'Hitler e os Alemães' não é um assunto do passado porque a consciência humana vive na tensão permanente entre o tempo e os valores espirituais eternos. E o que está eternamente vivo tem de ser preservado e defendido no presente. O tema do livro não é uma história das origens, da evolução e queda do regime nacional-socialista, muito embora Eric Voegelin tenha presente algumas das análises clássicas. O tema é a cumplicidade dos alemães no regime nazi.
German-born American political philosopher. He taught political theory and sociology at the University of Vienna after his habilitation there in 1928. While in Austria Voegelin established the beginnings of his long lasting friendship with F. A. Hayek. In 1933 he published two books criticizing Nazi racism, and was forced to flee from Austria following the Anschluss in 1938. After a brief stay in Switzerland, he arrived in the United States and taught at a series of universities before joining Louisiana State University's Department of Government in 1942. His advisers on his dissertation were Hans Kelsen and Othmar Spann.
Voegelin remained in Baton Rouge until 1958 when he accepted an offer by Munich's Ludwig-Maximilians-Universität to fill Max Weber's former chair in political science, which had been empty since Weber's death in 1920. In Munich he founded the Institut für Politische Wissenschaft. Voegelin returned to America in 1969 to join Stanford University's Hoover Institution on War, Revolution, and Peace as Henry Salvatori Fellow where he continued his work until his death on January 19, 1985. He was a member of the Philadelphia Society.
Eric Voegelin mostra o que é um filósofo de verdade: a honestidade brutal, o esforço aturado de penetrar na realidade, perceber o que se passa e expressar, da maneira mais precisa possível, o que foi percebido.
Ele nos ensina o que é uma investigação filosófica: esta não parte de princípios abstratos organizadinhos como num livro didático; na verdade, toda investigação científica, filosófica, que mereça esse nome, começa com aquilo que Aristóteles chamava de o "espanto" - o espanto diante da realidade. Por isso, a investigação, seja em ciência política, seja em outro campo do conhecimento humano, deve começar com as experiências imediatas do investigador e elevar-se até a problematização teorética.
E é justamente isso que Voegelin faz nesse brilhante "Hitler e os Alemães".
Re-leitura deste livro que tive a ousadia de ler pela primeira vez lá nos idos de 2008. Depois de tanto tempo, foi bom redescobrir passagens esquecidas e cuja força se mostrou devido à experiência e conhecimentos que acumulei ao longo desses anos.
Certamente, uma nova leitura, daqui a alguns anos, será ainda mais rica.
Recomendo-o não só a estudiosos do fenômeno nazista, que é quase um pretexto aqui, mas a todos os interessados na ciência política da mais alta qualidade, na tradição de Platão e Aristóteles.
Hitler e os alemães é um conjunto de palestras de Voegelin ministradas na Universidade de Munique, em 1964. É uma análise da culpa individual dos alemães da época na ascensão do regime nazista. Voegelin propõe uma análise do passado para “dominar o presente”, isto é, consolidar uma consciência moral que oriente o presente. Quatro elementos se destacam no texto: a) o contexto das preleções: o desenvolvimento de uma filosofia da história na Era Ecumênica; b) o problema antropológico: estupidez ideológica de imanentizar o transcendente; c) aplicação do problema antropológico aos historiadores, às igrejas e ao direito; d) necessidade de restaurar a ordem por meio de uma revolução do espírito. O livro tem duas partes: 1. Descida ao abismo. 2. Em direção a uma restauração da ordem. À época das palestras, os intelectuais estavam amenizando o período nazista. Voegelin diz que esse comportamento é fruto de uma decadência moral e intelectual. Por isso, é preciso “dominar o presente” analisando o passado e livrando-se da deturpação da linguagem ideológica. A culpa, de fato, fora individual, mas, juntos, os indivíduos formaram o poder e deram autoridade a um homem irracional. Para Voegelin, a desdivinização e desumanização levaram à perda da realidade (“estupidez”). Essa estupidez criminosa que é social tentou destruir os outros e a própria realidade. No capítulo três, Voegelin faz uma ampla análise de uma obra famosa à época: “Anatomia de um ditador” de Schramm. Ele conclui que o teor não suficientemente crítico da obra ao nazismo mostrou que seu autor não dispunha de categorias morais, intelectuais e espirituais necessárias para analisar Hitler. No capítulo quatro, Voegelin analisa o comportamento da igreja evangélica, mostrando que a aceitação de amplos contingentes de evangélicos que se alinharam ao nazismo é uma denúncia de: falta de teoria da igreja e sua relação com o Estado, desumanização interna e má leitura de Romanos 13. A igreja só passou a resistir quando foi diretamente atacada, mas já era tarde demais. Mártires como Bonhoeffer são exemplos notáveis de resistência. No capítulo cinco, Voegelin analisa o comportamento da igreja católica e mostra que, apesar de ter demorado mais a ter amplo contingente ligado ao nazismo, houve leniência das autoridades católicas quando à perseguição aos judeus e muitos católicos se alinharam ao nazismo. Em seguida, Voegelin trata de como a concepção de Estado de Direito em sentido positivista kelseniano foi pervertida pela degenerescência moral da sociedade e de suas instituições. O direito positivo depende de que a condição moral da sociedade esteja intacta. Só o juízo de validade não é suficiente. Na parte dois, Voegelin trata da ideologia como segunda realidade. A ideologia rejeita a primeira realidade (experiência comum) e tenta imanentizar o transcendente. Em Marx, Nietzsche e Freud, a ideologia e sua falta do divino levaram à desumanização. Em Weber, a realidade não é reduzida a uma ideologia imanentista estrita.
O livro recolhe conferências do autor em 1964. Procura analisar como foi possível o nazismo na Alemanha. Para Voegelin todas as instituições alemães - militares, juízes, professores, igrejas, etc. - se omitiram em algum grau ou se aliaram às ideias nacional socialistas.
Na segunda parte ele analisa como a cultura alemã, permeada por Freud, Mark, Weber e Nietzche não soube responder e resistir à falácia nazista.
Há um capítulo dedicado ao papel das igrejas luterana e católica durante o nazismo. Entende que os bispos luteranos e os católicos, tirando nobres excessões, se omitiram ou criticaram quando era tarde. Também houve uma certa confusão entre o dever de servir à pátria - por exemplo no exército - e o servir a um governo mau. Faltou no livro um comentário a tantos leigos, bispos e sacerdotes que enfrentaram o regime desde o começo e perderam a vida por isso. Para quem não é versado no tema, pode ficar com uma ideia errada e negativa dos cristãos alemães.
É muito interessante a análise que faz de Dom Quixote, como metáfora para dois tipos de mundo - real x fantasia; aberto ao transcendente x imanente.
Uma leitura recomendável para quem tem uma certa formação histórica e filosófica. Para quem não tem essa preparação o livro mais atrapalha do que ajuda.
O autor faz análises muito acuradas e interessantes sobre ideias que continuam presentes em nossa época.
Por coincidência, li antes a Origem da Linguagem (Rosenstock-Hussey) Transcendência e História (Glenn Hughes)e agora Hitler e os Alemães. Talvez a Era Ecumênica (Voegelin) fique bem depois de Transcendência e História. Hitler e os Alemães é um alerta para as sociedades espiritualmente degradadas.