Mesmo vivendo em um mundo tão repleto de abusos e absurdos, de naturalização e fetichização da violência, confesso que ainda estou paralisado após a leitura desse livro. Em ‘Holocausto Brasileiro’ brasileiro, Daniela Arbex dá voz àqueles chamados de “loucos”, para que estes denunciem a loucura daqueles chamados de “normais”.
Minha primeira inquietação quanto à leitura foi com o título mas, ainda no prefácio (magistral) de Eliane Brum, compreendi que o termo “holocausto” não era uma hipérbole. Franco Basaglia, psiquiatra italiano e pioneiro da luta antimanicomial, disse numa coletiva de imprensa quando esteve no Brasil, em 1979: “Estive hoje num campo de concentração nazista. Em lugar nenhum do mundo, presenciei uma tragédia como esta”.
Ao menos 60 mil morreram no Hospital Colônia, em Barbacena (MG). Grande parte chegou lá de trem – o “trem de doido”, conforme fora batizado por Guimarães Rosa –, teve sua cabeça raspada e suas roupas, arrancadas. Perderam documentos, família, o passado. O próprio nome. Algumas prisioneiras (não consigo usar o termo “pacientes”) perderam os próprios filhos. Tampouco na morte encontravam paz. Quase 2 mil cadáveres do manicômio foram vendidos (por quantias que hoje girariam na casa de R$ 200 a R$ 300) a diversas faculdades de medicina do país.
Estima-se, também, que 70% dos internados não sofressem de doença mental. O Colônia foi, efetivamente, uma prisão para a qual eram destinados “desafetos, homossexuais, militantes políticos, mães solteiras, alcoolistas, mendigos, negros, pobres […]”, meninas grávidas (violentadas pelos patrôes), esposas abandonadas para que os maridos pudessem viver com suas respectivas amantes. Uma prisão que não necessitava de lei, polícia, júri ou juiz.
A autora não exagera nada. Arbex desabafa: “A dor só vira palavra escrita depois de respirar dentro de cada um como pesadelo.” E aponta também, por meios das muitas histórias a que se deu o trabalho de resgatar e registrar, que o que nos acorda desse pesadelo e nos salva da barbarie é sermos “gente que se mostrou capaz de gostar de gente.” ‘Holocausto Brasileiro’ é um livro fundamental em nossos tempos brutos, nos quais nossa capacidade de gostar de gente é posta em xeque.