"Kililana Song" de Benjamin Flao, embora seja uma obra de arte visualmente deslumbrante e uma narrativa comovente, não escapa de certas críticas quanto à sua abordagem. Em particular, a HQ pode ser vista como um exemplo da visão urbana europeia que, por vezes, idealiza comunidades pobres enquanto seus criadores e consumidores continuam a usufruir dos benefícios do capitalismo de alto padrão.
A HQ, ambientada na pequena cidade de Kililana no Quênia, apresenta uma comunidade rica em cultura e tradição, em contraste com as forças externas de globalização e desenvolvimento capitalista. No entanto, a forma como essa narrativa é construída pode refletir uma tendência problemática de exotificação e romantização de realidades complexas e difíceis.
Uma crítica central é a idealização das comunidades pobres, vistas frequentemente através de uma lente que enfatiza a simplicidade, a pureza e a harmonia com a natureza. Esse tipo de retrato pode, inadvertidamente, simplificar e estetizar as dificuldades reais enfrentadas pelos habitantes dessas regiões. A vida em Kililana, com suas tradições e resistências, é mostrada de forma quase utópica, um paraíso ameaçado por invasores externos. Enquanto isso, as realidades do dia-a-dia – a luta pela sobrevivência, a falta de recursos básicos, e as desigualdades estruturais – são suavizadas ou romantizadas.
Esse fenômeno pode ser entendido como uma forma de escapismo para os leitores europeus urbanos, que podem desfrutar de uma visão idealizada da pobreza sem confrontar diretamente os problemas que a perpetuam. A obra, consumida por uma audiência que muitas vezes vive confortavelmente nos centros capitalistas do mundo, pode oferecer uma sensação de envolvimento emocional e ético sem exigir um verdadeiro engajamento ou ação em relação às injustiças apresentadas.
Além disso, o próprio sucesso comercial de "Kililana Song" e de outras obras semelhantes reflete uma ironia: a capitalização sobre a narrativa de resistência ao capitalismo. As publicações, vendas e consumo de tais HQs ocorrem dentro das estruturas do mercado global, beneficiando-se das mesmas dinâmicas econômicas que criticam. Os leitores, muitas vezes pertencentes a um segmento de alta renda, consomem essas histórias como uma forma de entretenimento ou enriquecimento cultural, sem que isso necessariamente leve a uma mudança nas práticas econômicas ou sociais que sustentam suas próprias vidas.
Essa dissonância entre a crítica ao capitalismo e a participação ativa no sistema capitalista é um ponto de fricção. Enquanto "Kililana Song" levanta questões importantes sobre globalização, preservação cultural e resistência, é crucial reconhecer que essas representações podem ser filtradas através de uma perspectiva ocidental que não enfrenta as mesmas pressões que os sujeitos retratados.
Portanto, embora "Kililana Song" seja uma obra significativa e artisticamente impressionante, ela não está isenta de uma crítica mais ampla sobre como as narrativas de resistência e cultura são moldadas e consumidas no contexto global. Há uma necessidade contínua de questionar e refletir sobre a forma como essas histórias são apresentadas e as dinâmicas de poder envolvidas na sua produção e consumo. Assim, podemos apreciar a beleza e a mensagem da obra, enquanto permanecemos conscientes das complexidades e das responsabilidades inerentes ao seu contexto.