Sentado à mesa de uma confeitaria num shopping, o narrador, um escritor à beira dos 80 anos, vê a vida passar e espera a morte, enquanto relembra acontecimentos de sua infância — como o suicídio da mãe, uma artista fracassada, bêbada e louca, mas com quem mantinha um forte laço. O velho decrépito conversa telepaticamente com outros frequentadores do shopping, e justifica sua existência melancólica escrevendo sem parar um livro que talvez jamais seja publicado.
Primeiro volume de uma nova trilogia do autor dos elogiados Grogotó!, Araã! e Catrâmbias!, MINHA MÃE SE MATOU SEM DIZER ADEUS é um romance surpreendente, assim como o método de trabalho do escritor Evandro Affonso Ferreira. Durante quase um ano, Evandro passou quatro horas de seu dia em uma doceria de um shopping paulistano. Não entrevistou ninguém, apenas observou o comportamento de quem passava por ali e imaginou histórias. Chegou ao texto final ali mesmo, rabiscando em vários blocos, que só depois digitou no computador.
Nascido em Minas Gerais, em 1945, e radicado em São Paulo há 40 anos, Evandro Affonso Ferreira surgiu na literatura em 2000 – apresentado por José Paulo Paes. Participou de uma coletânea de contos em Portugal (Editora Cotovia) ao lado de Osman Lins, Dalton Trevisan, Samuel Rawet, Hilda Hilst, José J. Veiga, João Antonio e Sérgio Santana – organizada por Alcir Pécora. Tem cinco livros publicados: Grogotó! (Topbooks), Araã! (Hedra), Erefuê, Zaratempô! e Catrâmbias! (Editora 34).
“apesar da aparência também sou inválido: não consegui vida toda caminhar para lugar nenhum; que meus passos sempre foram inúteis; tempo todo andando aos tropeços.”
"É domingo. Chove choro. É choro sem lágrimas. É dor invisível feito eu. É plangência que se aquieta nas entranhas. Sou introspectivo até para sofrer. Vida toda assim: enrodilhado em mim mesmo; homem-caramujo. Ultimamente me pareço mais com homem-parede revestido de papel-palavra. Ficaria menos triste se ela minha mãe tivesse deixado pelo menos um bilhete elíptico com apenas três vocábulos: PERDÃO PRECISO PARTIR. Mas partiu sem dizer adeus."
O autor tece de forma bonita muitas histórias em um enredo repetitivo, mas que nunca é o mesmo. Tal qual seu personagens, as páginas vão inchando em nossas bocas, sufocando a vontade de continuar, ainda que o façamos porque a vida nos leva adiante, mesmo não sendo boa. Fico incomodado com as referências com demasiado preciosismo à Antiguidade Clássica, que concedem ao autor uma aura culta como se dela não pudesse sobreviver além do estilo. Todas as referências parecem estar ali, mesmo que justificadas em contexto, metáforas e alegorias, apenas por simples desejo de tornar o texto mais robusto. O autor, assim dono seu eu-lírico, vive num mundo barroco, que não sabe quando e, especialmente, quanto de excesso depois, é preciso parar. Fica bonito, mas as vezes muito cansativo, tanto para os olhos que enxergam de dentro para fora, quando aos olhos que enxergaram os entalhes que temos n’alma.
O livro cumpre a promessa muito bem, o enredo é ''fraco'' propositalmente. Nada além de passado e presente intercalados, muitas vezes os mesmos cenários e muitas ideias repetidas, mas há de se levar em conta que é uma ficção talvez não-ficção. De qualquer forma, a última frase é a mais impactante que já li em algum livro, achei sensacional a escolha do autor.
Um livro sobre a construção de um livro. Outros autores já fizeram o mesmo a respeito, mas o posicionamento do lirismo construído unicamente pelo ponto de vista do autor (dialogando com suas memórias e com sua própria visão das demais personagens) é o que torna o livro irresistível.