Narrativa pioneira sobre as transformações políticas, econômicas e sociais sofridas pelo Brasil durante sua transição de economia rural para potência industrial emergente, o livro clássico do brasilianista Thomas Skidmore ganha nova tradução e comprova que resistiu à passagem do tempo.Desde a primeira edição de de Getúlio a Castello (1930-64) em inglês, em 1967, Thomas E. Skidmore é tido como um dos mais destacados especialistas americanos na história brasileira do século XX. Entre nós, o livro teve recepção igualmente calorosa, de público e crítica, com numerosas reedições, e tornou-se leitura básica para qualquer tentativa de estudo ou compreensão do período abordado. À época de sua publicação, a obra apresentava características realmente iné partindo de sua tentativa inicial de compreender as forças sociais e políticas que levaram, com o golpe de 1964, ao fim do período de experimentação democrática no Brasil, Skidmore foi pioneiro em “historiar” fatos considerados então muito recentes pelos estudiosos brasileiros. Pesquisando múltiplas fontes, como dados estatísticos, artigos de jornal e arquivos governamentais, e, não menos importante, conversando com pessoas diversas no Brasil, de taxistas a intelectuais proeminentes, Skidmore logrou, antes de tudo, dar coerência a fatos esparsos, estabelecer conexões, construir, em suma, uma narrativa pioneira sobre um período que, embora tivesse sido largamente inventariado por organismos de pesquisa locais, carecia de uma “história”.Nessa empreitada - que começa na análise da Revolução de 1930, passando pelo autoritarismo do Estado Novo e pelo período de governo democrático depois da Segunda Guerra Mundial, para ser concluída com o golpe de 1964 -, Skidmore se propõe a debater questões que até hoje despertam polêmica. De que forma fatores econômicos e sociais influenciaram o processo político durante os anos 1940 e 1950? Qual foi o resultado da volta de Vargas ao poder c[...]
Eu já havia me deparado diversas vezes com este título, citado múltiplas vezes em vários livros sobre a história recente do Brasil e, depois de terminá-lo, entendo o porquê: aqui temos um resumo excelente da situação política, econômica e social do Brasil nos 35 anos após o golpe de Vargas em 1930, que encerrou a Primeira República.
A narrativa se desenvolve ao longo de três eixos:
I – a figura política de Getúlio Vargas, que derruba o a república oligárquica, manobra os diversos setores da sociedade para fechar ainda mais as instituições políticas debaixo de sua ditadura e, depois de derrubado, tenta se recolocar como democrata comprometido com as massas trabalhadoras. De sua figura se desenvolve praticamente todo o espectro ideológico e do período.
II – O papel institucional e ideológico dos militares, que se consideravam mantenedores da estabilidade e são cruciais para concretizar todas as mudanças políticas relevantes do período, seja no sentido de manter, seja no sentido de romper as instituições.
III – As transformações sociais e econômicas do Brasil entre 1930 e 1964, um período de urbanização, industrialização e crescimento populacional intenso, além da progressiva expansão dos direitos políticos da população. Dentro deste escopo, também se debate as diferentes visões ideológicas que competiam para guiar o desenvolvimento do Brasil.
Dentro destes eixos, Skidmore desenvolve diversas análises de episódios chave, como o golpe patrocinado pelos militares para colocar Getúlio como ditador em 1937 e o para derrubá-lo em 1945, garantindo eleições presidenciais. A alternância se repete no golpe para garantir a posse de Juscelino Kubitschek e depois para remover João Goulart. O autor faz uma análise muito interessante sobre o sistema político da República de 1945 – 1964: seus principais atores, as ideologias e estratégias de cada um deles e as organizações partidárias do período, que essencialmente buscam se posicionar como opositores ou mantenedores do legado de Vargas. Fica claro na narrativa que, apesar do golpe ter se concretizado em 1964, havia pelo menos uma década que a tensão política ameaça recorrentemente desaguar em quebra institucional.
O autor também traz diversas análises das diferentes opções de desenvolvimento do período: ora francamente desenvolvimentista, ora buscando um ajuste ortodoxo, Skidmore delineia muito bem o espaço de decisão dos presidentes, limitado pela relação com o Congresso, pela situação econômica internacional e a opinião pública. Uma constante do período é a falta de capacidade de se construir uma coalizão política robusta o suficiente para permitir o Brasil crescer de forma equilibrada, considerando a impopularidade de tal programa. Esse “empurrar com a barriga” assevera cada vez mais a situação inflacionária do país na última década que trata o livro, desaguando e um clima de forte instabilidade econômica e social para a qual a ditadura militar surgirá como “resposta”
O livro é escrito de maneira clara e direta. Apesar de muitos verem com alguma desconfiança um estrangeiro escrevendo história do Brasil, considerei um ponto positivo, ao trazer uma perspectiva diferente para diversas das questões nacionais, o que não implica em análises rasas dos problemas: o autor se vale de uma extensa bibliografia, seja documental ou de outros trabalhos, para embasar suas conclusões. O texto contém duas limitações (reconhecidas pelo próprio autor na introdução) essencialmente pela falta de material na época que foi escrito (1967): primeiro a ideia de que os Estados Unidos tiveram uma atuação muito limitada na conspiração para depor João Goulart e, segundo, que setores da esquerda não contavam com apoio relevante da esfera comunista, que na verdade já atuavam de forma importante no país, visando também acessar o poder por vias não institucionais. No entanto, nenhuma delas reduz a qualidade geral da obra.
Certamente é uma leitura obrigatória sobre a história recente do Brasil, equivalente a obra magistral de Elio Gaspari sobre a ditadura.
Bom, é um livro ótimo. É inexistente o uso de diversos termos acadêmicos que envolvem as ciências sociais, pois é um livro que envolve e descreve quesitos econômicos do período.