Ler Hilda Hilst foi uma experiência maravilhosa. Tenho a certeza que vou (re)ler estas Baladas muitas e muitas vezes. Quatro estrelas que são quase cinco.
II
Me mataria em março
se te assemelhasses
às cousas perecíveis.
Mas não. Foste quase exacto:
doçura, mansidão, amor, amigo.
Me mataria em março
se não fosse a saudade de ti
e a incerteza de descanso.
Se só eu sobrevivesse quase nula,
inerte como o silêncio:
o verdadeiro silêncio de catedral vazia,
sem santo, sem altar. Só eu mesma.
E se não fosse verão,
e se não fosse o medo da sombra,
e o medo da campa na escuridão,
o medo de que por sobre mim
surgissem plantas e enterrassem
suas raízes nos meus dedos.
Me mataria em março
se o medo fosse amor.
Se março, junho.
*
XI
Quando terra e flores
eu sentir sobre o meu corpo,
gostaria de ter ao meu lado tuas mãos.
E depois, guardar meus olhos dentro delas.
*
XVI
Tenho preguiça
pelos filhos que vão nascer.
Teremos de explicar
tanta cousa a tantos deles.
Um dia hão de me perguntar
tudo o que perguntei:
Mãe, por que não posso
ver Augusto quando quero?
Mãe, eu andei lendo muito esses dias
e estou quase chegando
a encontrar o que eu queria.
Inutilidade das palavras.
Tenho preguiça,
tanta preguiça
pelos filhos que vão nascer.
Dez, vinte, trinta nos
e estarão procurando alguma cousa.
Nunca se lembrarão
daqueles que já morreram
e procuraram tanto.
Vão custar (ó deuses)
a entender aqueles
que se mataram.
Os filhos que vão nascer,
coitados!
Hão de pensar que são eles
os destinados.
Hão de pensar que você
nunca passou o que eles estão passando.
Os filhos que vão nascer...
Insatisfeitos.
Incompreendidos.