Este é um romance notável de um leitor obcecado por Jorge Luis Borges a ponto de imputar-lhe uma infâmia que nem o próprio teria inventado: a de ter engendrado, com sua imaginação infernal, o fermento profético que possibilitou Adolf Hitler e o nazismo. O evangelho segundo Hitler faz aquilo que o borgiano Pierre Ménard fez com o Quixote de Cervantes: reescreve produzindo diferença.
Romance vencedor do Prêmio Sesc de Literatura 2012/2013 e primeiro livro publicado pelo autor. “O evangelho segundo Hitler foi vencedor do Prêmio Sesc justamente por ser uma literatura de risco, onde o autor preferiu juntar alhos com bugalhos — o Hitler com o Jorge Luis Borges com o (anti)Cristo — do que escrever o texto bem escritinho, curtinho, objetivozinho, de comunicaçãozinha facilzinha com o leitorzinho.” – André Sant’Anna
Marcos Peres nasceu em 19 de outubro de 1984 em Maringá - PR e morou sua infância em Astorga - PR. É bacharel em direito pela Universidade Estadual de Maringá e, atualmente, é servidor público do Tribunal de Justiça do Estado do Paraná.
Homenagem dupla, tanto a Jorge Luis Borges quanto a Umberto Eco, o que me fez ter uma vontade contumaz de reler O Pêndulo de Foucault e ler o que ainda não li do Borges, essa obra de estréia de Marcos Peres é bem sagaz, especialmente ao engendrar a obra borgiana aos arautos do nazismo. Recomendo.
Lê-se num ápice apesar das quase 400 páginas! um enredo muito bem elaborado com Borges e um outro Borges... uma conspiração que quase parece verdade! defeitos: em alguns momentos um pouco repetitivo!
Em "O Evangelho Segundo Hitler", Marcos Peres entrega uma obra notável que funciona como uma sofisticada homenagem ao universo de Jorge Luis Borges, capturando com precisão a essência do estilo do mestre argentino. O autor demonstra não apenas um profundo conhecimento da obra borgiana, mas também uma erudição impressionante sobre o intrincado emaranhado de crenças e mitos que cercaram o nazismo, incorporando elementos como o ocultismo, a Sociedade Thule e as teorias ariosóficas à sua narrativa. Ao criar uma trama ficcional envolvente em torno de um homônimo de Borges — um escritor frustrado que, por acaso do destino, compartilha nome e nacionalidade com o famoso autor argentino —, Peres constrói uma teoria conspiratória engenhosa que expõe como é possível criar "pontes" fantasiosas entre fatos históricos, borrando deliberadamente a linha entre realidade e fantasia.
O título, longe de sugerir um texto escrito pelo próprio Hitler, carrega uma ironia fina e deliberada. O verdadeiro "evangelho" (a boa nova) do nazismo não foi escrito pelo Führer, mas sim construído por seus seguidores e pelos mitos que criaram em torno dele. O homônimo de Borges, ao ter seu exemplar artesanal com o conto "Três Versões de Judas" — que ele copia (plagia) do Borges original para impressionar Raquel — interpretado como texto profético por um nazista obcecado, acaba enredado em uma teia que o leva a colaborar involuntariamente com a mitologia do Terceiro Reich. É o título como armadilha borgiana: parece prometer um texto de Hitler, mas entrega algo mais complexo — a história de como um homem comum, por vaidade e amor, contribui para a fabricação de narrativas e crenças que alimentariam o fanatismo, questionando a própria natureza da verdade histórica.
Antes de mais nada, é importante dizer que o livro não é, de forma alguma, uma apologia. Muito antes, o contrário. Isso posto... Que livro! Insinuando-se pelos caminhos já trilhados por Umberto Eco em "O pêndulo de Foucault", o autor nos mostra que, mesmo não havendo nada oculto, as pessoas, sugestionáveis, são facilmente levadas a acreditar em qualquer tolo que lhes fale qualquer tolice. Não haveria problema nisso se suas crenças, por mais imbecis que fossem, ficassem restritas a suas mentes, mas há loucos para tudo nessa vida e, como descobriram Casaubon, Belbo e Diotalevi, a coisa começa a degringolar quando as metáforas são levadas a sério por aqueles que procuravam significados onde nunca houve nada. Umas das melhores leituras do ano.