Publicado em 1930, numa pequena tiragem não comercial de apenas quinhentos exemplares - sob os auspícios de uma certa edições Pindorama, pura ficção jocosa -, Alguma poesia assinala a estreia de um autor que, então com 28 anos, iria revolucionar a poesia de língua portuguesa no século XX. Não é para menos. Com peças como “Poema de sete faces”, “Infância”, “No meio do caminho”, “O sobrevivente”, entre tantos outros textos decisivos, o livro demonstra já a enorme maturidade do jovem Drummond, ainda estabelecido em Belo Horizonte. Dois anos antes, Drummond havia causado escândalo entre as hostes literárias ao publicar, na Revista de Antropofagia, o poema “No meio do caminho”. Era o início da carreira de escândalo do poema, reconstruída na década de 1960 pelo próprio autor em um livro que reuniria os ataques, as paródias e as contendas relacionadas ao poema. Mas para além da polêmica, Alguma poesia já apresenta aquilo de melhor que Carlos Drummond de Andrade iria oferecer ao longo de quase 60 anos de uma das carreiras mais fecundas da literatura moderna: o lirismo, o humor, o tom meditativo e irônico, a observação desencantada dos fatos, o sensualismo, a reflexão aguda sobre o amor e a morte. Contando com um posfácio do poeta e crítico Eucanaã Ferraz, um dos grandes intérpretes da obra drummondiana nos tempos atuais, esta edição de Alguma poesia, com texto estabelecido e caderno de imagens, é uma nova - e extraordinária - oportunidade para o leitor brasileiro entrar em contato com um de seus grandes autores. E é uma promessa de reencontro para todos aqueles que desejam ler alguns dos mais emblemáticos poetas da nossa literatura.
Carlos Drummond de Andrade foi um poeta, contista e cronista brasileiro. Formou-se em Farmácia, em 1925; no mesmo ano, fundava, com Emílio Moura e outros escritores mineiros, o periódico modernista "A Revista". Em 1934 mudou-se para o Rio de Janeiro, onde assumiu o cargo de chefe de gabinete de Gustavo Capanema, Ministro da Educação e Saúde, que ocuparia até 1945. Durante esse período, colaborou, como jornalista literário, para vários periódicos, principalmente o Correio da Manhã. Nos anos de 1950, passaria a dedicar-se cada vez mais integralmente à produção literária, publicando poesia, contos, crônicas, literatura infantil e traduções. Entre suas principais obras poéticas estão os livros Alguma Poesia (1930), Sentimento do Mundo (1940), A Rosa do Povo (1945), Claro Enigma (1951), Poemas (1959), Lição de Coisas (1962), Boitempo (1968), Corpo (1984), além dos póstumos Poesia Errante (1988), Poesia e Prosa (1992) e Farewell (1996). Drummond produziu uma das obras mais significativas da poesia brasileira do século XX. Forte criador de imagens, sua obra tematiza a vida e os acontecimentos do mundo a partir dos problemas pessoais, em versos que ora focalizam o indivíduo, a terra natal, a família e os amigos, ora os embates sociais, o questionamento da existência, e a própria poesia.
Eu também já fui brasileiro moreno como vocês. Ponteei viola, guiei forde e aprendi na mesa dos bares que o nacionalismo é uma virtude. Mas há uma hora em que os bares se fecham e todas as virtudes se negam.
Eu também já fui poeta. Bastava olhar para mulher, pensava logo nas estrelas e outros substantivos celestes. Mas eram tantas, o céu tamanho, minha poesia perturbou-se.
Eu também já tive meu ritmo. Fazia isso, dizia aquilo. E meus amigos me queriam, meus inimigos me odiavam. Eu irônico deslizava satisfeito de ter meu ritmo. Mas acabei confundindo tudo. Hoje não deslizo mais não, não sou irônico mais não, não tenho ritmo mais não.
Muito bonito sentir a beleza de uma vida simples, mas rica de sentimentos e significado. Eu precisava dessa pausa e fico pensando em quanta beleza e espetaculos silenciosos que a vida nos oferece e que perdemos, pois estamos uma vida rapida demais.
