O Imortal, Machado de Assis: É impossível não ler este conto sem pensar em Mary Shelley ou Borges. Assis segue o caminho do imortal cansado da vida, farto de perder entes queridos e ver o mundo passar sem que nada mude, realmente. Dá-lhe uma variante tipicamente brasileira, com a imortalidade conferida por um elixir ciosamente guardado por uma tribo amazónica a um nobre filho de pai holandês e mãe espanhola cujo ardor pela vida o leva às maiores aventuras pela europa e américas. O conto torna-se interessante precisamente pelo que não nos conta, sugerindo ao invés de detalhar as peripécias que o nobre e progressivamente fatigado imortal vive. Incluir este conto numa colectânea de FC parece-me esticar demasiado o conceito. A narrativa é belíssima, mas não tem nada a ver com o género, e o antologista justifica-se com uma rebuscada interpretação do elixir primevo à luz da para-ciência homeopática. Pode não ter elementos de FC, mas é uma belíssima variante de temas explorados nos mais bem conhecidos contos The Mortal Immortal ou El Immortal (sublinhando-se, claro, que o conto de Borges é posterior ao de Assis).
Meu Sósia, Gastão Cruls: O antologista refere que Cruls ganhou o lugar no panteão da FC brasileira com um romance de história alternativa sobre Amazonas na amazónia. Para esta antologia seleccionou um conto bem construído sobre doppelgangers, sublinhando o paralelismo com William Wilson de Poe. O conto de Cruls segue um outro caminho, mais psicológico, com um escritor a deparar-se com seu duplo rival enquanto pesquisa material para um novo livro. A conclusão do conto aponta para o artifício fácil de resolver a narrativa como uma alucinação do protagonista.
Água de Nagasáqui, Domingos Silva - Sobreviver ao impossível deixa marcas. Um sobrevivente dos bombardeamentos nucleares de Nagasaki descobre que é portador de uma estranha maldição. Aparentemente não afectado pela radiação, provoca a morte de todos os que o rodeiam.
A Espingarda, André Carneiro - Um típico relato pós-apocalíptico, com um personagem a vaguear pelas ruas das cidades destruídas, sobrevivendo por entre as ruínas e cadáveres. A solidão é-lhe dolorosa, e quando finalmente encontra um outro sobrevivente, o encontro decorre de forma muito inesperada e acaba resolvido a tiro.
O Copo de Cristal, Jerônimo Monteiro - Um conto de fortes conotações políticas, compreensíveis mesmo para aqueles que têm um conhecimento difuso da história brasileira. Um homem idoso, a recuperar do trauma de uma prisão por motivos políticos, encanta-se com um copo de cristal que o acompanha desde a sua infância. Quando a noite cai, estranhas cores são visíveis no cristal transparente. Mas a sua mulher e sogro vêem mais, vêem imagens de guerra e morte no futuro ou passado trazidas pelo crista cristalino.
O Último Artilheiro, Levy Menezes - Mais uma aventura pós-apocalíptica, com o último sobrevivente de uma pandemia coligada com ataques nucleares automáticos a disparar um canhão do alto do abrigo bem abastecido que encontrou. Aparentemente dedica-se a exterminar répteis que talvez estejam a tornar-se bípedes.
Especialmente, Quando Sopra Outubro, Rubens Scavone - Essencialmente uma reescrita de contos de Ray Bradbury nesta história sobre uma rapariga que tem o poder de criar manifestações físicas do que sonha.
Exercícios de Silêncio, Finísia Fideli - Um dos contos mais sólidos na abordagem clássica à FC. Um astronauta com a sua nave avariada aterra numa colónia perdida cujos habitantes regrediram em consciência para formas de vida e organização social pré-tecnológica. Obra sólida, com um intrigante mundo ficcional.
A Morte do Cometa, Jorge Calife - Outro conto a aproximar-se da Hard SF (têm sido raros, nesta antologia). Num futuro próximo, uma missão para salvar o cometa Halley da erosão causada pelos seus múltiplos volteios pelo sistema falha redondamente. Intrigante como homenagem a um cometa que é símbolo do progresso científico.
A Mulher Mais Bela do Mundo, Roberto Causo - Um conto incómodo, que parece ser uma banal história de romantismo entre um fotógrafo brasileiro a viver em Nova Iorque e uma bela mulher, mas que ganha toda uma nova dimensão quando um alienígena entra em cena. Alienígena esse que decide abandonar a Terra após ver o trabalho do fotógrafo, que registou uma miséria e desigualdade tão comum quer às civilizações humana quer à extraterrestre.
A Nuvem, Ricardo Teixeira - A encerrar a antologia, um conto delicioso na forma como urde narrativas tradicionais com ficção científica pura. A história é sobre uma cidade do interior brasileiro desaparecida e esquecida pela memória, após longos anos de seca e o surgir de uma estranha nuvem que parece recupera o viço aos terrenos mas se revela como uma experiência falhada de colonização alienígena. A antologia encerra como inicia, com um conto de extraordinária qualidade literária.