Durante um momento de calmaria em meio à loucura da vida de Winston, personagem do livro 1984, de George Orwell, ele afirma algo como "parece que os melhores livros são aqueles que falam aquilo que já sabemos mas não conseguimos expressar". Esse livro, que na verdade é uma tese de doutorado da autora em forma de livro, me trouxe esse sentimento de "já saber sobre aquilo que está ali escrito". Não é um conhecimento propriamente dito, acho que talvez seja mais uma "sede de conhecimento" em entender o porquê de algumas coisas que acontecem na nossa vida.
Rituais de Sofrimento é um livro denso, usa o tema "reality show" como pano de fundo para uma discussão muito mais profunda que nossa sociedade deveria fazer, relações no trabalho. O "espetáculo da realidade" (como ela se refere a reality shows em alguns momentos) é muitas vezes considerado apenas como um "jogo", algo desconectado da realidade e, portanto, passível de aceitação e, até mesmo, admiração por parte da sociedade. Afinal de contas, não há qualquer problema em pessoas que assinaram um contrato e aceitaram se submeterem a um jogo, ficarem dezenas de horas em uma "prova de resistência", terem suas vidas expostas e colocadas à prova diversas vezes. Mas a questão é, onde está nossa humanidade ao assistirmos um reality show e acharmos aquilo tudo "sem problemas", será que é só um jogo mesmo? Será que o Real, o mundo real, não é também daquele jeito, ou até mesmo pior? E os processos seletivos de empresas, aos quais milhares de pessoas se submetem todos os dias? E depois de entrar em uma empresa que a pessoa precisa a todo momento continuar se provando merecedora daquele cargo já que a qualquer momento podem vir e tirá-la dali? O custo-benefício de todo esse sofrimento e esforço é, ao final do espetáculo (ou do emprego), compensado?
Os participantes do BBB, o reality show que está mais em destaque na obra, são os responsáveis por gerarem faturamento e, consequentemente, lucro para a TV Globo (empresa responsável pelo programa), entretanto, apenas os três primeiros colocados recebem prêmios em dinheiro do programa e, apenas o primeiro colocado um valor razoável (ou não). E todo o trabalho feito por todos os outros participantes do programa? Todo o faturamento gerado por essas pessoas é embolsado pela produtora? E, neste momento, podemos entender que há, ali, uma representação clara da mais-valia. A autora traz à tona diversas situações em que o reality show pode ser facilmente comparado à realidade e, a clareza com que ela escreve enquanto exemplifica cada um desses momentos é de deixar o leitor boquiaberto.
Quanto a mais-valia do BBB especificamente, eu fiz uma rápida pesquisa e descobri alguns números um tanto quanto inacreditáveis. A edição do ano de 2020, BBB20, distribuiu para as 3ª, 2ª e 1ª colocadas 50 mil, 150 mil e 1,5 milhão de reais, respectivamente. Já o faturamento com cotas de patrocinadores, antes mesmo do programa ser lançado foi de cerca de 240 milhões de reais. Considerando que o número de patrocinadores até o final do programa foi algo em torno de 2 a 3 vezes o número de patrocinadores antes do início e que o programa foi a edição do BBB com maior engajamento da história, chegando a recorde mundial de participação em uma votação online de eliminação (algo um tanto quanto bizarro porque nesse caso temos também a mais-valia das pessoas que votam de casa), podemos estimar valores muito superiores aos 240 milhões iniciais. Quem sabe algo próximo de 1 bilhão de reais? E aí, fica o questionamento... a Globo (produtora do programa), teve um gasto com "folha de pagamento" do elenco de apenas 1,7 milhão de reais, pra onde foi toda as outras centenas de milhões do faturamento? O lucro é, no pior dos casos para a empresa, absurdo. E tudo isso regado a rituais de sofrimento transmitidos ao vivo pra todo o mundo.
Por fim, eu tenho a dizer que é uma obra que extrapola bastante o recorte de reality shows e nos coloca contra a parede ao analisar o mundo que vivemos nas mais diversas situações, mas não é de todo triste ou sofrida a leitura, o conhecimento e a visão adquirida são agregadores e "explodem nossa mente". E, apesar de muito chocante durante a sua maior parte, ao final do livro há um momento de alívio quando, através de um último exemplo de uma participante de um famoso reality show brasileiro, podemos ver que, talvez, seja possível não pirarmos em meio à loucura do sistema que vivemos. Mas, é claro, se tivermos o privilégio da escolha, o que muitas vezes não existe para a maioria das pessoas no mundo real.