“Contos da Montanha” e “Novos Contos da Montanha” são, como o nome honestamente informa, livros de contos, publicados nos anos de 1941 e 1944, respectivamente, de lavra do escritor português Miguel Torga, pseudônimo literário de Adolfo Correia da Rocha.
Miguel Torga, como muitos dos maiores escritores cuja fina flor da obra surgiu até a década de 70, não tinha uma formação literária específica, tendo se graduado e exercido a medicina.
Destaco este dado biográfico não porque seja uma chave de interpretação dos livros em questão, mas porque sua visão de mundo e forma de expressá-la em muito se aproxima de outro médico dedicado às letras, Pedro Nava. Nada sabia desse dado, nem da visão de mundo de Miguel Torga, antes de ter os livros terminados, mas essa coincidência me chamou a atenção e voltarei ao assunto em breve.
Analisar livros de contos me gera certo embaraço. É a minha primeira vez e, embora tenha excelentes modelos, como Rodrigo Gurgel, estou meio preso, diria acomodado, à minha forma usual de refletir e expressar a minha experiência em literatura. O problema é que esse modus operandi se desenvolve pela resposta a perguntas como “Quem é o protagonista?”, “Qual o seu objetivo?”, “Qual o obstáculo que ele tem de vencer para alcançar seu objetivo?”, “Qual o tema humano tratado pela obra?”, e por aí vai, perguntas que, aqui, se dirigem a uma unidade narrativa fragmentada, por natureza, num livro de contos.
Claro que é possível separar cada conto, ou os meus favoritos, e fazer o arrazoado de cada um seguindo essa fórmula. Ia ser até curioso, quiçá bonito, um arrazoado segmentado que espelhasse a segmentação natural de um livro de contos. Mas não quero, ou talvez não possa, proceder assim: fica então um arrazoado todo que poderia ter sido e não foi.
O que me leva a isso, além da minha conatural preguiça, é a própria opinião do autor que, nos prefácios a cada um dos volumes, insiste em tratá-los como se fossem artefatos mágicos onde se encontra um mundo inteiro de portugueses trasmontanos. No prefácio dos “Contos”, o autor lhes chama exilados no Brasil (onde de fato o livro foi publicado pela primeira vez, durante o governo Getúlio Vargas, devido à quase inexplicável censura em Portugal). E no prefácio aos “Novos Contos”, chama-os de quadro impressionista, mosaico mal rabiscado, onde há portugueses ardendo num purgatório de fogo trasmontano. Enfim, devem ser tratados como um todo.
Esse é o método, mas não é todo ele. Tendo eu lido um seguidamente do outro, e disposto a encará-los como um conjunto coeso, também não posso me furtar à observação de Torga, no prefácio aos “Novos Contos”, acerca da irmandade dos livros: são gêmeos.
Ora, gêmeos na literatura é um topos sempre rentável. E como nos tratamentos mais famosos que deram a esse topos os grandes escritores, usarei as semelhanças como base, mas darei mais atenção às diferenças que individualizam aquilo que a natureza quis confundir.
Ambos os livros se compõem de contos sobre portugueses oriundos da região de trás-dos-montes, uma espécie de interiorzão de Portugal, onde o povo se dedica ao pastoreio de cabras e ovelhas, ao trato da terra e ao comércio de víveres, vinhos e azeite, sempre sob o olhar atento de um pároco e confortados no regaço da igrejinha do lugar. Essa é a terra natal de Miguel Torga, e esses personagens são como brinquedos da terra que a criança, forçada a mudar-se para longe, carrega a tiracolo para, nas horas de lazer, reavivar as memórias. Pedro Nava assim também o faz, tanto que o volume mais famoso de suas memórias é o “Baú de Ossos”, as observações sobre Minas Gerais do final do século XIX, a Minas de sua infância.
E o trás-dos-montes de Miguel Torga é, sem dúvida, o de sua infância. Não que o autor de alguma forma insista em caracterizar uma época, afinal, tirante o excelente conto “O Regresso”, dos “Novos”, em que parece que se alude à primeira grande guerra mundial, nada permite identificar com certeza em que período do tempo se passam os contos, até porque muitos deles começam num determinado ano e terminam 40, 50, 60 anos depois. Contudo, a luz sob a qual essa gente é enfocada, o nível de detalhes, a inclinação à anedota e ao apólogo, tudo tresanda àquele tipo de memória consubstancial à pessoa que só penetra em nossa mente quando somos crianças.
