É noite. Na rua deserta, nenhuma luz acesa. Um carro pára em frente a um prédio, completamente vazio e às escuras, com uma única excepção: no consultório do psicanalista um candeeiro permanece ligado. O psicanalista aguarda, sozinho, a chegada do novo paciente. Não sabe quem espera. Alguém famoso, influente, poderoso? A isso já está habituado. Mas pressente que há algo particularmente estranho neste caso. E nem suspeita que este é apenas o primeiro passo para uma revolução na sua vida, um duelo ideológico e uma batalha pessoal que o transformarão para sempre.
I love the title, or better saying the multiple titles that can resume in The Cure. But I'm translating all the titles bellow.
A Satire or Some Improbable Consequences of Hippocratic Oath or Psychoanalysis' Short Story or Why Everything I write immediately turns into something different or The Cure.
This was such a good story. As you all know I'm a med student so a book about a doctor without being explicitly a memoir. And this isn't one because Pedro Eiras is a Literature Professor not a Medical professional. I loved reading about a doctor/psychoanalyst since we only know his name on the last chapter and I don't want to spoil it.
So through the different chapters that are supposed to be like appointments notes from a very very important patient. He tells us part of his story. His college years on med school, his personal life, his strange love life, his psychoanalysis, and even his atheist boundaries and religious background.
It's a beautiful introspection into Freud's theories. I had one year of psychology on my last year of high school and the little creature made of curiosity bitten me and still comes whisper on my ear from time to time. So that's one of the reasons why it was such an attractive and quick reading.
I won't say more just that I adored it... well almost everything, I was not expecting the end, and I didn't really enjoy the adultery but beside that it was great 😂
3,5 Muito curiosa a incursão que um professor de literatura (o Pedro Eiras) faz no mundo da psicanálise. É muito claro o estudo feito sobre as matérias de que fala e talvez seja essa exactamente a crítica que faço. Que o pensar em “psicanalês” se torna demasiado explicativo - e não fluido e intuitivo como acontece na cabeça de qq psicanalista. Mas a história está muito bem conseguida. Um psicanalista que se encontra mensalmente, sempre à meia noite, com um paciente improvável, e o impacto que a dinâmica dos dois vai tendo na vida de ambos. A possibilidade da matar o pai (como organizador simbólico descrito por Freud) é a problemática comum de paciente e psicanalista. Pedro Eiras consegue manter-nos interessados na história de ambos. E a aguentar a espera entre cada sessão, intervalo profícuo de elaboração do próprio terapeuta. Esta relação com o pai ganha ainda outros contornos quando ficamos a saber, a poucas páginas do final, o nome do psicanalista.
Um belíssimo romance de Pedro Eiras onde reina a contradição entre a Religião e a Psicanálise, com argumentos de peso de ambas as partes. A visita de um paciente inesperado que é uma alta figura 'pública'altera por completo o modo de pensar do psicanalista a ponto de, nas sessões com o paciente mistério, deixar de se perceber quem é que está a fazer a terapia e quem é que se deve deitar no famoso divã. Confesso que o final não é aquele que melhor me satisfaria, mas quem sou eu para pôr em causa a opção ficcional do escritor?
3,5 Tem reflexões e diálogos muito interessantes, mas vai descambando. O fim é um tanto abrupto e, na minha opinião, perde precisamente nos últimos capítulos.
A premissa inicial do livro pareceu-me bastante interessante, mas sinto que, capítulo atrás de capítulo, o livro vai descarrilando e perdendo o interesse. Não fiquei fã.
