A premissa d´O Botequim da Liberdade é levar-nos a conhecer este bar lisboeta, no Largo da Graça, que marcou os intelectuais do século XX. O lugar das grandes tertúlias, convívios descerimoniosos e debates, que foi projetado por Natália Correia, a figura de destaque.
DaCosta percorre os anos 60, assim como as décadas que lhe seguem, evidenciando a poeta Natália Correia, embora não se perdendo nela. A personalidade desta mulher, tocada pelo sagrado, suplantou muitas das figuras políticas e artísticas da época, apesar do imaginário português se ter prontificado a esquecê-la. O autor assume que recorreu a elementos ficcionais para apimentar a panorâmica que fotografa, mas posso dizer que a ficção é mero ornamento que não compõe, por si, o fato, nem o adultera.
Apresentando um Portugal nem sempre narrado, o autor relata esses tempos de forma dialógica com as afirmações e poemas de Natália. A delicadeza e o respeito pelas figuras que descreve arrepiaram-me os sentidos; não releva a dicotomia bom/mau, somente o impacto da troca de visões: Natália e Agustina interagiam em disputa, mas nenhuma estava certa. Quanto à primeira, sei que somos mulheres distintas, seja porque de banal Natália não tinha nada, seja porque na política não caminhamos em exato sentido, algo que nunca apagará a admiração que tenho por ela. A amplitude da sua alma existiu em pleno desentendimento com o mundo, e sempre em direção a ele, algo que se traduziu em interpelações de escárnio, que a desconsideram pelos tiques, porém nunca pelas ideias.
As descrições do ambiente no Botequim valem ouro. Um espaço minúsculo que albergou imensidões: José Saramago, Maria de Lourdes Pintasilgo, Lygia F. Telles, Maria João Pires, David Mourão-Ferreira, entre tanto/as outro/as. Embalei-me lendo sobre cada pessoa individualmente considerada, pois não foi exclusivamente Natália a ocupar o espaço de destaque do intelectualismo português. Desta feita, quem lê este livro lê muito mais do que espera - há humor, melancolia, incerteza, política e reflexão -, até porque o enredo não-ficcional é composto pela narrativa matriarcal, sabedoria das vivências, que encontra na memória pessoas como Snu Abecassis, impulsionadora da literacia em Portugal.
Recomendo este livro a todos os que não se permitem esquecer. A facilidade com que nos apoiamos numa memória e um ideário vazio sobre a cultura é estridente. Aqui, li sobre vidas, caminhos e outros olhares. Acima de tudo, apaixonei-me ainda mais por Natália, a poeta (ai de quem lhe chame poetisa!), que me compreendeu (pelo menos foi o que senti), isto porque rejeita os carimbos aos quais desobedeço: produtividade, internacionalização da identidade, boçalidade e indiferença. Leiam Natália! E obrigada, DaCosta.