Essa memória consubstancial, por sinal, é daquele mesmo tipo que impregna as conversas de bares e cozinhas de cidades do interior, que é a lenha de narrativas intrincadas, confusas, e que, sem embargo, encantam quem as ouça, comumente chamadas “causos”. A avó jungida ao seu tricô, o tio que masca cigarro de palha, o sinhô da venda de inauguração imemorial, não param para explicar ao recém chegado quem é a Fulana e o Sicrano a que aludem nas suas estórias: mas seu jeito de contar atrai o ouvinte, aquieta suas perguntas ansiosas, e o leva a um entendimento final tão perfeito quanto o dos locais que conhecem as pessoas e as circunstâncias de cada causo contado.
Miguel Torga também age assim nesses contos: raramente ele apresenta um quadro maior e narra uma história até que chegue ao ponto dramático que será desenvolvido no conto. Pelo contrário, não é raro um conto seu já se iniciar com um diálogo agitado, cuja real significação será explicada, linhas depois, por uma digressão, uma rememoração, ou pela fala de outros personagens. Mesmo quando enceta os contos na pele do narrador onisciente, de forma alguma o faz como alguém preocupado com a didática da apresentação: aqui, narrador e contador de causos são um e o mesmo.
Com isto, o autor eleva e dignifica aquela gente que vive em sua fantasia: não facilita o leitor nem lhe acena com truques de anzol e linha. Confia que o que tem a contar há de, por sua própria maravilha, prender o que lhe folheia as páginas.
Sem dúvida, essa qualidade feminina de atrair pelo que esconde e reter pelo que mostra está presente nos contos que abrem cada um dos volumes, respectivamente, “A Maria Lionça” e “O Alma-Grande”, por sinal, ambos começando com o artigo definido que demonstra, em língua portuguesa, um conhecimento comum, uma intimidade de casa, que é a essência mesma da narrativa interiorana.
Digo desde já: minha preferência é pelos “Contos” em comparação com os novos. Talvez, confesso, seja pela força lírica de “A Maria Lionça”, que calhou de ser meu conto favorito desse volume:
“Em pequenina, logo o seu riso escarolado encheu a aldeia de lés a lés. Velhos e novos acostumaram-se desde o primeiro instante àquele rosto miúdo e rosado onde brilhavam dois olhos negros e perscrutadores. Depois, durante a meninice e a mocidade, foi ela ainda o ai Jesus da terra. Qualquer coisa de singular a preservava do monco das constipações, dos remendos mal pregados, das nódoas de mosto nas trasfegas. Airosa e desenxovalhada, dava o mesmo gosto vê-la a guardar cabras, a comungar ou a segar erva nos lameiros. E quando, já mulher, se falava pelas cavas nas moças casadoiras do lugar, nenhum rapaz lhe pronunciava o nome sem uma secreta emoção. Além de ser a cachopa mais bonita, dada e alegre da terra, era também a mais assente e respeitada. Quer nas mondas, quer nas esfolhadas, o seu riso significava tudo menos licença. E ninguém lhe punha um dedo. Olhavam-na numa espécie de enlevo, como a um fruto dum ramo cimeiro que a natureza quisesse amadurecer plenamente, sem pedrado, num sítio alto onde só um desejo arrojado e limpo o fosse colher. Embora igual às outras, pela pobreza e pela condição, havia à sua volta um halo de pureza que simbolizava a própria pureza de Galafura. Na pessoa da Maria Lionça convergiam todas as virtudes da povoação. Quem é que merecia a dádiva de uma riqueza assim?”
Outra razão, talvez, seja o sentido geral de ambos os volumes. A gente de trás-dos-montes é de fato sofrida, meio que abandonada do mundo, o que torna natural que, num conjunto de estórias sobre elas, haja mais dores do que finais felizes. Contudo, a sombra que cobre os “Novos Contos” é muito mais amarga e desesperadora do que o mais depressivo conto do volume anterior, “Solidão”.
