Sou suspeita para avaliar os livros do Graciliano Ramos. É um dos autores que mais admiro, e quanto mais entro em contato com a sua obra mais maravilhada eu fico. As cinco estrelas não são um exagero, embora haja partes do livro que incomodam bastante (afinal, seu narrador está longe de ser perfeito). Porém, uma das coisas que mais me agrada é a tentativa - contínua, árdua e irrefreada - de compreender os outros, de não ser injusto mesmo carregando preconceitos e de avaliar o mais imparcialmente possível (ainda que isso seja impossível) as pessoas que ele encontra e as situações as quais ele é submetido. "Por que desprezá-los ou condená-los? Existem - e é o suficiente para serem aceitos. Aquela explosão tumultuária é um fato. Estupidez pretender eliminiar os fatos. A nossa obrigação é analisá-los, ver se são intrínsecos à natureza humana ou superafetações. Preliminarmente lançamos opróbrio àqueles indivíduos. Por quê? Porque somos diferentes deles. Seremos diferentes, ou tornamo-nos diferentes? Além de tudo ignoramos o que eles têm no interior. Divergimos nos hábitos, nas maneiras, e propendemos a valorizar isto em demasia. Não lhes percebemos as qualidades, ninguém nos diz até que ponto se distanciam ou se aproximam de nós. Quando muito, chegamos a divisá-los através de obras de arte. É pouco: seria bom vê-los de perto sem máscaras."
Mais do que atacar indivíduos e julgar seus comportamentos, Graciliano realiza um processo de autoanálise e é sempre mais duro consigo mesmo do que com qualquer outro indivíduo: "Se os nossos papéis estivessem trocados, haveria eu procedido como ele, acharia a maneira conveniente de expressar um voto generoso? Talvez não. Acanhar-me-ia, atirar-lhe-ia de longe uma saudação oblíqua, fingir-me-ia desatento. Essas descobertas e caracteres estranhos me levam a comparações muito penosas: analiso-me e sofro".
Livro de memórias ou de ficção, não importa tanto, ainda mais porque toda a obra de Graciliano transita entre esses dois campos e isso é uma das coisas que a torna tão rica. Livro obrigatório para quem - assim como eu - é um tanto quanto leigo no quesito história e política do Brasil, ditaduras e comunismo. E, mais do que político, me atreveria pretensamente a dizer que esse livro é humano. Algo que os críticos às vezes têm dificuldade de ver, Ramos tem a enorme capacidade de colocar no papel a essência do humano, de maneira seca, dura, sensível e tocante.
Ao final, acabo chegando à mesma conclusão que o autor: "Realmente a desgraça nos ensina muito: sem ela, eu continuaria a julgar a humanidade incapaz de verdadeira nobreza".