O império do homem sobre a natureza, assim como os bens produzidos por este domínio, está açambarcado, e a apropriação da natureza pelo homem social transforma-se em propriedade privada dos meios de produção. O dinheiro, símbolo abstrato dos bens materiais criados pela mão do homem [...] domina como senhor os homens que trabalham e produzem. O capital, forma de riqueza social [...] impõe os seus ditames à sociedade inteira e impõe-lhe uma organização contraditória: a relativa sujeição e o relativo empobrecimento da grande maioria desta sociedade."
Henri Lefebvre, filósofo marxista e militante histórico do Partido Comunista Francês, analisa criticamente, neste ensaio, o pensamento marxista. Propõem-se a fazer uma leitura da obra de Marx no plano sociológico, filosófico, económico e político, através da obra original do teórico mas também com a contribuição que aqueles que o seguiram e estudaram deram ao movimento socialista e comunista internacional.
Marx descobriu, enfim, o papel histórico do proletariado, a possibilidade de uma política independente (em relação à burguesia) da classe operária e de uma transformação das relações sociais, por meio desta política independente.
Lefebvre expõe a influência fundamental de Hegel no pensamento de Marx, bem como a teoria da mais-valia , da alienação do homem, da luta de classes e a questão fundamental dos meios de produção, e de quem os controla, no desenvolvimento das forças produtivas e da produção. Partindo do materialismo dialético , essencial para a compreensão do marxismo, comenta o florescimento e desenvolvimento da doutrina marxista desde os primeiros movimentos operários e camponeses até à contemporaneidade, como concepção do mundo que se propõe compreendê-lo e transformá-lo, aproveitando as contradições e falhas insuperáveis do capitalismo. Aponta, ainda, estas contradições, bem como aquelas que as outras concepções do mundo (como a cristã e a liberal, segundo Lefebvre) apresentam na sua génese, o que as impossibilita de dar resposta aos problemas da sociedade.
Rejeitando dogmas e leituras transviadas, dá resposta, ainda, a concepções erróneas, a análises imperfeitas e a interpretações truncadas que certos detratores do marxismo fazem da doutrina.
O marxismo não apresenta um humanismo sentimental e piegas. Marx não se inclinou para o proletariado porque é oprimido, para lastimar a sua opressão. Indicou como e porquê o proletariado pode libertar-se dessa opressão e abrir caminho a todas as possibilidades humanas. O marxismo não se interessa pelo proletariado enquanto fraqueza, mas enquanto força [de transformação].
Não recomendo a leitura a quem queira iniciar o estudo do pensamento de Marx, pelos devaneios filosóficos e pela análise muito concreta e específica que o autor explana. É indicado começar pelos textos originais de Marx e Engels e preferir certas análises e ensaios mais gerais e ideológicos antes de partir para a leitura da obra de Lefebvre.
Só o proletariado, pela sua ação, pode acabar com a alienação humana, pois é o único a vivê-la e a sofrê-la na sua totalidade. Só o proletariado pode libertar a sociedade e o homem libertando-se a si próprio, pois é o único a sofrer todo o peso da tirania e da exploração.