*Essa resenha pode conter spoilers de "Um traço até você"
É raro encontrar um romance tão bem desenvolvido quanto esse! Esperava apenas uma história leve e gostosa, e apesar de ser isso também, o livro entra em discussões complexas sobre negritude, comunidade e saúde mental. Me surpreendeu positivamente.
Com uma narração marcante, Olívia Pilar apresenta a história de Lina. Ela sonha em se profissionalizar como ilustradora e, enquanto batalha para juntar dinheiro o suficiente para fazer um curso no Chile, encontra Elza, uma poeta encantadora. Juntas, as duas refletem sobre o que é ser um jovem negro no Brasil de hoje, as dificuldades de existir em um lugar que deslegitima suas vivências e as formas de lidar com sonhos para o futuro.
Gostei muito da protagonista. Ela está aprendendo um bocado de coisa: a ilustrar, a usar sua própria voz contra injustiça, a se posicionar quando confrontada pelos pais, a enxergar que ser garota negra de classe média-alta não exclui o racismo da vida, a pedir ajuda... Lina é bem complexa e honesta com o leitor. Por ser narrado em primeira pessoa, entendemos como a cabeça dela funciona e quais medos a impedem de seguir com seus sonhos.
Os demais personagens também ganham um bom espaço:
- Elza, a crush, que escreve poemas, entende a importância de lutas sociais, está mais ligada com movimentos de resistência e tem uma família acolhedora de mulheres negras com nomes inspirados em grandes artistas;
- Amanda, a melhor amiga, que está sempre ao lado de Lina, mas cuja amizade entra em descompasso quando Lina começa a perceber que há coisas que talvez Amanda não consiga entender, em especial quando algo específico acontece;
- Tim, o melhor amigo de Elza, também parceiro de todos os momentos;
- o pai e mãe de Lina, que tentaram a todo custo proteger a filha do mundo racista e as violências que ela poderia sofrer;
- Antônio, irmão de Lina, que ama vídeo game, é bastante apegado à irmã e também está tentando entender seu lugar enquanto um menino negro.
Enquanto Lina batalha pelo seu sonho de trabalhar com ilustração — essa, aliás, é a única crítica que tenho ao romance: gostaria que a conexão de Lina com a arte fosse melhor trabalhada, que conhecêssemos melhor quem a inspira e o que a move —, ela lida com microagressões racistas constantes no estágio. A princípio, ela não percebe que pode ser racismo, e quando aprende, fica numa corda bamba. O que fazer agora, se ela precisa do dinheiro do estágio, mas é constantemente violentada verbalmente nele?
Uma coisa que ameeeei foi como os conflitos foram resolvidos. Sabe aquelas conversas mega honestas que tiram nosso sono e atacam nossa ansiedade? Todos os personagens têm um pouco delas. Achei corajoso, bonito. Reconhecer os limites da outra pessoa, bem como os momentos que, sem saber, ultrapassamos esses limites é um trabalho bem difícil. É um livro escrito por alguém que já fez muita terapia e sabe da importância da saúde mental para que a vida siga.
Também gostei muito da defesa da comunidade e rede de apoio. Ninguém consegue fazer nada sozinho! É importante termos com quem contar na vida. Desabafar, conversar e pedir ajuda às pessoas em que confiamos é essencial para seguirmos firmes com nossos objetivos. E mais especificamente nesse caso, enquanto uma garota negra que frequenta ambientes onde as pessoas são majoritariamente brancas, é ainda mais importante se conectar com outras pessoas negras que possam compartilhar vivências e servir de apoio. Quando nos juntamos a pessoas que têm as mesmas dores que nós, percebemos que não estamos sós.
Ah, e claro: o romance! Adorei que ele acontece desde o comecinho (elas não ficam enrolando até a última página, ufa), e também amei que é um relacionamento que vem para ensinar muita coisa para as duas. Acho que uma boa relação é feita disso, de duas pessoas que ajudam uma a outra a crescer, que se admiram e que se inspiram.
Indico demais!