Reunindo textos publicados originalmente no Jornal do Brasil, no qual o escritor mineiro mantinha uma cadeira cativa na página de crônica, Os dias lindos traz não apenas o texto leve e circunstancial que ajudou a inscrever o nome de Carlos Drummond de Andrade na história desse gênero tão brasileiro, mas também uma miríade de pequenos contos e narrativas. Todos bastante diversos entre si, mas com um denominador comum: a enorme facilidade que o autor demonstra para criar enredos e personagens cheios de graça. Dividido em seis grandes seções, Os dias lindos surpreende o leitor com sua mistura de observação da vida cotidiana com a melhor fabulação do grande autor mineiro. A vida da classe média carioca, a nossa relação com a linguagem, o crescente processo de urbanização das cidades brasileiras - tudo isso comparece com ironia e alguma poesia. Anota a crítica Beatriz Rezende, autora do esclarecedor posfácio a esta edição: “Finalmente, vale destacar que, dos vários conjuntos de crônicas publicados por CDA, Os dias lindos talvez seja o que frequentemente se detém sobre a própria linguagem, seus múltiplos usos, suas variações. É sobre linguagem da cidade que os textos falam, falando a linguagem da cidade. Linguajares esquecidos são recuperados, jogos de palavra, tempos dos verbos, flexões e concordâncias”.
Carlos Drummond de Andrade foi um poeta, contista e cronista brasileiro. Formou-se em Farmácia, em 1925; no mesmo ano, fundava, com Emílio Moura e outros escritores mineiros, o periódico modernista "A Revista". Em 1934 mudou-se para o Rio de Janeiro, onde assumiu o cargo de chefe de gabinete de Gustavo Capanema, Ministro da Educação e Saúde, que ocuparia até 1945. Durante esse período, colaborou, como jornalista literário, para vários periódicos, principalmente o Correio da Manhã. Nos anos de 1950, passaria a dedicar-se cada vez mais integralmente à produção literária, publicando poesia, contos, crônicas, literatura infantil e traduções. Entre suas principais obras poéticas estão os livros Alguma Poesia (1930), Sentimento do Mundo (1940), A Rosa do Povo (1945), Claro Enigma (1951), Poemas (1959), Lição de Coisas (1962), Boitempo (1968), Corpo (1984), além dos póstumos Poesia Errante (1988), Poesia e Prosa (1992) e Farewell (1996). Drummond produziu uma das obras mais significativas da poesia brasileira do século XX. Forte criador de imagens, sua obra tematiza a vida e os acontecimentos do mundo a partir dos problemas pessoais, em versos que ora focalizam o indivíduo, a terra natal, a família e os amigos, ora os embates sociais, o questionamento da existência, e a própria poesia.
As excelentes “Corrente da sorte” e “História de amor em cartas” dão o tom dessa seleção deliciosa de textos com muito humor e um olhar cirúrgico sobre o Brasil de sua época. Viva CDA!
“Enjoado de viver o de sempre, desdobrei o mapa de Minas Gerais, esse país dentro do país, na esperança de achar uma cidade que fosse a cidade. Não uma qualquer entre milhares, mas aquela onde tudo fosse calme, luxe, volupté, entendendo-se como luxo o contrário de ostentação e fausto. A acepção quatro do Aurélio: "viço, vigor, esplendor". Isso eu queria.”