Primeiro: a prosternação diante do altar. A hesitação diante da proliferação dos ritos: sacrifício, louvor, cântico, narrativa. Figuras e vozes, acólitos. Insurgências. Japoneiras e túneis do sentido. Discrepância a todas as vozes acumulando num sentido. Não único, mas unívoco. Desde a infância. Segundo (como se diz de um andamento ou de um painel): o tríptico dentro do tríptico das DUAS IRMÃS: a narrativa oblatória e clara da paixão sáfica. Ardente e casta. Sem falso pudor. Vergonha é não te amar. A oferenda lírica. Terceiro: não é coisa de rasgar como romance este romance. Assente na pedra do lar um prisma multifacetado e translúcido: o amor único, a palavra. A brisa do arado sobre a ara.
ANA LUÍSA AMARAL nasceu em Lisboa, a 5 de Abril de 1956. Doutorada em Literatura Norte-Americana com uma tese sobre Emily Dickinson, ensinou Literatura Inglesa no Departamento de Estudos Anglo-Americanos da Faculdade de Letras do Porto. Autora de oito livros de poesia e dois livros infantis, está representada em diversas antologias portuguesas e estrangeiras e foi traduzida para várias línguas, como castelhano, inglês, francês, alemão, holandês, russo, búlgaro e croata. Faleceu a 6 de Agosto de 2022.
Não é muito comum, e é até porventura deselegante confessar, mas comprei este livro pela sua capa tão simples e bem conseguida; estar no recanto dos livros para vender ao desbarato conferia-lhe também o atrativo do potencial tesouro inesperado.
Devo admitir que não conhecia a obra de Ana Luísa Amaral, e que assim que comecei a ler "Ara" tive a sensação de não estar perante um romance, mas sim perante poemas (por vezes) escritos em prosa - nada de errado nisso. De facto, a primeira metade do livro fez-me lembrar Clarice Lispector: críptica, enigmática, um balanço complicado entre o "mas onde é que ela quer chegar?" e o "que frase bem escrita!".
Porém, e sem pré-aviso, na segunda metade do livro a narrativa torna-se menos obscura, e torna-se impossível não ficar encantado com a poesia elegante e precisa:
"além te fez assim três páginas de amor às duas da manhã já a tombar, alguém te deu assim, sem dar, sem um propósito de leres, três páginas assim? alguém te disse que os teus joelhos são feios, mas que em cada joelho eu punha um beijo, como uma flor, um pássaro, um navio de lua, alguém amou assim a tua boca, alguém te disse que cada lábio teu o infinito?" (página 68).
Um livro para reler daqui por uns anos, e um pequeno tesouro confirmado.
”Ara” é o primeiro romance da poetisa e professora de Literatura e Cultura Inglesa e Americana na Faculdade de Letras da Universidade do Porto, Ana Luísa Amaral (n. 1956). ”Ara” começa com uma constatação: ”Eu não sou romancista. Se fosse romancista, dividia-me em nomes de ficção – e disso não sou capaz. A própria ideia de fazer uma história aterroriza-me.… só sou capaz de falar em poema…” (Pág. 9) Depois a narrativa avança, numa viagem de comboio, entre as margens do rio, os túneis e japoneiras (ou cameleiras (?))… ”Não sei exactamente como começar. (Pág. 21) Um romance fragmentado, focando-se numa história de amor, entre duas mulheres casadas, um brilho, ”… que finaliza o início do amor.” (Pág. 25) ”No princípio, era a chuva e a secura na boca, o coração apertado. Um desejo de não ver ninguém. Tentou lembrar-se de como tudo começara, definir a quantidade de amor sem padrões nenhuns.” (Pág. 53) ”Eram as duas casadas, as duas tinham filhos e falavam sobre as vidas com uma certa timidez de desassossego. Amedrontadas do desejo comum, tanto como temiam o sentimento sem palavras…” (Pág. 53) ”Ara” é um romance com “medo do desejo, do amor e da paixão”…
A autora começa por se interrogar se conseguirá escrever um romance e confessa que não é capaz, que a aterroriza mesmo "fazer uma história" e pôr personagens lá dentro. Declara que só sabe falar dela mesma e só "em poema." Depois lança-nos numa série de narrativas com temas aparentemente desconexos, algo crípticos, relacionados com sensações e memórias, "túneis e japoneiras". A pouco e pouco (à medida que as memórias são mais presentes? ou as sensações mais vívidas?) os textos vão ganhando contornos mais claros, maior consistência, e começa a emergir uma estrutura. O que parecia ser uma daquelas obras de prosa-poesia, cheia de subentendidos não entendíveis, transforma-se inesperadamente, aos nossos olhos, num romance, a história de um amor muito sentido e sofrido entre duas mulheres casadas. Como diz Eduardo Pitta, o livro "é na realidade um diário — ou, se preferirem, um récit autobiográfico — que dinamita o baile de máscaras das «conveniências»." O final, no entanto, não é feliz: o amor acaba sacrificado na ara das amarras da vida.
