”O que é o Homem?” gemeu ele baixinho. “O que é o Homem?”
Com um escritor da categoria de Friedrich Dürrenmatt vale a pena regressar aos policiais. “O Juiz e o Carrasco” desenrola-se no mesmo ambiente noir de Simenon, mas com um maior domínio da narrativa, tem um toque de espionagem e conspiração, e faz também lembrar os livros de Sherlock Holmes com a existência de um arqui-inimigo ao nível de Moriarty, acrescido de apontamentos que lhe dão um colorido local.
Bärlach tinha vivido muito tempo no estrangeiro e distinguira-se como famoso criminalista, primeiro em Constantinopla e depois na Alemanha. Por fim chefiara a polícia criminal de Frankfurt-am-Main, tendo voltado em 33 para a sua cidade natal. O motivo do seu regresso não tinha sido tanto o seu amor por Berna, à qual frequentemente chamava o seu túmulo dourado, mas sim uma estalada que tinha aplicado a um alto funcionário do então Novo Governo Alemão. Em Frankfurt falou-se muito na altura desse acto violento, em Berna classificaram-no, consoante a situação política europeia, primeiro como revoltante, depois como punível, mas compreensível e, finalmente até, como a única atitude possível de um verdadeiro suíço; esta última classificação, porém, apenas a partir de 45.
Nesta investigação no final dos anos 40, tudo é contra-intuitivo à luz da criminalística actual. Encontrado um agente à paisana baleado ao volante do seu carro num lugar ermo, um polícia local afasta o corpo para o lado e arranca com a viatura do local do crime, onde mais tarde se encontra a bala caída no chão por mero acaso. O Comissário Bärlach, superior do morto, é o verdadeiro anti-detective: velho, doente, desarmado, aparentemente indefeso e despistado, até um pouco obtuso.
“Então não viu o morto?”
“Não, não aprecio mortos.”
“Mas isso consta do Regulamento.”
“Ainda gosto menos de regulamentos.”
Bärlach, no entanto, é inteligente “como as cobras” e manso “como as pombas”, e é nessa ambivalência que o protagonista se move e ludibria o leitor num ajuste de contas que lhe é devido há 40 anos e em que se tornará o juiz e o carrasco.
"Quando digo que ele é mau, é porque tanto pratica o Bem por capricho como se lembra de repente de fazer o Mal, julgo-o bem capaz disso. Nunca fará nada de criminoso, para atingir algo, tal como o fazem outros, para ter dinheiro, para possuir uma mulher ou para obter poder, ele vai fazê-lo, quando tal não tiver sentido, talvez, pois nele são sempre possíveis duas coisas, o Mal e o Bem, e o Acaso é que decide."