Πορτογαλία, μέσα του 19ου αιώνα. Μέσα στην ατμόσφαιρα της βικτωριανής εποχής, η ζωή στο μικρό λιμανάκι της Μαδέιρα ακολουθεί πιστά τις ανόητες, στυφνές επιταγές μιας κοινωνίας που ενδιαφέρεται περισσότερο για το τυπικό παρά για το ουσιώδες, και της οποίας οι άνθρωποι προσπαθούν ν' ανεβάσουν το κοινωνικό τους επίπεδο μαθαίνοντας πιάνο και γαλλικά. Όμως, στην κλειστή λόγω νοοτροπίας πορτογαλλική κοινωνία, που πλησιάζει στην εποχή των μεγάλων αλλαγών, των πολιτικών μεταπτώσεων και των λαϊκών διεκδικήσεων, διάφορα πρόσωπα, διάφοροι χαρακτήρες πλαισιώνουν τις εσκεμμένες ανισότητες. Πρόσωπα επαναστατικά - σαν εκείνο της Ραχήλ -, που ξεγελούν τη δυστυχία του εχθρικού για τις γυναίκες περιβάλλοντος στο οποίο τάχθηκαν να ζήσουν. Πρόσωπα στιβαρά, στηριγμένα στους ανοιχτούς ορίζοντες της επιστήμης τους - όπως ο Μάρκος - που αφήνουν περιθώρια ανάσας στους αγαπημένους τους, στη σύζυγο, στις κόρες τους. Οπτασίες όπως της Μάρθας και της Μαρίας, γκριζαρισμένες όχι τόσο από το χρόνο - σαν τις φωτογραφίες στο παλιό έπιπλο της προγιαγιάς που βρήκε η αφηγήτρια - αλλά απ' την έμφυτη στειρότητα με την οποία ορισμένοι γεννιούνται χρησιμοποιώντας την για να καταστρέψουν ό,τι ομορφότερο έχει κανείς στη ζωή. Πρόσωπα καταλυτικά σαν τη θεία Κωνστάνσα, που λειτουργεί ως θεματοφύλακας των υποκριτικών ηθών της εποχής της. Είναι όμως όλοι αυτοί θύτες ή τελικά θύματα κατά την ρήση "αμαρτίαι γονέων παιδεύουσι τέκνα";
De famílias madeirenses, Helena Marques nasceu em Carcavelos, em 1935. Jornalista durante trinta e seis anos, iniciou a sua carreira no Diário de Notícias do Funchal e terminou-a no Diário de Notícias de Lisboa, onde foi directora-adjunta (1968- 1992). Entretanto, foi redactora de vários outros diários, nomeadamente A Capital, República e A Luta. Publicou o seu primeiro livro, O Último Cais, em 1992. Muito aclamado, recebeu o Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores, o Prémio Revista Ler/Círculo de Leitores, o Prémio Máxima de Revelação, o Prémio Procópio de Literatura e o Prémio Bordallo de Literatura da Casa da Imprensa. Seguiram-se os romances A Deusa Sentada (1994), Terceiras Pessoas (1998) e Os Íbis Vermelhos da Guiana (2002), e o livro de contos Ilhas Contadas (2007). A sua obra encontra-se traduzida em alemão, italiano, castelhano, grego, romeno e búlgaro. O Bazar Alemão (2010) foi o seu último livro.
"Marcos vivia, então, na Penha, numa casa sobranceira ao porto, instalara cadeiras de deck na varanda, estendia-se ao sol olhando os barcos através dos seus potentes binóculos, velho marinheiro na ponte de um navio ancorado, à espera de chegar ao seu último cais."
O Último Cais é bem capaz de ser o romance mais belo que me foi dado ler até aos dias de hoje. Com a ilha da Madeira e a ameaça do dealbar republicano como pano de fundo, traça a história da família Vaz Lacerda, e permite toda uma reflexão histórica e social que não se esgota no tempo da narrativa.
