunca se sabe o fim.»