«Envelheço. Morro, em cada dia definho um pouco mais. Metido entre estas paredes de gritos, rebusco um passado que não percebo, que não domino, um passado que me escapa por entre os dedos, anos e anos de hiatos, será que vivi, será que algum dia me senti vivo ao ponto de querer bater com a porta no ontem e de olhá-lo de soslaio e com desprezo? As muletas pesam cada vez mais, as muletas que me rebocam generosamente de uma tristeza a outra, eu, o homem das quatro pernas, o aleijado que afia os cornos na ombreira da porta do quarto onde a tua mãe se escarrapacha com os pretos, eu a olhar pela fechadura, agarrado às muletas, por vezes tropeço e bato com a cabeça na porta, a tua mãe ri e grita mais alto e o preto entusiasma-se, mete a quinta no vaivém frenético e eu lembro-me de que não sou homem, de que sou um bicho assexuado e não consigo deixar de espreitar, a tua mãe a rugir e eu com o olho cravado na fechadura, o mesmo olho que vê e que não vê, o mesmo olho de que jorram galões de água do mar com que desesperadamente tento lavar os remorsos.»
Eu não queria ser talhante. Nunca quis. Há em mim um fermento de artista que anseia por algo mais do que fatiar um boi ao gosto do freguês, há em mim a alavanca de um desejo que pede para conformar matéria-prima em nacos de estatuária viva.
Valério Romão é um autor que me deixa nervosa, pois está sempre prestes a passar dos limites, a roçar o insuportável. Nestes três contos, onde a loucura, o desespero e o sangue, muito sangue, são presenças constantes, quase entrou no universo do gore.
Um exemplo inegável de escrita que me agarra pela garganta, me destrói enquanto me maravilha, é a do Valério Romão. Não sei se há histórias mais carregadas de angústia e sofrimento que as dele, e não sei se o autor tem a capacidade de deixar alguma nota de felicidade pura e inocente. O alívio e a conclusão que muitas vezes as suas personagens sentem não são nunca felicidade...
Neste livro temos dois contos e um "agrupamento de histórias curtas". O primeiro conto é algo sublime, dos meus preferidos do autor, fiquei dias (ainda estou) a pensar nos seus contornos, em diz o título "Facas na solidão". Gostei bastante das histórias curtas, "Sete pequenos canivetes", todas bastante diferentes, todas unidas pelo objecto cortante, vão do bizarro ao cruel. O último conto, "Faca seiseiseis", é um pacto fáustico por entremeio do acto de ler um livro seriamente demoníaco. Se bem que gostei do tom gótico, dos laivos "Dorian Gray" e do final previsível, porém, o único possível, visto que todas as facas terminam no mesmo fim, foi o menos preferido até agora.
Outro ponto que une as histórias, aqui neste livro e em "Da Família", são laivos de realismo mágico que conduzem as personagens, mágico algo sádico, é certo, mas que podem ser explicados por doenças mentais incapacitantes e disfuncionais. A forma como o autor descreve a nossa humidade é recomendada por esta leitora em doses homeopáticas. Por este prisma, não entendo como é que se trata de um autor praticamente desconhecido.
Há anos que tenho, na minha lista de autores a conhecer, alguns livros de Valério Romão. Foi com este pequeno livro de contos que decidi começar. Que bela surpresa! Pequenas histórias de facas e muito mais. Com crime, suspense, mas também muito da negra natureza humana. Fizeram lembrar umas séries que, há muitos anos, eu gostava de ver na RTP2, "The Twilight Zone" e "Hitchcock Apresenta". Quem se lembra?
o livro é bem escrito. quem sou eu para dizer isso? bom, a mim parece-me uma definição ajustada e até justa. a dada altura, e porque fomos trespassados por facas logo nos primeiros capítulos (a mais aguçada de todas, a da solidão), lá para o meio é como num filme em que o livro fala conosco e as nossas falas são mudas. espero voltar a ler valério romão, até porque mesmo que ele não quisesse ser escritor, tinha uma grande história a contar (e que contou numa trilogia sobre autismo).
foi o primeiro livro que li do Valério Romão, e gostei muito do estilo de escrita dele. poderá vir a ser um autor muito importante na cena literária portuguesa.