"Feliz Marcos que pode quebrar a monotonia e fugir, ser médico da Armada por um ano, sempre que a claustrofobia da ilha atinge o ponto de sufocação. E eu?, pergunta-se Raquel, debruçada à janela da casa do Vale Formoso, à janela onde se debruça todos os dias de toda a sua vida. E eu? Para mim, que nasci mulher, que quis casar e ser mãe, para mim nada mudou desde Penélope. O meu quinhão é esperar. Dentro de casa. Fiando. Ou olhando o mar. Sorri, apesar de tudo."
Como em muitas narrativas de anos 80/90, também o texto de Helena Marques reflete uma preocupação com o tempo feminino, os papéis de género, a liberdade de escolha das mulheres, as implicações de assumir ou não o estatuto de mulher, mãe, cuidadora:
"O sexo feminino, divaga Raquel com subversiva inocência, tem afinal duas componentes, as mulheres e as senhoras. Até nos actos de nascer, parir ou morrer há diferenças - ou injustiças?"
"As velhas meninas não têm idade. Pertencem àquele grupo anónimo,(...)e marginal das mulheres sem marido. Não casaram por razões várias, porque perderam a frescura à cabeceira de pais doentes, porque perderam a virgindade num escândalo impossível de ocultar, porque são demasiado feias ou demasiado pobres ou demasiado insípidas, por qualquer dessas razões que nunca chegaram a sê-lo para um homem, haverá algum solteirão que o não seja por vontade, mesmo sendo feio, insípido e estúpido, conquistador nem se fala, até pobre, quando é que um homem pobre não se casa(...)?"
Entrementes, não lhe escapa o retrato de época. O Último Cais está pejado de maravilhosas descrições da ilha, de factos históricos discretos e deliciosos:
"«Li a bordo, num jornal de Capetown», recorda Marcos, «que está a fazer grande sucesso na América uma nova aplicação do invento de Edison,»(...)segundo o jornal, o fonógrafo reproduziu o hino do centenário da independência dos Estados Unidos cantado por coros afinadíssimos, tal qual fossem vozes humanas.»" (...) «Ah, mas eu li uma coisa ainda mais espantosa numa revista hoje chegada de Londres», interrompe Rodolfo, «parece que o senhor Bell, o inventor do telefone, prepara um maquinismo que permitirá ver pelo telégrafo, é assim mesmo que a revista descreve o invento."
Num périplo geracional, Helena Marques ancora a sua narrativa num eixo de personagens femininas heróicas e míticas: Raquel qual Penélope que aguarda o retorno do esposo amado a casa; Marta e Maria, duas faces da mesma moeda que se desdobram entre o mundo ativo e o contemplativo; Catarina, virgem e doutora... Cada personagem neste texto parece ter o seu doppelgänger simbólico. E é através destas mulheres que a autora oferece aos leitores uma perspectiva privilegiada dos espaços murados que são a ilha, a casa, o casamento em finais de século XIX - não deixando de insinuar que à clausura se opõe a vontade destas mulheres por mais e melhor, conquistando a pouco e pouco, e a suas expensas, para as suas descendentes, a liberdade e igualdade que anseiam viver.
"(...)como era fácil falar a uma médica de problemas de mulheres, de menstruações dolorosas, de menopausas inquietantes, de gravidezes indesejadas, de virgindades a perder em misteriosas noites de núpcias. E como era, por si só, tão terapêutico poder falar, falar num lugar seguro e inviolável mas que não era o confessionário com o seu ancestral clima de temor, falar a outra pessoa que não um padre, um homem-padre de obtusa compreensão, sobre misérias da vida conjugal, sobre a violência e a frequente humilhação implícitas nesse dever que a Igreja declara santo e irrecusável, «nunca uma mulher se negará a seu marido»."
Por qualquer estranha razão, é-me muito mais fácil analisar obras pelas quais não sinto afeição, muito mais simples sondar significados e mensagens nos livros cuja história me deixa indiferente. Com este O Último Cais não sobram palavras. A beleza, a riqueza destas duas centenas de páginas supera qualquer bem intencionada tentativa de crítica.
The novel O Último Cais, whose action takes place at the end of the nineteenth century in Funchal, in the Madeira Islands, shows a diverse group of women from different generations. This work focuses on the manifestation of the feminine in O Último Cais, with particular relevance on the characters that impose themselves by the plausibility and consistency of their construction. It starts by exploring the documentary dimension of the romance by characterising women’s situation in that time’s society historically, in public and private spaces. Then it continues with the study of the main female characters, commenting on some of their personality features and showing their life path. Finally, it reflects several aspects of the narrative instance, marked by a feminine perspective.
