Este é o terceiro livro que leio de Liz Fenwick e é evidente o fascínio patente pela Cornualha. Não só porque de uma forma ou de outra, ela inclui a palavra nos títulos dos seus livros, mas também porque enaltece a região com descrições de paisagens que nos transportam para o local: não muito extensas, mas o suficiente para nos deslocarem para uma realidade sensorial em que o azul da água, o cheiro das flores e os sons líricos da natureza nos tocam.
Em Mistério na Cornualha, a autora surpreende com duas personagens femininas muito fortes, cada uma à sua maneira, tanto nas fragilidades como nas apetências para a criatividade e para a cobertura de segredos.
Gabriella volta a casa, que lhe guarda recordações de infância e lhe cria refugio de temores mais recentes, também com o intuito de passar os últimos dias de vida da avó Jaunty com ela, e desta forma ampará-la.
Cada uma com os seus traumas e desafios, as duas mulheres encontram no isolamento da cabana que lhes proporcionou as últimas duas décadas de memórias e vivências uma forma de recomeçar, reconstruir, aceitar que as feições nem sempre correm a nosso favor e procurar soluções de apaziguamento e encontro com a sua consciência.
Com um discurso dual entre passado e presente, a forma como a autora montou a estrutura foi por vezes confusa, especialmente quando iniciava a explanação de factos passados em itálico e os continuava normalmente, exigindo uma maior atenção na distinção dos vários momentos temporais. Como registo, enuncio ainda o lado melancólico que ainda não tinha sentido em nenhum dos livros da sua autoria, e que não só era vísivel por alguma enunciação de palavras, mas também pela condução do enredo, pela interação de personagens, pela apresentação lírica de elementos na envolvênvia, trazendo-nos a cada página pequenas surpresas, mas seguindo-as de uma languidez de discurso que cortava o impacto da descoberta. Este foi para mim um dos aspectos contribuiu para o defraude das minhas expectativas quanto a este livro, não necessariamente por terem sido mal conduzidas, mas porque não as esperava e/ou pretendia obter numa leitura do momento.
Quanto às personagens secundárias, e como já vem sendo frequente nos seus livros, elas têm profundidade e complexidade para poderem ser melhor exploradas, uma vez que, e seguindos os padrões habituais, estas se centram e direcionam totalmente para a trama principal estabelecida pelas duas personagens-chave.
Ainda assim, desde a força e inspiração redentora de Hanna, aos momentos de descontração de Max e à bisbilhotice de uma comunidade local bem intencionada e pronta a ajudar em qualquer crise, esta conjugação de elementos trouxeram para o livro as nuances que já vêm sendo habitais na autora, de celebração do poder da comunidade e da entreajuda.
Quanto a Fin. gostaria que a sua personagem se tivesse afastado mais do papel do redentor, que me parece injusto e inapropriada ao atender à messagem de resolução e emancipação que a autora tenta conquistar em favor das suas personagems. E ainda que a personagem seja dotada de pequenos elementos que pretensamente o retratam como anti-herói, a verdade é que ele nunca chega a sê-lo.
No geral, senti-me bem acompanhada nos últimos dias, tendo-me sido proporcionada uma leitura ainda assim envolvente, onde a paixão pela interligação de personagens e lugares é latente, e que ofereceu uma imersão completa no enredo.
Apesar de tudo, e dentro do registo do romance feminino (o qual quem nos acompanha já sabe que não é o meu forte), Liz Fenwick continua a surpreender-me e está a tornar-se uma autora que pretendo acompanhar. Ela é toda doçura, paixão pela etnografia dos lugares e redenção - e os seus livros são reconfortantes por esse motivo. - Cláudia