A protagonista de Sem pecado é Bambi, uma frágil adolescente da província, ingênua e sonhadora, que chega à cidade grande com a ambição de se tornar atriz de teatro. Não se trata, contudo, da história exemplar de uma jovem inocente e indefesa num mundo urbano de perversões e maldades. Pois, como todos os adolescentes, não importando sua origem geográfica, Bambi pertence mais à metrópole do que à província. É principalmente na cidade grande que os jovens podem sonhar sem limites, viver suas ilusões, correr riscos e até ser premiados por sua audácia. As aventuras e vicissitudes de Bambi - sem dinheiro, sem amigos, sem casa - em um mundo opressivo e repleto de adultos que não a compreendem e a querem usar de todas as maneiras são relatadas com humor e sensibilidade neste romance, que é também a história das figuras patéticas que a cercam: seu Fred, o melancólico estuprador de balconistas; Gustavo, o psiquiatra obcecado por ninfetas; ou Joachim, um dramaturgo fascinado pelo tema do assassinato. Mas Bambi não é uma lolita nabokoviana sendo observada e descrita por um intelectual pedófilo cheio de culpa. Na verdade, é ela mesma quem rememora e descreve, com candura e às vezes impiedade, os homens que a desejaram. E recria, assim, um período de sua vida em que se lançou no mundo com a ousadia da juventude, dançando "em meio ao fogo sem que suas vestes fossem chamuscadas, como nas danças do transe que as bailarinas do teatro de Bali executavam".
Voltada para a linguagem, dotada de um brasilianismo intenso, Ana Miranda realiza um trabalho de redescoberta e valorização do nosso tesouro literário, que a leva a dialogar com obras e autores de nossa literatura, numa época em que as culturas delicadas são ameaçadas pela força de uma cultura universal. Fundada em séria e vasta pesquisa, recria épocas e situações que se referem à história literária brasileira, mas, primordialmente, dá vida a linguagens perdidas no tempo. Sua obra tem sido matéria de estudos na área acadêmica, recebendo teses e monografias, geralmente ligadas a questões de literatura & história, barroco brasileiro, romantismo, ou pós-modernidade. Recebeu alguns prêmios, como Jabutis e da Academia Brasileira de Letras; teve sua obra traduzida em cerca de vinte países, e conquistou expressivo número de leitores, no Brasil. Ana Miranda consagrou-se igualmente pela inclusão de seu Boca do Inferno no cânon dos cem maiores romances em língua portuguesa do século 20, elaborado por estudiosos da literatura, brasileiros e portugueses (O Globo, 5/set/98). Seus principais romances são: Boca do Inferno, 1989; A última quimera, 1995; Desmundo, 1996; Amrik, 1998; Dias & Dias, 2002; Yuxin, 2009. Todos editados pela Companhia das Letras. Nasceu no Ceará, em 1951, onde vive atualmente, após cinquenta anos entre Rio, Brasília e São Paulo.
Me senti transportada para o íntimo de uma personagem que ainda está abrindo os olhos e tentando decifrar o bê-á-bá da vida e da arte.
Em minha ingenuidade, esperei nela a sensatez que nem mesmo o personagem psiquiatra da história conseguiu ter. No entanto, era constantemente lembrada de quem Bambi realmente era e de tudo o que ela poderia ter sido em outras circunstâncias. O repúdio e o habitual coexistem em Bambi e, juntos, a levam a seguir seu coração e, em meio ao caos, encontrar a liberdade que tanto desejou.