Passei boa parte da vida atrelando minha identidade à minha postura diante do Brasil — um país atravessado pela desigualdade, pela luta constante e pelas pequenas resistências do cotidiano. Meu “eu” parecia sempre definido pela urgência política do lugar onde cresci. Mas, quando vivi sete meses na Coreia do Sul, esse espelho se quebrou. As desigualdades ali não se mostravam da mesma forma, os perigos advindo de um país estruturado em injustiças e os acordos sociais eram outros. Sem esse contexto que me formava, eu me vi sem identidade.
Quando me assumi lésbica, grande parte de quem eu era se sustentava na resistência da minha própria existência. Depois, ao me apaixonar por um homem e me reconhecer bissexual, percebi que essa luta se transformava — e, junto dela, o lugar onde eu me colocava no mundo. Havia uma liberdade em transitar entre fragmentos, mas também uma sensação claustrofóbica de nunca pertencer inteiramente a nenhum deles.
Foi nesse espaço de deslocamento que A Identidade Cultural na Pós-Modernidade me encontrou. Stuart Hall me ajudou a decifrar o enigma desses contornos falhos — as fronteiras porosas entre o global e o local, o pertencimento e o desencaixe, o eu e o outro. Ler Hall foi como colocar palavras em uma intuição antiga: a de que nossas identidades são sempre traduções imperfeitas, tentativas de fixar algo que está em constante movimento.
Este livro não apenas me ajudou a compreender as forças históricas e culturais que moldam o sujeito pós-moderno — ele me fez esboçar, talvez pela primeira vez, a minha própria história. O tipo de livro para se ter grifado, rasurado, lido, relido, interpretado e reinterpretado. Que obra.