Helena é uma mulher comum, uma mulher boa. Uma mulher que pouco pensou em suas escolhas e teve sua história construída pela normatividade, pelo padrão, pela ordem natural das coisas que, quando encarada com desatenção, conduz a mulher a um enredo no qual ela é coadjuvante da própria vida. Porém, a ruptura desta condição já vem no tí o que temos aqui é a história para matar a mulher boa. Vinda de uma família conservadora do interior, com estudos frustrados e sonhos interrompidos por uma gravidez, Helena sonha com uma serpente que lhe ""você precisa"". Mas você precisa o quê? Em seu romance de estreia, Ana Johann nos traz a mulher que habita todas as aquela que anseia pela ruptura da inércia, pela transgressão de seu papel, mas percebe em seu cotidiano um grande campo minado, pelo qual ela terá que caminhar na ponta dos pés até encontrar algum ponto de sustentação.
O tom literário de “História para matar a mulher boa” é o tom da voz de Helena, marcada por diversos acontecimentos dentro de seu papel social e de gênero. Um livro forte para quem experimenta ter nascido na condição de mulher nessa época, país e mundo.
Andrea Del Fuego faz a orelha do livro ressaltando as repetições as quais somos submetidas, que geram frustração, infelicidade, e como um romance de estreia a escrita literária de Ana Johann entrega muito valor e simbologias literárias para a literatura feminina contemporânea, como um divisor de águas dos marcadores de diferença inexistentes entre relacionamentos amorosos antigos e contemporâneos, atuais e que continuam os mesmos.
Helena e sua infância é marcada pelos parentes, a tia Lídia, pelas suas memórias que seguem um fluxo psicológico infantil, normal para a adaptação da escrita literária de Ana em colocar cadência lúdica sobre a infância da personagem.
Esse estilo de recurso literário de Ana constrói a ludicidade viva de Helena enquanto criança.
A crença popular, as crianças em velórios, Ana Johann trabalha as situações de culturas antigas e épocas onde crianças eram crianças vivendo momentos entre os adultos.
A repetição geracional da violência, traições, o compêndio de experiências infanto-juvenis, os irmãos, o pai com amantes, são a perfeita composição da família tradicional brasileira, “patriotas, nacionalistas, e conservadores da família”.
O recorte da família é disfuncional e Helena participa de todos os acontecimentos ora como protagonista, ora como coadjuvante ou espectadora.
“Mais do que isso, a mãe cresceu com homens gritando com mulheres. Era assim com o pai dela, era assim com o marido.”
Miguel era violento e pedia desculpas com flores e presentes. Se isso lhe gerar qualquer coincidência, seja bem-vinda.
Helena está o tempo todo buscando um encontro consigo mas é invadida por hipóseses, afirmações e crenças misóginas de que ela nunca seria suficiente para tudo que fizesse. Pós graduação na Espanha em Relações Internacionais. Uma mulher admirável que tem sua história diminuída por um homem.
Ana Johann traz uma mulher madura com saúde psicológica afetada por tanta diminuição da sua auto estima. Frases que ficam no corpo, na alma, na carne.
A busca pelo “encaixe” em cada relação com homens em sua viagem internacional à estudos nos mostra uma personagem que nunca teve encaixes de corpo e alma, qualidade erótica de companhia. Lhe faltava isso.
O ponto alto da obra das suas traições com Miguel eram a repetição familiar.
“Repetia o mesmo ato que via o pai fazer com a mãe e que seus irmãos também faziam com suas companheiras.”
O que Ana Johann coloca em mesa a questão geracional de respeito e valores. Por quê Helena repetia tudo isso? A literatura não é capaz de explicar, por que o mundo é feito por homens com histórias que matam mulheres boas.