Ambientada primeiro no campo, no interior de um estado do sul do Brasil, a narrativa desvenda uma roça anti-idílica, sufocante, em que os protagonistas – um casal e seus três filhos – se enredam cada vez mais na ausência de comunicação, perseguidos pela ideia de um Deus sem piedade. Ao migrar para a cidade grande em busca de vida melhor, a família se desgarra e se perde. A escuridão é o fim, o fim dos personagens, dos sonhos, das angústias. Amanhã é a incerteza, a perspectiva de um futuro desconhecido mas certamente ameaçador, pois é impossível que traga algo de bom. Viver é avançar para lugar nenhum. Por mais que invoque a proteção de Deus, não há conforto na experiência amedrontada, desencadeada da vida dos personagens deste livro em que a memória é convocada obsessivamente, como se narrar o que foi vivido pudesse ser uma redenção. O resultado é uma obra surpreendente em sua força claustrofóbica e em sua poesia contundente.
Rogério Pereira nasceu em Galvão, Santa Catarina, em 1973. Jornalista e editor, em 2000 fundou, em Curitiba, o jornal Rascunho - uma das raras publicações sobre literatura no país. É idealizador do Paiol Literário, projeto que leva nomes relevantesda literatura brasileira à capital paranaense. Desde 2011, édiretor da Biblioteca Pública do Paraná. Escreve crónicas semanais para o site Vida Breve, do qual é coeditor. Vive em Campo Largo, no Paraná.
Inegavelmente bem escrito, mas só espere encontrar nas 40 páginas finais o que está esboçado nas 80 restantes: o drama da família, e não o narrador numa lamúria vazia, se queixando de uma tirania paterna que o texto demora a deixar o leitor entrever. Não me agrada esse lirismo que dá voltas em torno do próprio rabo, que escamoteia clichês como um conflito de pai e filho presente apenas na enunciação do filho, e não nas atitudes do pai (de novo: o pai tirano só se deixa entrever no final por mais que se sugira isso o livro inteiro), além da figura feminina associada ao pecado, à perdição (as metáforas sexuais são péssimas). Enfim, tem uma disparidade aí entre forma e conteúdo que me irritou um pouco.
A melancolia, a frieza e as paixões orientam o livro. As duas primeiras revelam-se no lembrete contínuo de que a vida ficará pior, "Agora que todos partiram, continuo a sentar no mesmo lugar, contemplando as ausências.". As paixões vão do ódio ao ode, a mãe que preenche seu interior com ficções divinas, enquanto os filhos externalizam seu ódio por alguém que morto seria mais agradável do que vivo. A poética que ronda a obra, o ódio, o amor, a solidão são tocantes. O interior é universal, mesmo no Sul, reflete o Sudeste e Nordeste, e a disrupção devido ao seu abandono só mostra como a descolagem da realidade não é infinita, e que, no final, tudo se resume a mentiras e memórias.
Do início até pouco mais da metade é um texto desolador, daqueles que fazem a gente se remexer na cadeira pra poder ter tempo de digerir o que tá ali. Mas na segunda parte ele perde um pouco o ritmo inicial e te traz uma sensação de “ué, acho que já li isso em algum outro lugar só não lembro onde”. Não é um livro ruim, muito pelo contrário. Tem algumas passagens bem fortes, carregadas de pesar e ressentimento, as dores da família são extremamente visíveis e a gente também sente isso de alguma maneira. Preciso pensar mais sobre ele ainda. Talvez eu retorne à essa reflexão mais pra frente, talvez as coisas aqui mudem um pouco, mas por hora fico com isso mesmo.
Mi papá escribió por detrás: Desgarrador. Desgarra lo que escribe, desgarra lo qué pasa, desgarra lo que piensan, desgarra como viven, como sufren. Desgarra como aman y como odian. Desgarrador de principio a fin.
Y sí es desgarrador pero también es extraño en la misma proporción. Aun así me atrapó.
Estória cativante de um casal e seus três filhos que mudam do interior para capital, narrada de forma singular e dramática, com toques de poesia, enlevos dostoievskianos e porfias bíblicas... investigando a fundo os anseios e mazelas dessa família.
Leitura rápida, embora não acompanhada de texto leve: em algumas horas consome-se o livro mas doa-se parte do próprio sossego para que este seja pela obra consumido. A narrativa não segue cronologia nem linearidade definidas, as memórias das personagens evocam a todo o tempo o presente e o passado, este maculado por relações familiares conturbadas e secas, produtoras de traumas intratáveis nas vidas que aqui acompanhamos. A sensação de incômodo e falta de esperança, de ter-se desde o início atingido o fim da linha, é mérito da bela escrita de Rogério Pereira, mas também é impulsionada pela própria diagramação da obra (mais um excelente trabalho da Cosac Naify). Única observação menos elogiosa a se fazer talvez seja de que a história pouco se ramifica, sendo o excerto de 5 versos mostrado na primeira página capaz de nos revelar, como ocorre com uma sinopse exagerada, todo o conteúdo mais evidente do livro.
Lembra o meu primeiro contato com Cristovão Tezza (Juliano Pavollini), mas já com os defeitos do último (O Fotógrafo, apenas mediano). Aqui estão presentes os mesmos lirismo e fluxo de consciência, mas Pereira ainda não é tão hábil neste último quanto seu conterrâneo. Algumas vozes se confundem (são duas as principais, os dois irmãos, mas isso só fica claro na metade do livro), os tempos se entrelaçam desengonçadamente (a impressão que fica é de que o que foi narrado aconteceu quase ao mesmo tempo), restando no final um relato fortemente emotivo, quase bíblico, e (pro bem e pro mal) atemporal de uma família desgraçada.