Rating: 2.5 stars.
Richard Zimler já me tinha chamado a atenção com a sua obra "O último Cabalista de Lisboa". Afinal, quantos estrangeiros é que decidem estudar o nosso pequeno país e arriscam escrever sobre a nossa história? Muito poucos, suponho. Para além disso, toda a gente diz maravilhas da já referida obra, pelo que, quando vi este livro na loja e percebi que se passava também em Portugal, fiquei ainda com mais curiosidade.
Henrique "Hank" Monroe é detetive da Polícia Judiciária. Vive em Portugal, de onde é originária a sua mãe e é, aparentemente, uma pessoa o mais normal possível. Mas a verdade é que Hank tem segredos, que se prendem com o seu trágico passado no Colorado. E este livro, "A Sentinela" é tanto sobre a investigação de Monroe sobre o assassínio de um dono de uma empresa de construção como sobre esse passado.
A minha leitura deste livro foi... complicada. Não posso negar que é um livro interessante e bastante bem escrito, no geral, se bem que sofre um pouco por não "saber exatamente o que quer ser"; se livro de ação/thriller, se livro introspetivo sobre a natureza humana. Penso que o meu problema com este livro, para além do facto de ser tão realista que é deprimente é que o balanço entre estas duas vertentes não foi assim muito bem conseguido.
Hank tem uma panóplia de problemas psicológicos (psiquiátricos mesmo), que têm origem no seu passado. Basicamente, o pai de Hank era um sociopata e gostava de torturar os filhos e a mulher. Como resultado, Hank criou uma personalidade alternativa, uma espécie de guardião meio selvagem, cujo objetivo é proteger o seu irmão, Ernie. Gabriel, esta segunda personalidade, é um investigador nato que permite a Hank ser um ótimo inspetor. Mas Gabriel pode também causar problemas.
Por outro lado, temos o homicídio de Coutinho, o dono de uma empresa de construção civil que é, claro, corrupto e tudo o mais. A ligação entre o passado de Hank e uma das vítimas deste crime, a filha de Coutinho, faz com que o primeiro sinta que tem de resolver este caso.
Esta dualidade no enredo é interessante, sim, mas creio que não foi explorada de forma eficaz. Gabriel, a personalidade alternativa, aparece diversas vezes durante a história mas nunca temos oportunidade de o ver em ação. Como Hank "perde a consciência", também o leitor fica no escuro relativamente às ações de Gabriel. Esta personagem, que é, no fundo, parte integrante de Hank, nunca é explorada convenientemente e fiquei com a impressão de que só conhecemos metade do protagonista.
Quanto ao mistério, tem contornos sinistros mas é relativamente fácil perceber o que se passou. O desfecho foi tipicamente português, por assim dizer, o que é... bem, deprimente.
O ritmo da narrativa é irregular, passando de envolvente a descritiva e introspetiva, o que fez com que, por vezes tivesse alguma dificuldade em continuar a leitura.
No fundo, este livro está bem construído q.b., tanto em termos de mistério como de "narrativa introspetiva", em que o protagonista sofre alterações e muda devido aos acontecimentos, mas as duas partes não "encaixam" a 100%: nem Hank nem o mistério recebem o tempo de antena que "merecem".
No geral, uma leitura algo desigual, com partes interessantes e partes algo aborrecidas. "A Sentinela" é um livro realista, algo chocante e muito introspetivo nalgumas partes e devo dizer que isso fez com que gostasse e não gostasse da leitura. É um livro algo incómodo.