Ivan Búnin (1870-1953), o primeiro escritor russo a receber o Prémio Nobel da Literatura (em 1933), escreveu sobretudo contos, pequenas novelas e alguma poesia. Foi incentivado pelo irmão mais velho a ler os grandes clássicos russos. Gostava de ler Tolstoi e Tchékhov, mas não gostava de Dostoiévski. Travou amizade com Máximo Gorki e esteve no centro da vida literária russa, até à Revolução. Oriundo de uma família aristocrática falida, escreveu sobretudo sobre a vida rural russa, onde demonstrava uma visão depreciativa sobre o povo e sobre os camponeses, que julgava serem incapazes de tomar decisões por serem ignorantes. Foi critico da revolução bolchevique e deixou o seu país para passar a residir em Paris, local onde se encontrava quando rebentou a II Guerra Mundial e onde, em 1953, faleceu. Não regressou à terra natal. A sua obra só lá chegou depois da sua morte, nos anos 60.
O Amor de Mítia foi o "primeiro texto significativo escrito por Búnin na emigração" e foi publicado em 1925 e, tão-somente, narra a história de um amor juvenil febril e intenso, quase doentio. Rilke resumiu este livro na seguinte frase: "Mítia colocou todo o seu mundo no pequeno barco chamado Kátia, que fugia dele".
Mítia, um jovem estudante, conhece Kátia, uma jovem irreverente e apaixonada pelas Artes, por quem se enamora e com quem vive um romance próprio da sua idade - uma paixão intensa, carnal, mas cheia de dúvidas, de ciúmes, de receios, de corações partidos.
Apesar de um mote simples, o que eleva este livro é, sem dúvida alguma, a mestria com é narrado. Búnin, aparentemente perito em descrever a ruralidade russa como ninguém, é também perito em descrever paisagens e estações do ano como já vi poucos fazer: ao ler as descrições, cruzamo-nos com quadros em forma de letras, palavras, frases, parágrafos. É realmente fenomenal.
Nas míseras 91 páginas que compõem este livro, o leitor vai ser transportado para essas terras longínquas, onde acompanhará o amor, o ódio, o ciúme, o desejo, a repulsa que inundam a relação de Mítia e Kátia. No fundo, este O Amor de Mítia, a par de todas as maravilhosas descrições que contém, mostra que o amor tem tanto de bom como de mau, tem tanto de maravilhoso como de aterrador, tem tanto de vida como de morte.
Foi uma excelente leitura. O enredo é simples, o livro é curto, a escrita é estupenda.
“Então, todo o longo Inverno de Moscovo, feliz e torturante, que lhe transfigurara toda a vida.
apresentava-se diante de Mítia em bloco e a uma nova luz. Também a uma nova luz, a uma luz diferente, imaginava Kátia... Sim, quem é ela, como é ela? E o amor, a paixão, a alma, o corpo? O que são? Não é nada disto - O que existe é outra coisa, absolutamente outra! Este cheiro de luva não será também Kátia, não será amor, alma, corpo? Também os camponeses, os operários aqui da carruagem, esta mulher que leva à retrete o filho feioso, as velas tremeluzentes nos candeeiros que tilintam, o crepúsculo nos vazios campos primaveris - tudo isso é amor, tudo é alma, tudo é tormento, tudo é alegria indizível." (pág 30)
“Um feitiço semelhante - mas de sinal contrário era experimentado agora por Mítia: esta Primavera, a Primavera do seu primeiro amor, era também muito diferente de todas as suas Primaveras passadas. Mais uma vez o mundo se transfigurara, se enchera de alguma coisa nova mas que, agora, já não era hostil nem terrível, pelo contrário divinamente fundida na alegria e na juventude da Primavera. Esta novidade era Kátia, ou melhor, o encanto superior do mundo que dela esperava e exigia Mítia. Agora, à medida que corriam os dias primaveris, exigia cada vez mais dela. Agora que ela estava longe e apenas tinha a sua imagem, uma imagem ilusória, tão-só desejada, ela parecia não transgredir em nada o imaculado e belo que dela se exigia, e a cada hora que passava estava presente de modo cada vez mais vivo em tudo o que Mítia olhava." (pág. 40)