Pai do anarquismo, Proudhon (1809 -1865), utópico, ao longo da vida, tipógrafo, parlamentar e jornalista, concebeu suas ideias a partir de quando jovem mal recebido pelo presidente da câmara de vereadores de Paris. Ao questionar sobre a ausência de garantias difusas e coletivas em direitos já nacionalmente constituídos, recusa o dinheiro oferecido para ir embora, e dias depois, em carta, autonomamente pediu permissão para pesquisar na Universidade de Paris. Nesse contato filosófico, estudou "propriedade" em diversos pensadores clássicos e contemporâneos. De origem rural, nos antagonismos urbanos, entendeu privilégios e disparidades, tornando-se assim, publicista anárquico, incendiário e polêmico. Enquanto deputado socialista fez propostas impensáveis à época: reforma tributária, bancos municipais do povo, subvenção de impostos, política de juros baixos, e associações de emprego e trabalho. Para ele, o binômio dialético propriedade e liberdade sintetiza comunidade, algo então obliterado por republicanos e monarquistas na discussão do compartilhamento sociocultural efetivo/lucrativo/afetivo dos espaços públicos, repartindo a todos, direitos particulares e estanques da pirâmide social, capital, trabalho e talento.
Crítico do contrato social rousseauniano, era contra qualquer governabilidade monarquista, tirânica, democrática, liberal ou comunista, porque, segundo ele, a figura paterna do absolutista ao se deslocar para a legislação abstrata de tipo absolutista, continua sendo, nesse modo, a separação dicotômica de povo e poder. O que significa, na prática, o inchaço legislativo do contrato social no jogo de interesses escusos distantes do balanço harmônico mutuamente necessário para o bem comum na vida de todos. Denúncia ao molde lobista onde republicanos seguem vontades imperialistas, e vice-versa. Nesse apartar entre população e estado, a Igreja destarte conclui o serviço ideológico de submeter a fé popular ao servilismo governista. A naturalização da pobreza, no agradecer e obedecer ao Estado. Sem modelo anarquista de governo, o que seria uma contradição, idealista, acreditava na possibilidade da mudança ética da humanidade. Contrário às inclinações naturais de comando dinástico, paternalista e patriarcal, mesmo sendo exilado e preso, em plena crise tumultuada à re-instauração da monarquia semi democrática francesa, reinventou a política, de modo a encontrarmos nela, seus ideais sendo livremente manifestos, discutidos e aplicados hoje.
(Yuri Ulrych)