“O Alma-Grande”, que como já dito inaugura os “Novos Contos da Montanha”, como que anuncia isso ao leitor. Em “A Maria Lionça”, temos a história de uma jovem amada por todos, de grande estatura moral e beleza física, que acaba por levar uma vida de sofrimento em decorrência de más voltas na roda da fortuna. Mas a força que revela até o final dignifica não só a personagem como a ergue a símbolo de todo um povo. Por sua vez, o conto “O Alma-Grande” pode até ser mais dramático, mas nasce do desespero de um grupo de judeus que prefere o suicídio à confissão católica e acaba com uma vendetta à italiana que, embora revele grandeza humana, devolve todos os envolvidos à normalidade de uma vida agreste e teimosamente sofrida.
Outra coisa que chama a atenção é a pouca quantidade de contos de temática leve ou desfecho feliz nos “Novos Contos”, em comparação com seu irmão mais velho. A meu ver, o único conto desse volume que se compara com os do anterior é “O Artilheiro” e, talvez, “Fronteira”. Já nos “Contos da Montanha”, temos os contos “Um Roubo”, “Um filho”, “Maio moço”, “Inimigas”, “A ladainha”, “Justiça”, “O desamparo de S. Frutuoso” e “O Pé Tolo”, apenas para citar de cabeça, que equilibram o fel das narrativas mais niilistas.
Contudo, tenho que ser justo e dizer que, literariamente, “Os Novos Contos” são melhores do que seu gêmeo, pois não há um conto dos novos que seja mau e, de fato, a maioria é genial, como “Renovo”, “O Leproso”, “Confissão”, “A Caçada”, “O Caçador” e, meu preferido, “O Regresso”. Já nos “Contos da Montanha” o conto “A ladainha” parece dispensável por ser bobo e outros contos, de início poderosos, como “O bruxedo”, perdem força com o tempo.
Como um conjunto, em todo caso, “Os Contos da Montanha” traz um retrato mais fiel da condição humana do que “Os Novos Contos”. Não consigo espanar da minha telha que, nos “Novos”, Miguel Torga quis selar o destino daqueles trasmontanos, sobre os quais nunca mais voltou a escrever, com a cera de um niilismo e um anticlericalismo que lhe corroía mais forte em 1944 do que em 1941. Se parece óbvio que a ordem em que os contos são apresentados não é sem intenção literária, fica mais patente ainda a diferença de sentido e caráter geral dos volumes quando lhes comparamos os contos finais: no de 1941, encerra a seleção “O Pé Tolo”, uma engraçada anedota sobre duas povoações em guerra; no de 1944 (“O Senhor”), Miguel Torga, após nos conduzir por um luar surreal e descrever finamente o sentimento de participação do povo numa procissão de “Senhor-fora”, coloca o padre a meter a mão no canal vaginal da recipiente do corpo de Cristo – que por sinal fica abandonado – para lhe arrancar das entranhas um filho que tentava vir à luz há três dias. E o sobrenatural sendo abandonado para dar lugar ao naturalismo não poderia ser melhor simbolizado do que por um padre que arregaça as mangas e enfia suas mãos consagradas nas entranhas de uma mulher para salvar uma vida; o pároco ungido abandona o corpo do salvador das almas para resolver uma situação física que seus sentidos apresentavam, como uma parteira qualquer. E enquanto isso, “os sacramentos, inúteis, lá estavam sobre a caixa de roupa”.
É claro que esse naturalismo permeia ambas as obras. Para não haver dúvidas, basta ler “Um roubo”, que apesar do humorismo tem um quê de anticlerical, “A ressureição”, “Um filho”, dentre outros do primeiro volume de contos e, dos novos, principalmente “O Milagre”. De fato, a única intervenção diversa aceitada nesse mundo de Torga é a preternatural, como fica claro no conto “O bruxedo”.
Em todo caso, o naturalismo de Torga é mais filosófico do que literário: poucas vezes li alguma descrição detalhada de cena de sexo ou cenas violentas que tanto encheram as páginas de naturalistas brasileiros. Perto de “O Cortiço”, o par de livros de contos aqui tratados é literatura para noviças. Fica tudo subentendido, como no incrível conto “Mariana”, no tocante ao sexo, ou é dignificado por um sentimento poético que transparece na linguagem, como no conto “O Leproso”, que se refere à morte e ao mal físico, ambos dos “Novos Contos da Montanha”.
