“Ninguém sabe aonde os teria levado o livre desenvolvimento das suas inclinações para a indolência. Mais uma vez, a história tinha escolhido por eles. Teriam sem dúvida gostado, como toda a gente, de se consagrar a alguma coisa, de sentir neles uma necessidade poderosa, a que teriam chamado vocação, uma ambição que os teria elevado, uma paixão que os teria preenchido. Infelizmente, só conheciam uma: a de maior bem-estar, e esta esgotava-os.”
- As Coisas -
Segundo diz o autor nos agradecimentos, “As Perfeições” é uma homenagem a “As Coisas” de Georges Perec, que li previamente para perceber até onde se estende a comparação. O livro segue os mesmos moldes, o do olhar de uma espécie de antropologista sobre a sua geração, simbolizada por um casal, Tom e Anna, a que se refere sempre como um todo, sem individualidade nem personalidade.
It was a life that they had created for themselves, building difference upon difference until it encapsulated the real them, with a freedom they would never had back home. They were proud of it. On the other side of the window the city pulsed on, calling them with promises they were in no rush to put to the test.
Em “As Perfeições” examinamos, portanto, dois bebés chorões… perdão, dois millenials italianos imigrantes… perdão, expats (não confundir com os outros que chegam a salto) em Berlim. Aí a vida nocturna é espectacular, a droga é boa, o sexo é assim-assim, está um briol que não se aguenta mas as casas, onde trabalham como freelancers, são quentinhas e têm uma Internet de truz. Como são nómadas digitais, quando o tédio aperta, decidem passar uma temporada em Lisboa por altura da Web Summit. Aí, a comida é péssima, não há aquecimento no hotel e os cobertores picam, a Internet é manhosa, só lhes resta beber Sagres nas esplanadas de Lisboa com vista para o mar (ainda me estou a rir) e ir ao cinema, mas, caramba os filmes são dobrados (ainda não me recompus). Está mesmo muito frio na Lisboa dos jacarandás azuis (sem comentários) no Outono e o alojamento é surpreendentemente caro (agradeçam a vocês mesmos e a outros como vocês), como tal, só lhes resta ir para o calor da Sicília, onde está tudo pela hora da morte, não arranjam um apartamento com vista para o mar, as vilas piscatórias não têm pescadores, a Internet é um pavor, há potenciais meliantes em cada esquina, têm uma dieta com demasiados hidratos de carbono e não se sentem bem-vindos (já disse que os protagonistas são italianos?). É decerto uma conspiração mundial contra estes dois. Ao contrário de Perec, que parecia querer compreender o seu casal, Latronico não poupou Anna e Tom, fazendo-os parecer uns meninos mimados, uns hipsters de cabeça oca eternamente insatisfeitos, preocupados com as últimas tendências de cozinha e decoração (sempre houve plantas de interior, desde quando é isso um statement?), tudo o que possa compor a fotografia perfeita nas redes sociais.
Beauty and pleasure seem as inextricable from daily life as particles suspended in a liquid.
Sempre ouvi dizer que se deve escrever sobre o que se sabe, mas parece-me igualmente ajuizado tratar de saber sobre o que se escreve. Duvido que Vincenzo Latronico, que me parece um homem tão mundano, alguma vez tenha posto os pés em Lisboa, ou se pôs foi num fim de semana movido a TukTuk, complementado com uma pesquisa básica na Internet ou por passa-palavra de pessoas tão viajadas como ele. Diz ele, por exemplo, que o centro histórico tem vista para o mar e, numa saída nocturna, tentam ir a uma festa num prédio à beira-mar, a uns passos do hotel deles, no Bairro Alto, onde as janelas do seu quarto de submundo são violentamente açoitadas pelos ventos oceânicos, mas se sente um odor a maresia e casca de eucalipto. Aquilo a que os lisboetas que não têm as narinas todas queimadinhas da coca suspeitam ser uma mistura de gases de tubo de escape com urina requentada, aposto.
In practice, their social commitment amounted to using Uber only if it was snowing and always living tips in cash. They didn’t eat tuna.
Recorrendo aos mesmos tempos verbais que Perec na obra mencionada, “As Imperfeições” pinta um retrato desapaixonado de uma geração 60 anos depois, que me trouxe exactamente o mesmo vazio e enfado, mas enquanto “As Coisas” beneficia da distância temporal, com a nostalgia de uma época relativamente distante, o livro de Latronico está demasiado próximo do actual zeitgeist para suscitar curiosidade. É como nos vermos ao espelho e, por isso, talvez faça mais sentido daqui a 60 anos. Ou 20, à velocidade a que as coisas mudam.
‘It’s all completely perfect’, the story will say. ‘It’s just like it is in the pictures’.