"O mar subia, trepava e parava sempre nos primeiros degraus, para recair estafado e cinco segundos depois se levantar mais furioso. Fazia à nossa frente esse trabalho de inimigo, sem termos defesa; nem um parapeito à entrada, nem uma grade férrea que lhe partisse os dentes. Trepava e vinha morder ali como se estivesse em sua casa, mas um paredão invisível, a estiagem calculada pelos senhores engenheiros, dominava-lhe a cólera. Nunca chegava mais longe; e quando lhe facilitava o caminho, era para troçar mais dele."
"… O farol de Ar-Men! Oh, casa de amor, casa meiga, pavoroso cárcere, berço de todas as vergonhas, casa onde sobe o perturbante vinho das bebedeiras solitárias, meiga casa socorrista de náufragos dos mares pérfidos, verdade da luz humanamente misturada com as mentiras das estrelas, suave farol de amor… A nossa união consumou-se como a chegada de uma dor necessária, a dor de vivermos para nós próprios.
Já não pensamos no pecado.
Já não sonhamos com o prazer.
A vida aguenta-nos na sua onda e, finalmente quebrados, atira-nos para a obscura margem do sono.
Quem quebrou o homem solitário, tão farto de isolamento?
A vida, a implacável vida.
Quem embalou o homem solitário, para lhe dar no repouso um instante de consolo?
A morte, a implacável morte!"
"Era gente do Marceu, um couraçado prestes a fazer-se ao mar. E em sua honra cantámos tristes lamúrias. Teria o mar culpa disto?
(…)
Mesmo que viva cem anos, hei-de lembrar-me sempre desta ruela…
Era uma rua de tal forma estreita, de tal forma escura, que em pleno dia não nos deixaria reconhecer o nosso pai. Ao alto, muito ao alto, parecia que os telhados das casas se juntavam. Marulhava um riacho, talvez chegado dos tanque sonde se consertam cascos dos navios . era mais do que certo, pelo cheiro – buraco onde caem mais gatos mortos do que cascas de batata.
E também havia portas que se abriam e fechavam engolindo o engate de passeantes nocturnos. Menos luxuosas, embora, algumas eram de raparigas que exploravam, sem autorização estatal, os pobres marinheiros.
Não saberei dizer por que me vi de repente atacado por um medo inexplicável. Apertei com força a a faca, apertei a faca decidido à batalha.
Ali, perante aqueles rios vermelhos de tecido, nenhuma carícia de boas putas me tinha acalmado nem desembriagado; no fundo dos ouvidos tinha-me ficado, como um ruído de guerra, toda aquela algazarra de alegres companheiros, os marujos do Marceau. No entanto, rapar de armas para batalhar contra quê e contra quem?...
Muito longe, muito alto, mais alto do que as casas unidas nas trevas, rodava um farol eléctrico de raios brancos que açoitavam o céu com chicotadas lívidas, que ofuscavam sem dar luz ao caminho.
O mais espantoso era eu imaginar-me em pleno mar. Ia para a torre do Ar-Men, dirigia-me para o Farol de Amor e atravessava a pé o oceano sem ter de desembarcar no Saint-Cristophe. Ouvi passos atrás de mim.
Um golpe de rato, os passos de alguém que quer passar despercebido.
- O velho! – pensei.
Mas não havia razão nenhuma para pensar no velho poque era, afinal, uma mulher. Pousou a mão na minha manga.
- Ó homenzinho! – disse ela.
Senti que estava a ser invadido por uma cólera louca.
- Homenzinho eu, o Jean Maleux? Valho por três a fazer o serviço e já lutei com o mar… Não me chame homenzinho… Venho de longe!
Talvez tão embriagada como eu, ou julgando pela voz que eu era um dos seus conhecidos, atirou-se de repente para os meus braços, agarrou-se – como um polvo – aos meus ombros e beijou-me a boca com um longo beijo sugador, abominável, com cheiro a almíscar.
- Não vais beijar mais nenhum! Rameira, vou-te acabar com o riso!
Espetei-lhe a faca na barriga.
Caiu. E eu continuei o meu caminho sem olhar sequer para trás, com um passo mais decidido, mais digno, inebriado por um grande orgulho.
- Olha! Vê lá bem! Mar, é o mar!"
"Continuávamos, o velho e eu, a ser dois ursos na jaula, a falar o quanto bastava para as necessidades do serviço, a esconder as nossas manias secretas; ele a declinar aos poucos em direcção ao fim, porque já nem o alfabeto estudava, eu braviamente dominado por infernais hábitos.
Comíamos, bebíamos, todas as manhãs dávamos corda a nós prórpios como relógios, excelentes maquinismos desde a aurora até ao crepúsculo, e a escangalharem-se todas as noites, mal o farol atirasse os seus jactos de fogo.
Cumpríamos o dever de iluminar o mundo... como cegos.
O dever é uma mania, a mais terrível das manias porque temos confiança nela. Julgamos que vai salvar-nos."