Pilar Calveiro faz uma análise muito completa dos campos de concentração na Argentina na época de ditadura no país. Apesar de ser ela mesma uma das vítimas do período, é impressionante como ela se mantém de fora para conseguir entender como esses campos se instalaram e funcionaram dentro das cidades e aos olhos da sociedade.
Assim como durante o holocausto nazista todos buscavam encontrar um tipo de loucura e maldade nos envolvidos (mas que na realidade eram pessoas ordinárias, que seguiam ordens), ela mostra como na ditadura argentina os perpetradores do terror de Estado eram "nem monstros, nem cruzados: pessoas comuns, dessas que existem aos montes na sociedade; (...) homens como nós, essa é a difícil verdade, que não pode ser admitida socialmente".
Além do mais, essa violência sempre existiu e ainda existe por parte do Estado que vê em uma parte da população um inimigo, que precisa ser exterminado. Com o caso brasileiro, vale acompanhar a violência policial cotidiana, que usa táticas de desaparecimento nas favelas e periferias das cidades.
E é ainda surpreendente perceber como nós, como sociedade, ainda aceitamos esse tipo de violação. Como ela mesmo diz, "(...) boa parte da sociedade optou por não saber, por não querer ver, por se afastar dos acontecimentos, buscando fazer com que eles desaparecessem pelo mero desejo".