Habituado a que uma saga seja um livro volumoso , não poucas vezes aborrecido, surpreende esta aparente simplicidade e frugalidade em menos de 200 pgs. HM consegue este feito maior, um grande pequeno romance passado no Funchal entre meados do sec XIX e os alvores da implantação da Republica. O sentimento dos que vivem numa ilha, as crenças fanáticas e temores da religião, o início do movimento de emancipação da mulher, ainda mais dificil numa sociedade pequena e fechada, tudo isso e muito mais faz deste romance um dos melhores da literatura portuguesa. Helena Marques é um nome que merece mais reconhecimento e muitos mais leitores.
Com este romance, Helena Marques demonstra a sensibilidade de um ilhéu. Representado a ilha como um porto de entradas e partidas, a "clausura", o espaço que limitava a liberdade de muitas mulheres.
Neste " ultimo cais" acompanhamos a historia de amor eterno de Marcos e Raquel, mas também a jornada de vàrias mulheres que procuram escapar ao seu destino de ser apenas objectos de submissão dos seus maridos. Catarina Isabel é a personagem que destaco pela sua coragem em tirar um diploma em Medicina, e exercer a sua profissão ignorando a opinião publica. Apenas preferia que Marcos tivesse ficado sozinho, não acho correcto ficar com alguém apenas para espantar a solidão.
Ένα διαμαντάκι... Ένα βιβλίο που είπε τόσα πολλά μέσα σε 100 σελίδες... Υπέροχες φωτεινές περιγραφές της θάλασσας και της υπαίθρου, κονφορμισμος και ο κόντρα αγώνας για μια ζωή με επιλογές, τις οποίες σήμερα οι γυναίκες έχουν δεδομένες, ντυμένα όλα μέσα από την τρυφεράδα του ερωτα..ολα αυτά θίγονται μόνο, μέσα στο βιβλίο-είναι άλλωστε τόσο μικρό-ομως είναι σα να έχουν υπέρ αναλυθεί... Το τελείωσα με μεγάλη συγκίνηση και μια αίσθηση πληρότητας.
Este romance relata a saga do família Vella ou Villa, no Funchal, no século XIX. Mostra o isolamento e confinamento dos habitantes de uma ilha. A notícia só chega com o próximo navio para aqueles que não podem deixar a ilha.
O último cais começa com o diário de bordo, de 4 de setembro de 1879. O enredo trata do casamento feliz de Marcos Vaz de Lacerda, comandante de navio, e de Raquel. O principal em sua vida é o amor por Raquel. Não tem medo de mostrar seus sentimentos. Raquel e eu temos a felicidade escrita em cada milímetro de pele, em cada fibra de voz, e ninguém se apercebe, ninguém vê.
O amor é correspondido por Raquel. Mas ela quer saber quem são seus antepassados. Quem eram os Villas, como viviam, como eram essas mulheres de que ela teria herdado, ao que se conjecturava, o cabelo cor de vinho velho, as pernas altas e a rebeldia? Sabe que seu avô André Vella veio de Malta para o Funchal. O sobrenome Vella mudou para Villa em terras portuguesas.
É feliz na ilha, apesar do isolamento. A única vez que viaja vai para a Guiana Britânica, a bordo do navio de seu marido. Engravida, dá à luz Clara e morre.
Marcos casa-se novamente após algum tempo. Casa-se com Luciana, com quem também é feliz. Marcos mostra que se pode ser feliz com mais de uma mulher. Cada amor é diferente. “Marcos amou-a mas dentro das limitações estritas que lhe consentia a fidelidade a Raquel.”
O romance termina em 1904.
Uma história deliciosa de uma família contada pelas vozes das suas mulheres.
Breve saga familiare con squisita ambientazione ottocentesca, nell'isola di Madera tratteggiata con mano impressionista. I personaggi, le cui vicende familiari si intersecano nel corso delle generazioni, sono davvero belli: sia maschili che femminili, romantici ma molto ben costruiti. Finale leggermente precipitoso: forse Clara, Carlota e la stessa voce narrante meritavano un poco di approfondimento in più per concludere la storia della famiglia.
