Na introdução ao volume «Lisboa Revolucionária - roteiro dos confrontos armados no século XX», Fernando Rosas escreve: «Este livro é sobre a Lisboa revolucionária do primeiro terço do século XX, com um salto para a sua breve revivescência insurreccional de 1974/75. Melhor dizendo, pretende representar fotograficamente os teatros físicos lisboetas dessa espécie de guerra civil intermitente que, tendo a capital do país como principal e decisivo cenário, marcou a crise agónica do constitucionalismo monárquico e do republicanismo que lhe sucedeu, até ao advento da Ditadura Militar e ao difícil parto do Estado Novo. Conjuntura revolucionária muito mais tarde redesperta, quase meio século depois, quando, sempre com Lisboa em fundo, o golpe militar do 25 de Abril de 1974 derrubou o Governo de Marcelo Caetano e o que restava do velho Estado Novo, transformando-se, com o fazê-lo, na Revolução de 1974/5. Assim sendo, procurei em primeiro lugar fixar os principais acontecimentos que marcaram, pelo seu simbolismo, pela sua repercussão política, militar e social, pela sua violência, esse longo período de sucessivos confrontos que atravessaram o fim de um século de liberalismo oligárquico, monárquico e republicano, primeiro, e de quase meio século de Ditadura Militar e de ditadura salazarista, depois.»
FERNANDO ROSAS nasceu em Lisboa, a 18 de Abril de 1946. Licenciado em Direito pela Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa (1969), mestre em História dos séculos XIX e XX (1986) e doutorado em História Económica e Social Contemporânea pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa (1990).
Foi, entre 1996 e 2016, professor catedrático de História Contemporânea. Em 2019 tornou-se o primeiro professor emérito da NOVA/FCSH, distinção pelo seu percurso académico ímpar. Na mesma faculdade, foi Presidente do Instituto de História Contemporânea (1995-2012). Entre 1988 e 1995, integrou o conselho de redacção da revista Penélope – Fazer e Desfazer a História. Entre 1994 e 2007, dirigiu a revista História.
Desenvolveu a sua investigação sobretudo em torno da História Contemporânea e da História de Portugal no século XX, com especial incidência no período do Estado Novo. Publicou variadíssimas obras como autor, dirigiu, coordenou e é co-autor de muitas outras na área da sua especialidade (história portuguesa e europeia do século XX), entre elas: As primeiras eleições legislativas sob o Estado Novo: as eleições de 16 de Dezembro de 1934 (1985); O Estado Novo nos Anos 30. Elementos para o Estudo da Natureza Económica e Social do Salazarismo (1928-1938), (1986); O salazarismo e a Aliança Luso-Britânica: estudos sobre a política externa do Estado Novo nos anos 30 a 40, (1988); Salazar e o Salazarismo (co-autor), (1989); Portugal Entre a Paz e a Guerra (1939/45), (1990); Portugal e o Estado Novo (1930/60), (co-autor), (1992); História de Portugal, vol. VII - O Estado Novo (1926/74), (1994); Dicionário de História do Estado Novo, (dir.), (1995); Portugal e a Guerra Civil de Espanha, (coord.), (1996); Armindo Monteiro e Oliveira Salazar : correspondência política, 1926-1955, (coord.), (1996); Salazarismo e Fomento Económico, (2000); Portugal Século XX : Pensamento e Acção Política, (2004); Lisboa Revolucionária, Roteiros dos Confrontos Armados no Século XX (2007); História da Primeira República Portuguesa, (co-coord.), (2010); Salazar e o Poder. A Arte de Saber Durar (2012); Estado Novo e Universidade. A perseguição aos Professores (coautor), (2013); O Adeus ao Império - 40 anos de descolonização portuguesa (org. et al.), (2015), História a História: África (2018), Salazar e os fascismos (2019), Ensaios de Abril (2023) e Direitas Velhas, Direitas Novas (2024).
Autor dos programas de televisão, História a História e História a História - África, produções Garden Films para a RTP.
Foi deputado à Assembleia da República (1999/2002; 2005/2011) e candidato à Presidência da República, em 2001, pelo Bloco de Esquerda, tendo obtido 3% dos votos. Em 2006 foi condecorado, pela Presidência da República, com a Comenda da Ordem da Liberdade e foi galardoado com a Medalha de Mérito do Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior (2017) e a Medalha de Honra da Sociedade Portuguesa de Autores (2018).
Um livro que resume quase em pontos-chave, apesar de diretos e de fácil compreensão, os acontecimentos revolucionários e, muitos vezes bélicos, da cidade de Lisboa. Muito interessante entender o contexto de Lisboa no início do século XX, bem como o entendimento geográfico e posicional dos confrontos, dando por mim muitas vezes a imaginar os conflitos nas ruas que bem conheço. No entanto, soube-me a pouco. O último terço do livro pareceu-me um pouco corrido, como que houvesse pressa de acabar.
Um relembrar da nossa história e das revoluções que passamos no séc XX passando pela revolução que acaba com a monarquia, o regicídio de 1908 e terminando na revolução que instaurou a nossa atual democracia, o 25 de Abril de 74. É um recordar muito focado em Lisboa, nossa capital, onde acabam todas as revoltas acabam por passar, inicialmente há uma descrição de todas as revoltas do último século por ordem cronológica e no último capítulo uma descrição de todos os lugares mais emblemáticos e qual o seu papel em todas as revoltas, incluíndo também memórias fotográficas desses mesmos acontecimentos.
Um resumo ilustrativo dos principais acontecimentos revolucionários com palco em Lisboa. Detalhado e bastante completo no que toca à 1ª República. Faltou algum enquadramento histórico que admito ser uma falha de conhecimento pessoal.
[...] pretendeu-se lembrar e mostrar, ao contrário de outra sugestão vivaz herdada do discurso do antigo regime, que este não se implantou sobre os escombros da Primeira República no meio da indiferença ou até do consenso geral. Tendo como centro de resistência a Lisboa popular e radical (mas também a Margem Sul, o Porto e outros pontos do país), a verdade é que milhares de voluntários civis e militares se bateram encarniçadamente, nas barricadas improvisadas pelas praças e pelas ruas, sob o fogo dos obuses, enfrentando a cavalaria e os blindados (quando começaram a aparecer), animados pelo propósito de defender uma República que desejavam ver regenerada democrática e socialmente. Sempre com uma intuição ou uma certeza unificadora no meio de muitas dúvidas, diferenças e desacertos: a de que a nova República só podia nascer da mudança radical da velha e não da sua liquidação às mãos de um regime militar.