A descoberta de um retrato daquele avô cuja história a família sempre encobriu - Mateus Mateus, o gigante de olhar estranho que partiu, no contingente português, para a Flandres durante a Primeira Guerra Mundial - é o pretexto que a narradora encontra para, simultaneamente, escrever um romance e se afastar de um casamento que parece condenado ao fracasso. Para saber mais sobre o passado desse desconhecido, parte, também ela, para a propriedade de La Peylouse, em Saint-Venant, que alojou o Estado-Maior português nos anos 1917-1918 e da qual o avô, depois de ter servido na frente como maqueiro e coveiro, foi enviado numa missão de espionagem, acabando prisioneiro dos alemães. No bizarro hospital onde passa os meses que antecedem a batalha de La Lys (o mesmo onde virá a ser internado um cabo alemão chamado Adolf, atacado de cegueira histérica), Mateus Mateus cruza-se com figuras inesquecíveis: Alvin Martin, um inglês albino dado às premonições; Hugo Metz, o médico que usa métodos de inspiração freudiana para interrogar os pacientes; o órfão Émile Lebecq, pequeno ladrão e ilusionista amador; e, sobretudo, Georgette Six, a bela enfermeira francesa que perdeu o noivo na guerra e pela qual o português se tornará um homem diferente. E, porém, à medida que a neta de Mateus Mateus vai desfiando essa história - num jogo em que a realidade se torna indestrinçável da ficção -, também a sua vida é sacudida por uma paixão - e só o encontro com Cyril Eyck e o seu bisavô centenário trará a chave para os enigmas do próprio romance.
Toda a obra é um desbravar de auto-conhecimento que acompanhei deliciada. É realmente um romance lindíssimo, com passagens – como a que transcrevi – escritas com uma subtileza e uma assertividade que me conquistaram e que me fazem querer ler mais do que escreveu Cristina Drios. Criatividade, originalidade, personagens bem redondas, ambientes muito bem retratados e um estilo muito primoroso – ingredientes mais do que suculentos para que recomende vivamente a leitura de Os olhos de Tirésias. NOTA - 09/10
Cristina Drios era-me desconhecida até há pouco tempo. Depois de Adoração, senti que tinha de ler tudo o que tivesse publicado. Que não é muito em números, mas é de qualidade evidente e representativa de uma nova geração de (alguns) autores merecedores da nossa atenção. Os Olhos de Tirésias tem pouco mais de 200 páginas e personagens com características fora do comum; personagens que nos sorvem para o seu mundo próprio e nos aprisionam no seu universo singular, não nos consentindo antecipar o que poderá vir a acontecer. Tem uma Guerra como pano de fundo, e tem explanado o realismo da desgraça que nos conduz à fúria dos elementos, ao medo da morte e do sofrimento, à inexorável impotência de quem combateu e sofreu na IGG. E tem a estória paralela de uma mulher que em busca do misterioso passado de um avô já morto, procura desvendar também o seu próprio caminho. Para dar vida a este emaranhado de gente e emoções que se entrecruzam e dão corpo à narrativa, contribui grandemente a escrita cinematográfica e sensorial de Cristina Drios, como a cola que une todos os fios. E foi isso, e não o desenrolar dos acontecimentos o que mais me prendeu. O amplo vocabulário, o rigor histórico e as pequenas e sumarentas curiosidades, deixaram-me à sua mercê até ao virar da última página.