Muito haverá a dizer sobre este romance que venceu o Grande Prémio de Romance e Novela APE. O que me envolveu foi a sabedoria da autora e como a revela numa escrita profunda e culta. Para além disso, a densidade das personagens e o fascínio da história arrebatam-nos completamente. A visão madura sobre os temas, como as relações conjugais, as questões racionais para um feminismo iluminado e a máquina do mundo dão-nos uma clarividência que só um espírito perspicaz poderia dar. Helena Marques era já uma mulher do mundo quando este ainda acordava para certos temas, com uma desenvoltura de ideias e pensamento que a colocam à frente das mulheres do seu tempo num país demasiado pequeno para uma mentalidade tão evoluída. Mas não se trata apenas de inteligência. Este romance leva-nos às lágrimas, faz-nos viajar, atira-nos para a urgência do amor e a contingência da vida. Que experiência!
É sempre um prazer ser transportada para o meio desta história que ja li e reli várias vezes... transporta-me ao Funchal, às ruas, aos barcos no cais... aos amores e desamores de uma sociedade que não conheci... Passo pelas folhas deste romance sem conseguir deixar de apaixonar-me pelas personagens. Pelo mito de Raquel... pelo amor de Marcos, incondicional e infinito...
Um livro que transmite a serenidade daqueles que esperam. É também um livro que dá voz à intimidade feminina. Não me vou esquecer tão cedo desta leitura.
Uma história de amor que perdura no tempo e que serve de pretexto para o testemunho de várias mulheres sobre a sociedade do seu tempo, em particular, com a sociedade do Funchal do final do século XIX. Ao longo do livro vamos observando uma família funchalense, pelos olhos de alguns dos seus membros, principalmente os de sexo feminino, revelando-nos os seus medos, anseios e esperanças. Uma narrativa refrescante, uma história tocante.
Adorei, adorei! Tao bem escrito! Foi um enorme prazer ler este pequeno livro, que consegue contar e pintar uma grande história em (quase) meia dúzia de páginas.
Gostei de conhecer o Marcos e a Raquel e fazer parte da sua vida enquanto li este livro, aproveitei a boleia e visitei também a Madeira do século XIX.
Helena Marques is a master storyteller. In O Último Cais she gives us the story of a wealthy family in Madeira Island. The story captures the reader with its simplicity, beauty, and the web of events of a family spanning about a century. Starting in the later part of the 19th century, the book takes us into the houses, “quintas,” lives of a family in its happy as well as difficult hours. Helena Marques, has written a family saga in less than 200 pages, with tenderness, insight, and love. The story of Marcos and Raquel and their family is one that the reader becomes part off through the beautiful prose of the author. Maria Teresa Horta said that: «O Último Cais é um texto envolvente, sedutor, pela sua aparente simplicidade. Pela sua beleza. Pela sua força, tecida de pequenas fragilidades, de pequenas fragrâncias de pequenas cintilações musicais...» Take a Sunday afternoon and read this great book in one sitting.
Helena Marques é uma grande contadora de histórias. Em O Último Cais, ela conta-nos a história de uma família abastada da ilha da Madeira. A história seduz o leitor com a sua simplicidade, beleza e os marcos significantes de uma família que abrange cerca de um século. Começando no final do século XIX, o livro transporta-nos para dentro das casas, quintas, vidas de uma família nas suas horas felizes e difíceis. Helena Marques escreveu uma saga familiar em menos de 200 páginas, com ternura, discernimento e amor. A história de Marcos e Raquel e de sua família é uma das que o leitor se torna parte através da beleza da prosa do autor. Maria Teresa Horta disse que: «O Último Cais é um texto envolvente, sedutor, pela sua aparente simplicidade. Pela sua beleza. Pela sua força, teca pequenas fragilidades, pequenas fragâncias de pequenas cintilações musicais ... » Numa tarde de domingo leia este grande livro de uma só vez.