Um médico ateu, psicanalista conceituado e invejado, aceita tratar sob total sigilo um homem mui sui generis, que desempenha um ínclito cargo na Igreja. Os sintomas que o paciente afirma ter: «sinto um extremo cansaço, uma sensação de tristeza, de desamparo», «Tenho vontade de dormir muito, sem ver ninguém»; a sensação de pânico surgia-lhe «sem aviso, sem regra, sem motivo.» Dada a extrema confidencialidade que o analisando requerera, devido a ser uma figura pública, as sessões de terapia teriam de ocorrer à noite, uma vez por mês e sob o mesmo ritual: quando faltava três minutos para a meia-noite a iluminação exterior e interior dos arredores ia abaixo, parava um carro preto na entrada do prédio do consultório, ele subia no elevador (que, excepcionalmente, estaria operacional, tal como toda a parte eléctrica do espaço onde o terapeuta exercia a sua profissão), decorria a consulta que tinha sempre o tempo que o egrégio paciente considerava necessário, e depois o «apagão» era «desarmado». De consulta em consulta, nessas noites que «deveriam parecer tão reais como um sonho», Z. — o paciente —, instalado no divã de veludo vermelho (uma réplica do mesmo que utilizara Freud, e também o mesmo que Wagner, o professor que tivera sido, ou melhor, o mestre que este psicanalista escolhera seguir) ia, sob processo catártico, transpondo a origem dos seus desejos inconscientes e traumas — quais «âncoras» submersas num tumultuoso mar de emoções. Este impaciente paciente, através de sofrimentos que enfrenta com denodo, quer saber a verdade sobre si mesmo, mas acima de tudo quer ver curada a sua mente, não a sua alma. Entre o analisando e o analista existe dois universos antípodas, que chocam. Todavia, a delicada fronteira que deveria existir entre médico-paciente é derrubada, por o psicanalista, ao longo das treze consultas, ter revisto nos sonhos de Z. e suas interpretações, a sua própria fraqueza existencial e origem dos apegos, «máscaras» e «muletas» que criou num mundo à parte. Criada a empatia e franqueza mútua, vão conhecer-se um ao outro e, fundamentalmente, conhecer-se a si próprios. Assim, não é apenas o paciente que exorciza os seus recalques, também o Doutor encontra conforto nas sessões e, quem sabe, cura a si próprio. Deste processo terapêutico inusual o leitor está longe de saber se resultará cura, curas ou se será um caso fracassado. Quem escolher ler A Cura terá o ímpeto, como o que um leitor de policiais tem, de chegar até às últimas e reveladoras páginas do romance, onde aguarda-nos a apoteose, o «sumo» da história. Este romance publicado pela Quidnovi funde conceitos de Psicanálise e Religião com ficção. Tem doses de mistério e aturdimento, para desvendar as memórias do narrador (omnisciente). Pedro Eiras explora a mente de dois homens e disseca a complexidade das emoções humanas, com sucesso. A Cura é um romance bem delineado, quer na veste psicológica e complexa dos dois personagens centrais, quer por nenhum acontecimento narrado ser irrelevante. A revelação de quem é o paciente do Doutor acontece na página 33 do romance, e é, talvez, a primeira força motriz que nos dá maior alento para a conclusão da leitura. Ter revelado o nome do narrador só nas últimas páginas do romance, favorece a curiosidade do leitor e revela-se como um trunfo de escritor perspicaz. A não descrição do local geográfico onde decorre a trama é um outro pró do livro. O autor de Bela Dona e outros monólogos (Companhia das Ilhas, 2012) inclui no romance referências a várias obras bibliográficas de Freud e remete-nos para livros que abordam o tema principal do livro, Psicanálise. Nota-se por parte do escritor um elaborado trabalho de pesquisa sobre o assunto, mas essencialmente é revelador o modo como ele entrelaçou com mestria os conceitos psicanalíticos neste seu trabalho literário. O que mais surpreende em A Cura é o fluir desenvolto, repleto de simbolismos, da narração e por haver poucas alternâncias dos planos em que a história se desenrola. Tudo é engendrado. E com inteligência. Pedro Eiras (n. 1975), professor de Literatura, com obra publicada desde 2001 (na sua maioria teatro e ensaio) é com certeza um nome da nova literatura portuguesa a seguir.
Excerto: «Talvez por pena de si, ou pena de mim, para eu não sair daquele quarto a pensar que ela era frígida ou tímida ou conservadora, talvez me quisesse conquistar para conquistar a sua própria estima ameaçada. E fazia amor comigo, não por amor, mas para mostrar que sabia fazer amor como as outras mulheres: também tinha um corpo e um gozo, um corpo magro e pálido, mas vivo e feroz na sua fome. Fazia amor como quem sustém as lágrimas. E eu deixava-me ir.» (p. 134)
Uma ficção que expõe o trabalho do psicanalista e os questionamentos universais: sexualidade, relação parental, nossas potencialidades e incapacidades…tudo aquilo que podemos ou não conseguir expressar da nossa essência.