Entre a província paralítica e a capital dos bondes, entre a família mineira e a solidão urbana, entre a ironia cômica e o lirismo melancólico, entre a "verdadeira poesia" e a "evolução da humanidade" — Drummond em Alguma Poesia está sempre num entre-lugar. Ser "gauche na vida" é não pertencer ao mundo, é nunca ter uma vivência plena de sentido, é estar nesse "meio do caminho" que tolhe todas as possibilidades. Impedido de namorar, brigar e sonhar, o sujeito poético percorre uma galeria de obstáculos que lhe tiram tudo, até mesmo sua vontade de viver. Em nenhum momento, ele alcança coisa alguma; pelo contrário, ele está imóvel, paralisado. E é justamente em sua paralisia que Drummond observa e cria, trazendo em forma de poesia toda a experiência individual de um homem torto nesse mundo torto.
o maior que temos!!! favoritos: poema de sete faces, também já fui brasileiro, cantiga de viúvo, sentimental, poema que aconteceu, poesia, o sobrevivente, explicação
Um livro de juventude, mas que mostra uma boa maturidade poética de um jovem Drummond. Ainda carregando muitos traços dessa formação, o livro de poemas traz uma série de dedicatórias que talvez demonstrem isso: os laços com os companheiros de Minas Gerais, a pesada influência de Manuel Bandeira e a tutoria de Mário de Andrade (a quem de fato é dedicado o livro). A obra traz talvez os poemas mais famosos de Drummond, como o Poema de sete faces, No meio do caminho, Quadrilha, Poema da purificação, Sobrevivente, etc. Assim, é notável como o livro também, por meio de seus poemas menos conhecidos, forma uma força lírica bastante interessante. Em primeiro lugar, seu encaixe no projeto modernista é evidente, pelo uso do verso livre, de expressões coloquiais e também pela apropriação do cotidiano e a dessacralização da linguagem poética. Contudo, Drummond parece em caminho de superação deste projeto única e exclusivamente modernista, chegando a um patamar mais reflexivo sobre o fazer poético no séc. XX e no argumento da possibilidade lírica nos anos de destruição do século do terror. Poemas como Nota social e Sobrevivente e Quadrilha são marcas dessa problemática que perseguirá praticamente toda a obra drummondiana. Um livro que, ainda que de juventude, traz muito de maturidade.
“Há dias que ando na rua de olhos baixos para que ninguém desconfie, ninguém perceba que eu passei a noite inteira chorando”
Mais uma obra da Fuvest que eu gostei. Alguns poemas desse livro são clássicos que muitos estudantes já conhecem, então, já estava familiarizada com a análise destes. Dei 4⭐️ apenas pelo poema “Cantiga de Viúvo” que é um dos poemas mais lindos que eu já li. A edição é muito boa. Um posfácio claro e detalhista na medida, com fotos da época muito coerentes com a época. É um livro nitidamente influenciado pelo modernismo, ainda mais depois de ler a conversa entre o Carlos Drummond e Mario de Andrade sobre a substituição da preposição “à” para “na”, como uma forma de romper com os padrões portugueses.
Como a própria sugestão de duas estrelas do Goodreads explica, "it was ok". Modernismo pra lá, poemas lidos exaustivamente nas aulas de português da quarta-série pra cá, não vi nada que me impressionou muito - exceto o poema do papai-noel, que amei. De resto, já li outras coisas com ritmos, temáticas e humores mais interessantes.
Como um leitor que não tem nenhum compromisso em agradar o academicismo, deixo aqui essa mini-resenha. E no dia que eu voltar ao Rio de Janeiro, sentarei ao lado da estátua do Carlos sem rancor algum.
O Drummond está inteiramente ligado a formação da nossa identidade brasileira, esse livro é um exemplo, um terreno totalmente conhecido mesmo pra quem tenha contato com a edição pela primeira vez, toda poesia está aí, fazendo parte de nós, infiltrada por osmose em nossa construção. Foram poucas poesias que me soaram inéditas, tudo flui como uma música clássica.
nos poucos poemas que li dessa vez, fiz uma leitura de memórias e quase nada de texto. foi bom emprestar esse livro na biblioteca e foi útil para a 1a fase da fuvest.
