O Remorso de Baltazar Serapião foi o primeiro livro que li de Valter Hugo Mãe, e deixou a vontade de ler outras obras do autor.
Não é um livro bonito este. Não tem esperança, não deixa uma luz no final. Quanto muito, fica o alívio. Sim, é mesmo isso. Chegamos ao final do livro e ficamos aliviados, finalmente, sossegados enfim, porque terminou.
Foi um livro difícil de ler na história e surpreendentemente fácil de ler na escrita. Primeiro estranha-se, sem dúvida. O uso apenas de minúsculas, nada de travessões, pontos de interrogação ou exclamação...apenas pontos finais e vírgulas. E se as primeiras páginas requerem uma maior atenção, até para entrarmos no ritmo da história e na linguagem da época que a mesma retrata, depressa nos habituamos e seguimos, não menos concentrados, mas com uma maior facilidade porque também o interesse faz a leitura fluir. E então entranha-se, definitivamente.
Não de uma forma boa. Não gosto do Baltazar, nem dos irmãos. Não gosto dos pais, não gosto dos senhores da casa grande. Talvez goste, apenas e só, do Teodolindo. E da Sarga. Como não gostar da vaca?
Mas exactamente por não gostar de nenhum deles foi impossível ficar indiferente à história. As 4 estrelas não se coadunam aqui com o "really liked it" que o Goodreads define, porque na verdade, são atribuídas por tudo o que o livro me fez pensar e analisar, não por ser uma história belíssima. Nunca o recomendaria como algo leve, acessível. É uma leitura penosa, esta na voz de Baltazar. Acompanhar este homem que mais parece besta é sofrido. A cada passo lhe desejava torturas iguais às que cometia, e cada página virada era com a esperança de que a morte o encontrasse depressa. E dessa forma é também este um livro que nos força a reflectir. A pensar em quem somos ou como gostaríamos de ser.
No meu entender enquanto leitora, escolho olhar para este livro enquanto um aviso, um lembrete, um recordar. Se é verdade que todo o retrato da Idade Média está perfeito, e que portanto nada nos havia de chocar, pois sabemos perfeitamente que a mulher nesse tempo valia menos do que um animal, a verdade é que nos choca na mesma. Isto, a meu ver, porque certos conceitos da Idade Média vivem ainda hoje nas mentes de muitos homens. E isso é assustador.
Não era preciso ler O Remorso de Baltazar Serapião para saber isso. Basta ver as notícias todos os dias, infelizmente. Mas é preciso que O Remorso de Baltazar Serapião chegue a mais pessoas, porque a forma como desconstrói o pensamento de Baltazar é o verdadeiro ensinamento.
Não é o final do livro. É mesmo o tentar perceber de onde vêm aquelas certezas todas, aquele justificar de actos injustificáveis, de forma tão convicta. É perceber que ainda hoje, com frequência, se usa o ciúme como desculpa para a violência. Para o "perder a cabeça". E logo depois outra desculpa vem reforçar a primeira, o "é só porque te amo, se não te amasse não tinha ciúmes". É este último conceito, que deve ser bom mas é frequentemente mal usado, este de "amor", que deve ser analisado.
E se não servir para mais nada esta obra, que sirva para recordar todos quantos a lêem de que ainda hoje, tão longe já da Idade Média, ainda há quem use o amor como desculpa para as maiores atrocidades. E que embora a maldade não esteja em todos, a passividade está quase sempre, e cabe-nos a nós enquanto sociedade educar para que não se use o amor como desculpa para tudo. Para que se respeite o próximo, seja mulher ou homem.
Este livro realmente entranha-se. Se de manhã, quando o terminei, nem sabia bem o que dizer, agora as ideias surgem, já em mim como em mim ficou o livro.
Sim, O Remorso de Baltazar Serapião não é um livro bonito. Mas é um bom livro, que nos obriga a pensar. Mesmo que naquilo que já sabemos.