Há livros que nos contam, logo nas primeiras páginas, que serão dos nossos preferidos. O ano de 2015 está a terminar. Não ligo a listas de preferidos, não escolho os meus livros top, estou sempre a pensar no que ler a seguir e, quando muitos leitores refazem o caminho percorrido, eu dou por mim a organizar o meu 2016 em leituras. É por isso curioso que este ano me tenha reservado algo tão bom para o fim. Tão bom que me faz, a mim, a anti-listas de favoritos, repensar leituras, olhar para trás, para ter a certeza de que, Os Olhos de Tirésias foi mesmo do melhor que li este ano. Confirmo que sim. Poucas vezes, nas minhas leituras, senti que a escrita me inundava de beleza. A busca pela beleza é inglória. O bom pode sempre ser melhor, o belo tem de nos extasiar, levar ao próximo nível. Estas páginas levaram-me embalada na beleza da escrita da Cristina. Leio rápido, sôfrega de chegar ao fim, muitas vezes leio o fim antes do tempo, sem calma nem ponderação. Mas desta vez não consegui. Quis, sempre, ficar um pouco mais enredada na escrita densa, saboreando as palavras nas frases, as frases no texto, atravessando as fronteiras do espaço e do tempo, e indo, realmente indo, aos locais. A beleza da escrita e o vocabulário rico não dissimulam os horrores da guerra. O horror pode ser belo se nos marcar de forma permanente, fazendo-nos querer ler outra e outra vez determinada passagem, mesmo que dura, mesmo que de cada vez sintamos que são os nossos pés que estão a congelar de frio na trincheira, ou que é sobre o nosso corpo que as ratazanas se passeiam. E depois sentir o amor. Lê-lo e senti-lo nascer da dor, do frio e do sangue, como a paz no meio da luta, o esconderijo, a porta que se fecha deixando o sofrimento de fora. Conto-vos apenas que há uma mulher que quer descobrir quem foi o seu avô. Esta mulher quer escrever, e luta por conhecer a história desse antepassado que combateu na Primeira Guerra Mundial. Recupera-lhe a infância e reconstrói-lhe o percurso. Reconhece-lhe o círculo negro que o isola, e sabe-o como se ele estivesse vivo, na sua frente, e lhe pudesse contar que não sabe sentir. Que nada o magoa, seja a miséria ou o frio quando criança, seja estar só na noite da guerra rodeado de mortos. Até um dia. Porque há sempre um dia que é o fim de tudo, mesmo das coisas más. Nesse dia o círculo negro fica menos negro. E esta mulher luta, num escritório pequeno onde cabe uma parte do mundo, por escrever. Luta com as palavras que nunca são, para ela, as certas, que apaga muitas vezes até que tudo fique no papel como é na sua cabeça. Sofre e observa. Viaja para França para descobrir o avô e tropeça no amor. Mas a distância alimenta a dúvida e, no seu mundo de palavras, a memória é traiçoeira. Insegura e um pouco tonta, embrenha-se cada vez mais na sua solidão. Na angústia. Na expectativa. Recupera documentos e cartas. Trabalha. Cria as personagens inesquecíveis deste livro, coloca-as num cenário real, que deixa de ser cenário para ser vida, as suas vidas, reais, que aconteceram. Porque depois da última página ninguém tem dúvidas disso. “Nas nossas vidas, construídas, tijolo a tijolo, de acasos, o azar ocupa pouco lugar; há sempre uma razão para estarmos em determinado local, e não onde supostamente deveríamos estar, acomodados e obedientes, embora não tenhamos logo a consciência do que, na verdade, ali nos levou. E quando, ao contrário da vaga impressão de não estarmos onde deveríamos estar – ainda que não sabendo onde isso fosse, tão infinito é esse mundo de possibilidades-, intuímos finalmente essa razão, esse momento único e irrepetível fica, indelével, na nossa memória e nos nossos sonhos.” (Pág. 18); “Creio que, para se tornarem marcos miliários na vida do leitor, os livros carecem de uma leitura não só no tempo certo, como no local certo, como ainda, nesse tempo e local, abrindo campo a uma possibilidade latente, escondida, talvez mesmo rejeitada. Como o amor. Abrem-nos os olhos para um desejo, qualquer coisa a latejar cá dentro que não queríamos ou sabíamos exprimir. Ali está, preto no branco, de repente tudo se torna claro, preciso e irrefutável, abre-se uma porta e, daí em diante é impossível arrepiar caminho. Como se o diabo nos entrasse no corpo.” (Pág.122); http://planetamarcia.blogs.sapo.pt/os...
O romance "Os Olhos de Tirésias", escrito por Cristina Drios (publicado em 2013 pela Editorial Teorema e finalista do Prémio LeYa), é uma obra literária que cruza a investigação histórica, o drama de guerra e o realismo mágico. A narrativa constrói-se em dois tempos cronológicos: o presente de uma mulher que tenta desvendar o passado oculto da sua família, e o passado traumático vivido nas trincheiras da Primeira Guerra Mundial.