Creio que não vou dar classificação. Achei um grande aborrecimento as primeiras páginas - explicações em modo poesia da razão da autora ir tentar a narrativa, e seguiam-se figuras de estilo e imagens poéticas e metáforas e... e nunca mais se entrava na tal narrativa. Pensei desistir, não o fiz. E subitamente, da página 49 à 71, lê-se uma comovente, bela, impossível história de amor entre duas mulheres. Descrita com a melancolia sofrida que só as histórias de amor que não se podem concretizar atingem. Emocionou-me. E não sei a classificação porque após a página 71 veio o mesmo aborrecimento.
Vergonha: a fome nas crianças, a fome desenhada, omnipresente. Crianças que nem pão, ou gesto, ou um olhar qualquer. Vergonha de haver fome. De olhar fome. Vergonha: só o ver, como estas coisas. A violência de ver, sem mãos para mudar. Essa a vergonha. Vergonha: amor ausente e lacerado, obrigações de carne, obrigações do resto. Vergonha, esse chocar de carne contra carne, em moderna invenção – que nem de carne é feita, mas de fórmula exacta. Vergonha: destruir e conquistar sobre terreno alheio. Vergonha é o silêncio, a sério de vazio. A quem pertence o mundo? Vergonha é não te amar. Vergonha era fingir que não pertenço.
É uma obra estranha. Embora a autora tenha optado por a classificar como romance, é essencialmente poesia que encontramos: o ritmo, a capacidade de sugestão, a evocação (e não relato) de ações e acontecimentos, um discurso fragmentário e intimista, em que prosa e verso se vão alternando. Gostei especialmente da "mise en abyme" que parece recobrir todo o texto - reflexão constante, que revela os dilemas subjacentes às mais diversas opções textuais.
Não é um livro fácil esta pequena obra de Ana Luísa Amaral. Vai-se "entrando" no que a autora nos vai dizendo numa linguagem muito própria, pouco linear, mas que vai ganhando consistência. Há uma frase muito bela, sobre esta sua narrativa: "vergonha é não te amar", e que eu generalizaria para tantas situações afectivas idênticas e tão condenadas pela sociedade, com um "vergonha é não amar"...
Início atribulado, de compreensões limitadas (minhas). Não sei se pela escrita em si divagar, se pela minha própria dificuldade e pouco hábito com escritas assim. Senti dificuldade em acompanhar a totalidade do livro. Apreciei a exposição mais clara, por fim, a história das duas mulheres. Pude aí encontrar disponibilidade na escrita para gerar identificação e permitir ao leitor a empatia necessária para se conectar com as personagens e as suas vivências. Deliciosas as discrepâncias (a duas vozes).
“Porque cada uma não conseguia deixar de pensar um pouco mais na outra. Vulneráveis, assim se reconheciam no ar diferente que habitavam: pendentes de tristeza pelos anos antes, mais recolhidas pela lua de antes.”
“Vergonha: destruir e conquistar sobre terreno alheio. Vergonha é o silêncio, a sério de vazio. A quem pertence o mundo? Vergonha é não te amar. Vergonha era fingir que não pertenço.”
Descrição lindíssima, o sentimento é super bem transmitido mas sem contexto ficaria bastante confuso. Aconselho uma breve contextualizacao da autora e do livro
(3.5) Ara is such an exciting book. Ana Luísa Amaral was a literature lecturer at the University of Porto, and I wouldn't expect anything else from a professor than a book like this. So meta, so "post-novel". Her eloquence in literary ideas is fascinating to read. It's not a difficult book; only Ana Luísa is difficult. This book is a fragmented love letter that explores many of the writer's inquietudes, so we are driven in a rollercoaster of thoughts and meta-speech. The only down side is myself. This book was probably not entirely for me.
Anyways, Fairs for Ana Luísa. And rest in peace her soul.