Update 23/02/2021:
3,5
Creio eu, após quase seis meses de pensar ocasionalmente sobre felicidade e capitalismo - e sobre a fronteira do caminho entre a bigorna do autodesenvolvimento e a capacidade de metamoforse humano - que é preciso ter cuidado com este livro e com as suas teses. Engraçado que eu tenho pensado muito isto quanto aos livros desta autora. Creio que existe uma crítica importante nas suas teses, mas talvez esta padeça de um radicalismo deslocado.
O fenômeno das PP é, em si, um fenômeno neutro. Culpar as PP pela alienação humana é, em si, um extremismo. O mesmo se passa com o capitalismo. Como assim? Queremos dizer que sistemas ou formas de pensamento são culpados por A ou B? Terão estes independência capaz para tal?
A minha resposta é clara aqui: não. A minha paixão dos últimos meses pelos ideias liberais, assustadores e extravagantes ao mesmo tempo, vem exatamente disto. Um objeto ou valor, na sua neutralidade imanente, assume a consequência que se permeia da sua utilização pelo indivíduo. E eu não creio, assim, que as PP sejam, em si, negativas, nem que os ambientes de trabalho motivadores os sejam também. Talvez a negatividade esteja, antes, no olho e no espírito de quem as vê e experiencia.
Não querendo descurar as dificuldades e desigualdades que o sistema capitalista traz, creio que muito do nosso rancor pela natureza humana - mesquinha, intolerante e ignorante - é colocado, estranhamente, no capitalismo. Mas o capitalismo, como sistema, apenas pega nos nichos criados e os torna num mercado. Aconteceu isso com as PP. Não há nada de mal na autoreflexao - pelo contrário, eu creio que, pela procura interior face ao mundo e ao passado, aprendemos um futuro melhor. Há sim em quem apenas consome gurus deste tipo de coisas, sem realmente parar e praticar da sua forma, consigo mesmo.
Mas hey, se pensarmos, o capitalismo é um sistema que segue o modelo da oferta e procura. No limite, o sistema cria um produto para um consumidor que o pede e que dele necessita. As PP e a sexualidade desregulada e comercializada (okCupid, Tinder, bares de solteiros, lingerie de várias cores, pornografia, vibradores e bonecas sexuais) só são vendidas porque há consumidores. Em última instância, a culpa não é do capitalismo per se: a culpa é sim, do humano, que pede esse tipo de bens de consumo. Acreditem, se eles não vendessem, ninguém investiria na sua produção.
E o que podemos fazer quanto a isso? Sei lá. O máximo que podemos fazer é tentar, cada um, moderar a sua vontade de obter esse tipo de coisas. Podemos prezar pela educação para uma vida mais em cidadania, de respeito por nós e pelos outros, ao invés de culparmos o nosso sistema econômico por tudo que de mal nos acontece. Podemos fomentar valores de liberdade e democracia, mas de liberdade baseada no respeito, e de responsabilidade para com nós e com os outros.
Se isso poder aliviar 5% da nossa natureza sanguinária e vil já é um ganho, afinal.
Update 13/09/2020:
Certo dia, numa conversa, eu confessei à minha mãe que não era feliz. Ela ficou completamente chocada, olhou-me e perguntou "Como assim não és feliz?". Eu deveria ter uns 18/19 anos de idade, segundo ano da faculdade, e ela não conseguia entender como, ainda tão novo, eu não era feliz.
Para lhe responder a ela, talvez a mim mesmo, passei o meu último ano da faculdade a indagar-me o que era a felicidade. Cheguei a fazer a pergunta a vários colegas, que achavam estranho eu estar a fazer publicamente uma pergunta tão desnecessária mas tão difícil, simultaneamente. Parecia-me, do alto das minhas indagações filosóficas, que a felicidade era demasiado vaga para ser contabilizada. Cheguei a assumir que a felicidade não existia. Ainda assumo. Disse, certa vez, que a felicidade era uma forma de criar necessidade ao Homem de ser sempre mais, num mercado insaciável.
E agora estou aqui, após ler isto. E obrigado Eva. Obrigado.