Eu gostei bastante! Achei alguns poemas muito engraçados, como “sociedade” ou “papai noel às avessas”. Também fiquei emocionado com alguns fjsfjdkjd “-ora essa, era só o que me faltava. E a mulher adjunta: - Que idiota”
Segundo minha análise pessoal, “moça e o soldado” é sobre confusão bi. Mas também, o que eu acho sempre ta errado ent…
Coletânea de poemas e prosas de Drummond que discorre sobre sua vivência no interior através de versos, ora melancólicos, ora cômicos. Um ótimo passatempo.
“Alguma poesia” foi o primeiro livro publicado pelo autor em 1930, quando ele tinha 28 anos. Essas informações me surpreenderam ao final da leitura porque encontrei um poeta maduro já em sua estreia. Mas eu deveria ter imaginado que encontraria algo assim, afinal seu mestre e amigo foi Mário de Andrade e esse é um livro considerado como marco na nossa literatura.
O amor na obra deixa de ser tratado como sagrado, a ser reverenciado e passa a ser algo duvidoso, ambíguo. A linguagem deixa de ser rebuscada, sem muitas rimas e nenhuma preocupação com métrica.
Ou seja: EXATAMENTE o tipo de poesia que AMO.
A modernidade coloca um fim na sacralidade da arte e faz com que o poeta desça de sua torre de marfim e conduza seu leitor em um caminho de desconforto e estranheza.
Difícil a missão de escolher meus favoritos, mas bora lá! Poema de sete faces, Toada do amor, Cantiga de viúvo, Sentimental, No meio do caminho, O poema que aconteceu, Nota social, Quadrilha, O sobrevivente e Romaria.
“[…] Os homens não melhoraram e matam-se como percevejos. Os percevejos heroicos renascem. Inabitável, o mundo é cada vez mais habitado. E se os olhos reaprendessem a chorar seria um segundo dilúvio.
"Um sábio declarou a O Jornal que ainda falta muito para atingirmos um nível razoável de cultura. Até lá, felizmente, estarei morto."
"O poeta está melancólico."
Eu AMEI esse livro. Muito mais do que eu esperava. Maybe I am a poety gal after all.
Confesso: não li boa parte de Claro Enigma, e sempre me arrependi um pouco de não ter prestado atenção o suficiente nas aulas do RodP para apreciar Drummond. Hoje me arrependo muito, e pretendo ler Claro Enigma em um futuro próximo. Alguma Poesia é o primeiro livro de Drummond, and he SERVED. Temos poesias profundas e belas, e ao mesmo tempo poesias divertidíssimas. É sério. Procurem o poema "Sociedade". Hilário. O posfácio de Ecuanaã Ferraz também é fascinante. Adorei saber das cartas entre o Drummond e o gay pentelho que era o Mário de Andrade (embora tenha gostado mais dos argumentos do segundo).
Enfim, we have to stan Drummond... mas minha obra de poesia favorita segue sendo o Romanceiro da Inconfidência (sue me).
Em Alguma Poesia encontra-se muitos clássicos de Drummond. Curiosamente, sem nunca ter pego nem uma só obra dele, percebi que conhecia a maioria dos poemas reunidos aqui. Lembro tê-los lido na faculdade, em blogs, redes sociais, etc, e isso mostra a notória influência do autor gaúcho em todos os círculos da sociedade brasileira. Viva Alguma Poesia, viva Carlos Drummond!
Toada do Amor
E o amor sempre nessa toada: briga perdoa perdoa briga.
Não se deve xingar a vida, a gente vive, depois esquece. Só o amor volta para brigar, para perdoar, amor cachorro bandido trem.
Mas, se não fosse ele, também que graça que a vida tinha?
Mariquita, dá cá o pito, no teu pito está o infinito.
"meu verso me agrada sempre... ele às vezes tem o ar sem-vergonha de quem vai dar uma cambalhota mas não é para o público, é para mim mesmo essa cambalhota. eu bem me entendo. não sou alegre. sou até muito triste. a culpa é da sombra das bananeiras de meu pais, esta sombra mole, preguiçosa. há dias em que ando na rua de olhos baixos para que ninguém desconfie, ninguém perceba que passei a noite inteira chorando."