1. Resumo e Resenha da Obra Resumo da Intriga A história começa no presente quando a neta de Mateus Mateus descobre um retrato antigo do seu avô. O passado deste homem sempre foi um tabu, envolto em silêncios e segredos familiares. Decidida a quebrar o mistério, ela inicia uma investigação que a leva a recuar até janeiro de 1917, altura em que o avô — um homem gigante de fisionomia imponente e olhar estranho — partiu de Portugal rumo às trincheiras da Flandres integrado no Corpo Expedicionário Português (CEP). Na Europa devastada pela guerra, a narrativa acompanha a brutalidade diária dos soldados e foca-se no triângulo psicológico e afetivo que envolve Mateus, o enigmático soldado Alvin Martin, e Georgette Six, uma bela enfermeira francesa marcada pelo luto do seu noivo. No presente, a busca da narradora cruza-se com Cyril Eyck e o seu bisavô centenário, que guarda a chave para desvendar o enigma final desta história.
Resenha Crítica O livro destaca-se pela sua escrita poética e inundada de beleza, conseguindo transformar o cenário estéril e lamacento da guerra num espaço de intensa exploração existencial. Cristina Drios recusa a linearidade do romance histórico tradicional, optando por um "jogo de espelhos" onde as linhas entre a realidade documental e a ficção mágica se diluem. A obra aborda com maestria a "cegueira" humana — a nossa incapacidade de ver o outro e a tendência de repetir os mesmos erros históricos. É uma leitura extasiante que resgata a memória dos soldados esquecidos através da dignidade do mito.
2. Descrição das Personagens Principais e Evolução • Mateus Mateus: Inicialmente apresentado como um "gigante" físico, rústico e calado, cujo olhar denota uma estranheza profunda. À partida para a Flandres, carrega a passividade e o desconhecimento típicos dos rapazes rurais portugueses enviados para a guerra. No entanto, o contacto com o horror, com a clarividência e com o amor transforma-o radicalmente. Evolução: Transita de uma força bruta inconsciente para um homem de profunda sensibilidade e dor interior. O seu regresso a Portugal faz-se no mais absoluto silêncio psicológico (um "olhar para dentro"), tornando-se o segredo que a família tenta esconder. • Alvin Martin: É um soldado albino, meio-cego e frágil. Funciona como o oposto físico de Mateus, mas possui uma perceção espiritual aguçada. É assombrado por premonições trágicas e visões daquilo que o futuro reserva aos homens na trincheira. Evolução: Alvin não muda a sua essência, mas a sua presença atua como o catalisador da transformação de Mateus, forçando-o a "ver" as verdades invisíveis da condição humana. • Georgette Six: Uma enfermeira francesa mergulhada numa letargia melancólica devido à perda do noivo nos campos de batalha. Evolução: Através do contacto com a estranheza e a humanidade crua de Mateus, Georgette consegue libertar-se gradualmente do luto estagnado. Ela representa a ponte de afeto e a reumanização do soldado português no meio da barbárie. • A Narradora (Neta de Mateus): Começa a narrativa movida pela curiosidade intelectual e pelo desconforto face ao silêncio dos seus familiares. Evolução: Ao reconstruir os passos do avô e ao apaixonar-se no processo, ela compreende que o passado não está morto; a sua própria identidade é um produto direto das dores vividas na Flandres quase um século antes.
3. Contexto Histórico: O CEP na Flandres A narrativa ancora-se firmemente no trágico percurso do Corpo Expedicionário Português (CEP) na frente europeia. [1] • A Premissa Política vs. A Realidade: Portugal entrou na guerra, entre outros motivos, para defender as suas colónias e legitimar a recente Primeira República junto dos Aliados. Contudo, os cerca de 55 mil homens enviados para o setor da Flandres a partir de 1917 foram votados ao abandono. • O Quotidiano Desumano: O livro retrata com precisão o inverno rigoroso, a humidade extrema, as trincheiras infestadas de ratos e piolhos, a fome e o fenómeno psicológico do "pé de trincheira". Os soldados portugueses sofreram com a falta de fardamento adequado, a escassez de licenças para regressar a casa e o isolamento linguístico e cultural perante os oficiais britânicos. • O Desastre de La Lys: Embora o romance foque o percurso íntimo das personagens, paira sobre a narrativa a sombra da Batalha de La Lys (9 de abril de 1918), onde as divisões portuguesas, fustigadas e moralmente destroçadas, foram esmagadas por uma ofensiva alemã massiva, resultando em milhares de mortos e prisioneiros. O romance capta este sentimento de "carne para canhão" e o trauma coletivo que silenciou uma geração de portugueses no pós-guerra.
