[...] A escrita é, no entanto, mais descarnada. São, de certo modo, apontamentos, mais flagrantes, ainda com as marcas fortes da visualidade do Manuel Tiago de Até Amanhã Camaradas, de Cinco Dias Cinco Noites ou de A Casa de Eulália, os cheiros, as cores, os pormenores rápidos que esboçam uma personagem, aproximando-a de nós.
E nos diálogos o mesmo talento da oralidade, o mesmo tom popular.[...]
Urbano Tavares Rodrigues, Jornal de Letras (26/11/2003)
Pseudónimo literário de Álvaro Cunhal, que com ele assinou obras de ficção, designadamente Até Amanhã, Camaradas (1975), Cinco Dias, Cinco Noites (1975) e A Estrela de Seis Pontas (1994, adaptado para cinema por José Fonseca e Costa). A verdadeira identidade de Manuel Tiago só foi confirmada aquando da publicação deste último romance. Durante anos, muito se especulou acerca da autoria das obras.
Achei o livro até bastante interessante. A descrição das lutas na indústria vidreira, de como os trabalhadores utilizaram as formas de funcionamento do seu trabalho a seu favor na luta, surpreendeu-me. Os anos 40 foram um período caótico mas de ascenção na luta operária, e isso nota-se no livro. No entanto, não gostei muito do estilo de escrita. É um bocado seco, demasiado realista, sinto que de vez em quando é um bocado demasiado "didático". Isso, e nota-se em certas partes o revisionismo e oportunismo despolitizante de Cunhal: as discordâncias políticas entre as personagens, por exemplo no assunto do Emídio, são tratadas como problemas individuais ou puramente práticos, nunca são levadas para essas partes discussões políticas e teóricas. Também, entendo, o livro é curto. Em geral, gostei. Não gosto nada das obras mais teóricas de Cunhal, mas até gosto destes livros mais pessoais dele, das histórias de luta na clandestinidade.