Não é meu costume fechar um arrazoado falando da linguagem, após falar da cosmovisão, simbologia ou filosofia subjacente à obra analisada. Mas, numa ocasião de primeiros, calhou que, nessas obras gêmeas, a linguagem, após vistas as principais diferenças, exsurge como um dos pontos altos que igualam os contos novos e antigos, e que não se reconcilia bem com a diferença de tom acima notada.
Miguel Torga atinge um efeito claro-escuro desnorteante ao usar do vocabulário e trejeitos de linguagem dos interioranos, sem perder entretanto um fino sentido da língua, que transparece sobretudo na narrativa direta e na poesia das descrições, seja de cenas estáticas, seja de cenas dinâmicas. Vejam, por exemplo, a descrição que o autor faz de um amanhecer em vilarejo pacato do interior de Portugal, nas primeiras linhas do irretocável conto “Regresso”:
“Casta, orvalhada da mesma frescura que humedecia a fruta nos seus pomares, Leiró acordava de uma grande noite de sono e de sonho. O primeiro fio de fumo subia já da lareira do João Rã, o madrugador da povoação. Erguia-se branco, preguiçoso, tímido da aragem fria da manhã. Mas, logo que chegava a céu aberto, tomava respiração, alargava os braços e diluía-se voluptuoso no éter perfumado do ar. Dos quinteiros nasciam vozes confusas da Babel animal. E da esquadria honesta dos portais, larga e franca, iam surgindo caras humanas e cristãs, levedadas para nova romaria de suor.”
A mesma capacidade de síntese sem perder detalhes, o mesmo poder de fazer vir aos olhos uma cena imaginada, é mantido na descrição de uma passagem dinâmica, em “A Caçada”:
“Calmamente, o Felismino acabou então de se vestir, foi à gaveta do pão buscar uma côdea, e quando acabou de mastigar bebeu dum trago um cálice de aguardente. Depois, pôs o cinturão, tirou a arma do prego onde estava pendurada, abriu-a e meteu-lhe um zagalote no cano esquerdo e um cartucho de chumbo cinco no direito. Finalmente, desceu e destrancou a porta.”
Miguel Torga, assim, salva-nos de descrições sem-fim que poderiam atrapalhar e até inviabilizar a apreciação estética de seus contos.
Na verdade, a síntese de suas descrições de cenas e cenários passa de hábil a genial quando se dirige à psiquê humana. Como um velho digno que muito experimentou da vida e consegue sumarizar situações complexas em frases carregadas de sentido, Torga, quando perscruta a intimidade da sua gente, fecha em sentenças claras existências obscuras:
“No dia seguinte não se falava na terra doutra coisa. Passavam a dolorosa notícia uns aos outros afanosamente, numa agridoce emoção de prescientes e não ouvidos conselheiros.” (“O Milagre”)
O engenho dos juízos breves também brilha quando resumem caracteres:
“No fundo, era um imaginativo sem imaginação. E aplaudia incondicionalmente a dos outros, mesmo quando fazia figura de asno.” (“Marcos”, dos “Novos Contos”)
E o vigor narrativo, aliado à poesia íntima, natural, de um humanista de trás-dos-montes, nos dá passagens imortais, como esta, que descreve a procissão do “Senhor-fora” no conto “O Senhor”:
“Cada qual se sentia uma parcela do Deus que ia à frente a guiá-los e a partilhar com eles o seu poder de salvação. Arrastavam-se sem consciência do corpo, numa leveza de eleitos, movidos apenas pela força da missão transcendente de que se julgavam investidos. E nessa exaltação apagava-se aos olhos de todos o relevo das coisas, a distância do caminho, a grandeza da paisagem. Quando o Malaquias surgiu finalmente, ajoelhado na estrumeira do quinteiro, de mãos erguidas, por um triz que não foi pisado pela avalanche piedosa e cega. A integração numa outra vida cilindrava a realidade desta.”
Essa linguagem, aprendida com a gente simples, e cultivada pelo médico humanista e agnóstico, salva o conjunto da obra dos perigos do naturalismo. Miguel Torga pode ter imaginado que prendeu o povaréu de sua infância no fogo trasmontano de um purgatório de imaginação, mas é a força daquelas pessoas simples e trabalhadoras, tementes a Deus acima de tudo, que, tomando de assalto seu espírito, conduziu suas hábeis mãos a fazer duas obras que traem a filosofia de seu autor e resistem como provas inequívocas da dignidade especial, e divina, da alma humana.