4. Paralelos com o Mito Grego de Tirésias O título é a chave metafórica que une a narrativa histórica à dimensão mitológica. Na mitologia grega, Tirésias é o profeta cego de Tebas que recebeu o dom da clarividência dos deuses (embora privado da visão física) como compensação ou castigo.
O romance cria três paralelos diretos com este mito:
Elemento do Mito Paralelo no Romance Significado Filosófico A Cegueira Física vs. Visão Interior A debilidade visual de Alvin Martin e a "escuridão labiríntica" nos olhos de Mateus. Para conseguir ver as verdades mais profundas da vida e da guerra, o homem precisa de abdicar da visão superficial do mundo físico. O Peso do Conhecimento Tirésias sofria por saber o destino trágico de Édipo e Narciso sem o poder mudar. No livro, Alvin é atormentado pelas suas premonições. "Como é terrível saber, quando o saber de nada serve a quem o possui". Conhecer o horror iminente da guerra e a inevitabilidade da morte nas trincheiras converte-se numa maldição psicológica. A Dupla Perspetiva (Homem/Mulher) Tirésias viveu parte da vida como homem e outra como mulher, conhecendo os segredos de ambos os géneros. O livro divide-se em perspetivas masculinas (o trauma dos soldados na frente) e femininas (a dor da enfermeira Georgette e a busca da neta no presente). Só a junção destas duas visões permite reconstituir a totalidade da verdade histórica. Em suma, "Os Olhos de Tirésias" utiliza a tragédia real do soldado português na Flandres para ilustrar que, muitas vezes, aqueles que regressam vivos dos cenários de guerra trazem os olhos cegos para o mundo quotidiano, mas irremediavelmente abertos para a escuridão da alma humana.
A primeira vez que vi uma referência a este livro pensei: "este parece o livro que eu gostaria de ter escrito". O pai da minha avó paterna também fez parte do CEP e às vezes, quando a ouço falar dele, iludo-me com a ideia de que tenho o talento suficiente para investigar e contar a sua história. Na verdade, foi esta afinidade circunstancial que me levou a querer comprar e ler o livro logo. :) Agora que já o li sei que não é "o meu" livro. Por um lado a história que ele conta é ficção, não é a história do avô da autora mas do avô inventado de uma narradora inventada (apesar de aparecerem algumas personagens bem reais, como um certo cabo austríaco chamado Adolf e um futuro escritor de nome Erich). Por outro lado não me revi na voz da escritora, gostei da voz dela entenda-se mas sei que não seria a minha se eu ousasse tentar uma empreitada semelhante...
Devo confessar que não achei a escrita perfeita, por vezes pareceu-me ainda um pouco em bruto, a precisar de limar algumas arestas: uma ou outra frase demasiado complexa, algumas falhas de pontuação a impedir a fluidez da leitura, mas são pequenos pormenores que não beliscam a solidez narrativa e histórica do romance. O livro tem três vozes principais: a maior parte da história é contada na terceira pessoa pela narradora, neta de Mateus Mateus, mas alguns capítulos são contados na primeira pessoa, pelo avô, e outros ainda são-no na primeira pessoa pela própria narradora que nos fala da pesquisa que faz para o livro, das pessoas que conhece, do próprio acto de escrever o livro, dos seus relacionamentos e do seu quotidiano numa Lisboa actual...
Para além do estilo próprio da escritora, que nos leva desde uma aldeia perdida na serra da Lousã até aos cenários de uma Flandres em guerra, depois de uma passagem breve por Lisboa, com uma atenção constante ao pormenor que nos faz sentir que viajámos mesmo para aquele espaço/tempo, gostei também da galeria de personagens e sobretudo das inúmeras referências culturais e históricas que vão aparecendo naturalmente no romance. A título de exemplo, a autora inventou um pai a Mateus Mateus, que vive na serra da Lousã, descende de um soldado francês e é neveiro, o que lhe permite referir levemente as invasões francesas e descrever uma actividade completamente obsoleta e quase desconhecida actualmente. Em resumo, um romance-estreia que me convenceu e uma nova autora cuja obra vou querer acompanhar. :)
---------------------------------- Este livro foi o escolhido para a tertúlia de Março de 2014 do Clube Literário de Gaia, onde foi discutido com a autora. Podem ler as minhas impressões sobre essa sessão aqui.
