Cláudio Moreno nasceu na cidade de Rio Grande (RS). Formado em Letras com ênfase em Português e Grego pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), desde 1969 é professor de Português e Redação nos principais colégios de Porto Alegre. Concursado, de 1972 a 1996 lecionou no Instituto de Letras da UFRGS, onde também defendeu tese de mestrado em Língua Portuguesa, em 1977. No ano de 1997, concluiu doutoramento em Letras na Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS).
Coordena, atualmente, a área de Língua Portuguesa dos Colégios Leonardo da Vinci Alfa e Beta, de Porto Alegre, do Sistema Unificado de Ensino. É professor regular das Teleaulas de Língua Portuguesa da Universidade Estácio de Sá, do Rio de Janeiro. Na imprensa, assinou uma coluna mensal sobre etimologia na revista Mundo Estranho, da Abril, e escreve regularmente no jornal Zero Hora, de Porto Alegre, onde mantém uma seção sobre Mitologia Clássica e outra sobre questões de nosso idioma.
Há um problema de elétrica na sua casa. Após tanto quebrar a cabeça, você chama um eletricista, que em um minuto resolve o problema que lhe tomou horas; você, quando paga o valor total, o faz com um pesinho na consciência, oitenta reais pelo trabalho de um minuto?!
A gente, normalmente, não leva em conta que esse um minuto, consumiu centenas de horas de estudo e prática do profissional, e é isso que pagamos. Esse é o caso do Professor Cláudio Moreno, quando em cinquenta minutos, aproximadamente, reconta os mitos (mas não só, faz muito mais que recontar) no seu Podcast “Noites Gregas”.
Se fosse resenhar o podcast da mesma maneira que resenho os livros aqui, com certeza daria cinco estrelas; o Professor é um exímio contador de histórias, o melhor que já ouvi de Mitologia no Brasil, e não canso de recomendá-lo. Seu público — um exemplo da habilidade narrativa do Professor — varia de docentes, universitários de letras vernáculas, até donas de casa e marinheiros de primeira viagem nos assuntos gregos. Não me canso de recomendá-lo, experimente o Podcast e veja por si só. (Encontra-se, atualmente, no Episódio #44 — Medeia, inicia com os Deuses do Olimpo e pretende ir até por volta de oitenta, passando por toda a Mitologia Grega).
Essa eximia narração traz consigo longos anos de atuação nas salas de aulas, palestras, discursos e muitos escritos. Um Rio que vem da Grécia e Troia (o livro seguinte, que pretendo ler), são exemplos desses escritos.
Também um grande gramático, não é surpresa que as crônicas e anedotas são muito bem escritas, nisso não há o que criticar; o problema, no entanto, é na decisão do Moreno de influir uma certa dose de “moral” no fim de toda entrada, que em alguns casos, é bastante inspirada, mas ao longo do livro, a fórmula cansa.
Ele é muito melhor quando trabalha no vazio deixado pelas histórias; quando constrói diálogos, narra acontecimentos, dá sentimentos e personalidade às personagens, narra movimentos e ações sutis que não estavam lá originalmente, é delicioso; faz muito disso no Podcast, mas, poucas vezes neste livro.
A título de exemplo, uma entrada que ilustra minha relação conturbada com este livro encontra-se na crônica “Como se Fossem as Últimas”.
Protiselau, um adolescente apaixonado, recém-casado e com uma vida toda pela frente, foi um dos convocados para a Guerra de Tróia, "quando a armada grega chegou diante de Tróia, os navios ficaram flutuando além da rebentação, sem começar o desembarque; é que um oráculo rezava que o primeiro a pisar naquela praia ia morrer ali mesmo. De pé. na proa de seus navios, prontos para saltar em terra, os guerreiros se entreolhavam, hesitantes; ninguém queria sacrificar-se. Foi quando Protesilau, um dos jovens chefes da Tessália, mandou os remadores avançarem e pulou na água rasa, correndo para a praia, em direção aos troianos. Foi o seu fim: uma lança atravessou o seu escudo e atingiu-o no pescoço, matando-o instantaneamente."
Inerentemente uma história interessante, que eu não conhecia, e que deixa diversas perguntas e espaços a serem preenchidos pela imaginação: por exemplo, por qual razão, um jovem com uma vida pela frente, sacrificou-se dessa maneira? Já vi romances psicológicos inteiros serem construídos em “espaços” menores que este…
No entanto, o Moreno conclui assim, após uma breve retomada na história do rapaz, totalmente anti-climático, na minha concepção: “Bem menos triste, no entanto - e muito mais produtivo - é imaginar que, como Protesilau, voltamos agora para casa para viver as três horas que os deuses nos deram de inhapa, e tratar de aproveitar nossos últimos 180 minutos, esse tempo raro e valioso que ganhamos de presente. Se conseguirmos entrar no jogo, tudo - até um copo com água fresca - vai ficar mais precioso, mais pungente. É claro que não agüentamos toda essa intensidade por mais de três horas, mas não faz mal. Amanhã recomeçamos."
Isso se repete ao longo de quase todo o livro, e vai cansando; é tudo muito interessante, até chegar ao último parágrafo.
É muito bom ouvir as histórias da Grécia em geral, sabedorias comuns, acontecimentos popularizados e eternizados, personagens famosos, doses cavalares dos sempre tão interessantes episódios mitológicos… um pouco do Égito, esticando-se até a Dinamarca: há uma entrada bem boa sobre o sábio Rei Canute, que ganhou popularidade recentemente pelo mangá Vinland Saga; as referências também são extensas, desde Heródoto, Plinio, Aulo Gélio, até Jorge Luis Borges e Lawrence das Arábias, portanto, não posso deixar de recomendar para quem se interessa em ler brevemente sobre esses episódios; apenas, tenha paciência, e, leia as crônicas espaçadamente.
Enquanto o Podcast não chega ao seu final, e eu fico aqui aguardando com a mesma ansiedade que esperava o episódio de domingo das primeiras temporadas de Game of Thrones, vou me aventurar no segundo livro do Professor, que trata da Guerra de Tróia; e manter-me afastado do seu “Grécia — Cem Lições para Viver Melhor”, que, pelo que o título indica, segue a mesma fórmula desse aqui.
Coletânea de tirar o fôlego de textos do professor, comentando sobre os mitos antigos e relacionando-os com conceitos de filosofia e nossa vida cotidiana.