Começando este livro, custou-me a entender o primeiro capítulo porque havia tantas personagens em duas linhas de tempo distintas que perdi logo o fio à meada. Desenhei uma árvore genealógica de como as várias pessoas estavam ligadas, que tornou a compreensão mais fácil, e depois fiquei absorvido na história.
O enredo anda à volta de uma família madeirense, principalmente um casal que vive nos finais do século XIX. Há uma narradora que está a contar a história mas ela é quase invisível. Poucas vezes faz referência ao seu próprio ponto de vista, cem anos depois, quando herda uma escrivaninha e vários papéis da sua tia, que também é neta do casal.
Cada capítulo é dedicado a um familiar, principalmente os elementos femininos, e a sua perspetiva. Embora Marcos, o marido do casal, seja central ao enredo, não é o protagonista. A autora está mais interessada na experiência das filhas e irmãs e outras mulheres; na primeira página há uma citação de Herberto Hélder* “Começa o tempo onde a mulher começa”.
Seria muito fácil para um livro que tem lugar numa ilha ser insular ou paroquial, mas a autora deixa uma janela aberto para o mundo lá fora: Marcos participou na luta contra a escravatura em África após a sua abolição na Europa e nos Estados Unidos, e outros capítulos abordam o movimento pelos direitos das mulheres, conhecido por sufragismo, o crescimento do sentimento republicano e até o desenvolvimento de infraestrutura tecnológica na forma de um cabo telefónico sob o Atlântico. Assim situando o seu elenco num palco mundial, pintando numa tela grande (estou a misturar metáforas mas não me importa), a autora evita um sentido de claustrofobia.
Adorei o livro e estou muito contente que mo tenham recomendado antes das nossas férias na Madeira.
Que delicioso foi descobrir a escrita de (e a escritora) Helena Marques! Sem sombra de dúvida uma mestre da prosa poética, dotada da capacidade de criar uma escrita profunda, e de veicular sentimentos complexos de forma aparentemente simples, que enovelam o leitor. A isto adiciona-se um enredo cativante, personagens representativas da sua classe e do seu tempo, um cenário exótico (a ilha da Madeira), mas mais que tudo uma centralidade no amor, româtico ou fraternal, e de como a sua presença ou ausência, é de facto uma (senão a principal) força motriz da vida humana, igualmente construtiva e destruidora… Apreciei bastante a forma como a autora retratou as personagens femininas, descrevendo o papel da mulher nestes finais do século XIX, sempre na dicotomia das expectativas e convenções sociais e religiosas, versus o que realmente as mulheres pensam, sentem e sonham, e do acordar do feminismo (o verdadeiro feminismo, não as versões deturpadas de discurso de ódio aos homens). Um romance fantástico que se lê vorazmente.
Surpreendeu-me pela positiva, dado que desconhecia por completo a autora e esta obra em particular. É, na verdade, um 3,5.
As personagens são, na sua maioria, interessantes, e a premissa do enredo não deixa muito a desejar face àqueles livros estilo Jane Austen. Só que foi escrito quase dois séculos depois de Austen, e não tem a intensidade ou a plausibilidade de Austen. Tenta, contudo, produzir um retrato de uma época. Em parte consegue - as descrições da Madeira são boas e são relatados costumes pitorescos que desconhecia por completo - mas falha por ser pequeno (a estrutura a variar o foco em diferentes personagens talvez agrave a dificuldade de aprofundamento de várias delas) e por a autora colocar sistemáticos comentários sobre a época que me pareceram deslocados ou pelo menos mal colocados nos diálogos.
O estilo de escrita é agradável. Acessível mas inteligente.
Raquel é, ou poderia ter sido, uma boa personagem - mesmo. Ficou-se pela Penélope.
Nota: pontos extra pelas diversas referências a cabos submarinos, inesperado, gostei.
Gostei da minha estreia na obra desta autora. Helena Marques publicou romances e livros de contos, recebeu vários prémios literários ao longo da vida e ainda não lera nada. Ao longo destas páginas, conhecemos a história de Raquel, Benedita, Clara, Nicolau, Luciana, Catarina Isabel, Marta e Maria, Carlota, Marcos. É um livro sensível que desenha belíssimas personagens de mulheres submissas, lutadoras, indiferentes, emancipadas e profissionalmente bem-sucedida, apagadas, que anunciam a mudança da sua condição, com o avançar do século. Espaços, tempos e memórias do século XIX na Madeira qua a dada altura parece ter quase a dimensão de uma personagem.