Um bom romance sobre um tema que devia ser mais explorado: os portugueses combatentes na 1ª Guerra Mundial. Cristina Drios dá-nos uma boa imagem da miséria desta guerra, descreve muito bem as angústias, os cenários de fim de mundo e a maneira como as pessoas aprendem a viver com tais cataclismos, incluindo crianças.
O enredo salta várias vezes no tempo, pois, à medida que vai contando a história do seu avô Mateus Mateus, a narradora conta sobre o seu casamento à beira da rotura, a escrita do próprio romance e a sua viagem à propriedade de La Peylouse, em Saint-Venant, que alojou o Estado-Maior português nos anos 1917-1918. É nesta viagem que ela trava conhecimento com Cyril Eyck, que, além de a confrontar com o falhanço do seu casamento, a conduz ao seu bisavô centenário, possuidor da chave de um dos mistérios envolvendo Mateus Mateus.
Cristina Drios põe-nos em contacto com personagens que aprendem (ou não) a viver com o horror. O órfão Émile Lebecq sobrevive à custa de truques de ilusionismo, que mais não são do que uma maneira de se iludir a si próprio e aos outros; o soldado inglês Alvin Martin fica irremediavelmente traumatizado, sendo-lhe impossível viver sem a sensação de terror permanente; Georgette, uma enfermeira francesa, perde o noivo na guerra e vive uma paixão curta, mas intensa, com o português Mateus Mateus, modificando-o para o resto da sua vida. Há inclusive espaço para o insignificante cabo Adolf Hitler, que vai parar ao hospital com cegueira histérica.
Um excelente romance, mas que, na minha opinião, não deixa de ter os seus defeitos (daí, eu o classificar com três estrelas em vez de quatro). Achei o início bastante confuso e custou-me a entrar na estória. Algumas divagações da narradora no tempo atual tornaram-se-me longas, além de serem difíceis de ler, em itálico.
Uma série de acasos fez com que fosse impossível que eu passasse ao largo deste livro. O título despertou a minha atenção e o interesse redobrou-se quando soube que a editora era a Maria do Rosário Pedreira. Era difícil fugir a tão forte cartão de visita. Esta semana, a capa branca sorriu-me atrevidamente de uma montra à beira de casa. No mesmo dia, tal como tudo se tinha alinhado até então, acabara de terminar outra leitura e sentia-me pronta para um romance assim: de uma autora desconhecida, sobre um tema que é tantas vezes preterido à sua irmã mais velha - a segunda guerra mundial. As primeiras 50 páginas revelaram aquilo que eu tinha esperança de encontrar: um livro muito bem escrito. Uma escrita madura, com traços bem definidos e que nos leva por caminhos de quem sabe muito bem o que quer dizer. Talvez peque, no entanto, pelo exagero na busca da perfeição. Dei por mim a pensar no esforço que cada frase parecia conter, como se tudo tivesse sido pensado milimetricamente e não houvesse espaço para o improviso ou para deixar que aquela história crescesse sozinha e falasse por si. O enredo é engraçado e leva a que o leitor se interrogue se, em algum momento, a realidade terá invadido a ficção. Terá existido a fotografia de um qualquer Mateus Mateus com 2 metros de altura? Será que em algum ponto a autora se funde com a neta deste soldado e as suas tardes passadas num quartinho/escritório para os lados do Príncipe Real? Talvez nunca venhamos a saber, mas, convenhamos, o mais certo é que isso também não seja o mais importante.
O meu interesse por este livro foi suscitado por uma entrevista que vi da autora. Fiquei com vontade de conhecer Mateus Mateus e a sua insensibilidade. Do ponto de vista da escrita, parece-me, e não sendo especialista na matéria, que é irrepreensível, muito bem escrito. Relativamente ao enredo, não me prendeu tanto como eu esperaria, talvez por a história divergir em demasiados sentidos. No entanto, é uma autora que acho com muito potencial e que seguirei depois deste primeiro romance.