Se o gosto é o reino da idiossincrasia, quem tem olho é rei na terra da degustação às cegas. Assim, contrariando a "histrionice temperada com efeitos botox do carvalho novo", que hoje rende os aplausos mais calorosos da imprensa especializada, o polêmico documentarista Jonathan Nossiter dirige seu juízo não tanto ao gosto dos críticos, mas sobretudo ao poder de uma nova casta de consumidores socialmente ambiciosos, porém culturalmente ignorantes. Para Nossiter, a sobrevivência dos vinhos de terroir , testemunhas seculares da civilização, associada ao sistema da designação de origem (anterior ao sistema californiano do tipo de uva), torna-se hoje uma questão de patrimônio mundial, de valor universal, da cultura. Contra a "pátina instantânea", que imita artificialmente o envelhecimento, mas também contra a noção de que o "pequeno sempre é bom e o grande é mau", Nossiter conclui que para ser crítico não se pode é ser empregado do sistema do vinho. O périplo do autor começa no Rio de Janeiro, na companhia dos também cineastas Walter Salles e Karim Aïnouz, em torno de um Aglianico del Vulture, da região onde Pasolini rodou o Evangelho segundo São Mateus ; e daí percorre diversas caves , restaurantes, vinícolas e shopping centers de vinho da Europa. Desses caminhos, surge um panorama enviesado do mercado do luxo, de um ponto de vista senão de uma gastrutopia , do luxo gastronômico para todos, ao menos da autonomia de um apaixonado curioso pela dimensão cultural do vinho, disposto a reforçar a liberdade de expressão do próprio prazer, sem sujeitar-se a formulações híbridas de boa publicidade e má poesia. "Este é o melhor livro já escrito sobre vinho, e não imagino que vá encontrar outro tão importante antes de morrer. Bravo, Nossiter!" - Bill Buford, autor de Calor
Nossiter é um defensor incondicional do terroir e inimigo mortal da homogeneização do vinho. Ataca frontalmente monstros sagrados como Robert Parker, Michel Rolland e os produtores do Vale do Napa, na Califórnia. É uma leitura que ajuda a desconstruir essa ideia hermética do mundo do vinho. Não vou beber vinho do mesmo jeito depois desse livro.
Um livro para os amantes do vinho, que busca a valorização, o respeito e reconhecimento do Terroir e faz uma dura crítica contra a homogeneização do vinho liderada por alguns poucos para atender as demandas do mercado atual.
Já tinha visto Mondovino, filme do Nossiter, sem saber quem era a figura. Lendo Gosto e Poder desde agosto de 2014, agora em setembro acelerei a leitura pra tentar terminar em férias no Uruguai. A melhor descrição do Nossiter e de suas convicções sobre a nefasta indústria globalizada do vinho ocorreu em visita à Bodega Carrau, perto de Montevidéu, onde encontramos na degustação dois casais que não pensam muito como ele. Enquanto todos - inclusive a guia da visita à Bodega - discorriam sobre notas de maracujá e de abacaxi de um vinho branco, eu e Mari (minha namorada) nos limitávamos a continuar bebendo, aproveitando o vinho, até que Mari perguntou se valia à pena mesmo pagar 300, 1500 reais numa garrafa, dizendo que não imaginava nunca pagar isso num vinho. Um dos brasileiros começou a defender a questão do preço, eu questionei e citei este belíssimo livro. A resposta do brasileiro "Nossiter é um anarquista do vinho". No caso, um elogio para quem questiona o excesso de enochatice e de conchavo entre críticos, comerciantes e produtores, que acaba por desenvolver uma mcdonização do gosto através de notas matemáticas para um vinho.
Aqui não vais encontrar notas de tabaco, aroma de pedra queimada, retrogosto de cassis. Uma aula sobre vinho como uma bebida com mil gostos, onde quem bebe é quem define o gosto, e não é Robert Parker que vai te dizer o que é bom.