O debut do gato, de milhões! Simplesmente Drummond, o gauche que eu mais amo. Destaques: “poema de sete faces”, o sobrevivente” “cantiga de viúvo”, “cidadezinha qualquer”, “tambem ja fui brasileiro”, Como ja disse o BRABO Mário de Andrade: “Alguma Poesia é uma surpresa agradável que talvez reanime os nossos intelectuais. No livro, diga-se de passagem, a emoção, por mais profunda, não se descontrola em derramamentos líricos. Podendo viver, portanto, sem excessos – clara e forte, como nasceu. Na verdade, é essa, inatamente, a mais humana das feições poéticas.”
Primeira obra do CDA, dedicada ao grande amigo Mário de Andrade. Gostei, tem vários poemas muito bons, alguns bem conhecidos, mas ainda prefiro os do Manoel de Barros. Já li “Sentimento do mundo” e ainda pretendo ler mais obras desse autor de importância incontestável para nossa literatura.
Para dar início ao meu projeto de ler mais poesia só poderia ter começado com Drummond! Publicado de forma independente em 1930, Alguma Poesia, é o primeiro livro do poeta. Nele estão alguns de seus poemas mais conhecidos como o "Poema de sete faces", "Infância", "No meio do caminho" e "Quadrilha". Também me reencontrei os versos de amor que já conhecia há tempos como "Balada de amor através das idades" e fiquei tocada com as poucas linhas de "Poesia". Fiz essa leitura toda em voz alta, dando som para as palavras e me deixando envolver com tudo.
Um bom poemário cuja leitura possibilita uma interessante exploração das tendências modernistas da poesia brasileira durante a primeira metade do século XX. Confesso, porém, que muitos poemas ressoaram pouco comigo tanto do ponto de vista emocional como do ponto de vista racional. Valorizo a sua ambição de romper com a tradição, mas para mim isso é uma questão secundária quando se trata de poesia. Penso que a ideia e a força (além da forma, é claro) são atributos mais significativos no que diz respeito à expressão poética: isso é o que me cativa na poesia. No entanto, há alguns poemas dignos de menção que estimulam a reflexão através de um bom verso livre (conciso, nítido e autêntico). Destaco os seguintes: - "Também já fui brasileiro" (Heráclito estava certo: a única constante é a mudança) - "Lanterna Mágica" (em particular, o último segmento; muitos humanos poderiam aprender com ele) - "A Rua Diferente" (há virtudes da infância que se perdem com o passar dos anos) - "Lagoa" (suponho que Alberto Caeiro apreciaria estes sábios versos; faríamos bem em pensar menos no mar e reparar mais na lagoa que pertence à nossa realidade) - "O Sobrevivente" (a conjunção das ironias da existência e do eu) - "Anedota Búlgara" (sobre a moral seletiva e por vezes arbitrária, tão freqüente nestes tempos - as ideologias estão entre as principais responsáveis) - "Cota Zero" (se quisermos adaptá-lo ao século XXI, podemos substituir "automóvel" por "celular") - "Sociedade" (excelente título, triste precisão) - "Romaria" (duro retrato da hipocrisia de muitos religiosos; é um tema atemporal, suponho)
Sou muito chata com poesia e tendo a evitar esse tipo de leitura, porque acredito que ela deve ser um exercício de análise. Seja da minha capacidade como leitora, seja de quão bem o autor transmitiu sua ideia. No entanto, eu me encontro completamente maravilhada depois de ler "Alguma Poesia" do Drummond (inclusive me questiono o porquê de não ter buscado sua escrita antes). Isso porque ele escreve de uma forma tão única e leve que roubou muitos sorrisos de mim. Talvez não seja para todo tipo de leitor, mas penso que irá agradar diversos brasileiros.
apenas apaixonado por drummond, a experiência de ler Alguma Poesia por completo em uma só ida é sensacional e transparece a maturidade de coesão temática que o autor já tinha. acho genial a maneira como ele conseguiu ser visionário desde a gramática do "tinha", até a questão geopolítica internacional. os poemas ainda parecem atuais e a sensação é de ver o nascimento de algo muito importante mesmo, afinal não poderia ser diferente com drummond. apenas seco pra ler mais desse cara.