Magnífico romance histórico sobre as elites funchalenses do século XIX. A escrita de Helena Marques é elegante e rigorosa. Apresenta-nos uma série de personagens cativantes, sobretudo femininas, que nos ajudam a rever a história do século, não apenas na ilha, mas no país e no mundo, incluindo avanços tecnológicos ou direitos feministas. Uma leitura rica e que custa parar.
O sexo feminino, divaga Raquel com subversiva inocência, tem afinal duas componentes, as mulheres e as senhoras. Até nos actos de nascer, parir ou morrer há diferenças - ou injustiças?
Uma bela saga familiar que, centrada nos seus femininos, conduz-nos de uma forma muito emblemática a lugares, sentimentos e movimentos históricos.
Por casualidade , li este durante o dia 8 de Março. Uma feliz coincidência que me levou a uma história repleta de personagens femininas fortes e lutadoras nas suas diversas realidades. Próxima paragem: reler o livros Deusa Sentada, outra obra desta fantástica escritora.
"A contextualização sócio-cultural é feita logo no primeiro capítulo, através de diálogo: decorre o século XIX, com os movimentos abolicionistas, a guerrilha com os Zulus, e, em Inglaterra, as sufragistas – questões que serão o pano de fundo. São também apresentadas algumas das linhas caracterizadas das personagens, em particular Marcos e a necessidade que sente em sair constantemente da ilha da Madeira, apesar da família e da paixão pela esposa, que deixa para trás ao fazê-lo. (...)"
História passada no Funchal, desde 1880 até 1904 ou perto disso, com certos episódios de atualidade, mas que acabam por se não perceber bem ou pelo menos não são explorados. O clima do livro dá ideia serem memórias ou recordações familiares nuclearmente uma família aristocrática os Vaz de lacerda cruzados com os Villa (vindos da Ilha de Malta) a maior parte deles médicos, em que a figuras centrais acabam por ser Marcos, um médico que volta e meia vai em comissões de serviço para África e sua mulher raquel, de quem apesar de casado há 16 anos só encontra verdadeiramente num dos seus regressos ao funchal, quando se encontram e se amam, e em que ele fica grávida apesar dos receios dele (ela tinha tido um aborto que a deixara às portas da morte). os receios concretizam-se ela morre de parto na guiana inglesa e ele regressa com a bébé, Clara. A história seguinte é dessa família aristocrática de primos e primas onde o fenómeno da morte está sempre presente na memória dos vivos. Marcos arranja uma amante quase oficial sem muito compromisso, Luciana, que lhe dá a estabilidade que todos desejam e aceitam. Finalmente Marcos morre e vai para o último cais, onde reencontra Raquel, que há muito o espera e para quem, afinal, ele sempre viveu, reconciliado com a vida.
Li este romance quando foi lançado há 30 anos - e, com algumas reservas, gostei. Agora que o reli, com a (muita) idade a condicionar fortemente a apreciação - gostei muito mais. Vida e morte entrelaçam-se harmoniosamente nesta(s) história(s) de uma família da alta burguesia madeirense, contada com elegância, candura e sensualidade. Belo prefácio de João de Melo nesta edição comemorativa dos 30 anos do lançamento. Declaração de interesses: conheci Helena Marques (1935-2020) no final dos anos 70 e sempre tive por ela um enorme apreço pessoal - e profissional também!
Gostei da minha estreia no mundo das letras desta autora. Gostei da sua suavidade, que me aconchegou nestes dias invernosos e me manteve relaxada e bem comigo mesma. Quero voltar. Quero experimentar outra vez. Porque Helena Marques cumpriu e isso é o melhor.
Lindíssimo Uma história onde se entrelaçam as histórias de várias mulheres tempo como pano de fundo uma história de amor. Retrato da sociedade burguesa da ilha da Madeira do final do século XIX. Escrita fluída que prende desde a primeira pág, com um vocabulário rico e variado. Releitura e reencontro com uma grande escritora.
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