Em 𝑺ú𝒃𝒊𝒕𝒐, o poema “palavras”, o primeiro de muitos, sugere, desde logo, uma leitura expressiva, sentida, impetuosa (súbita), por vezes, silenciosa. A ”palavra” é recorrente nos poemas, atribuindo assim uma certa unidade, diria mesmo uma circularidade ao livro já que este termina com o poema “palavra nascente”, que nos remete para a importância do nascer (“No dia em que nasceu”) como um recomeço. Quando escrevi sobre o primeiro livro da Ana Zorrinho, 𝑯𝒊𝒔𝒕ó𝒓𝒊𝒂𝒔 𝒅𝒆 𝒖𝒎 𝑻𝒆𝒎𝒑𝒐 𝑺ó, referi o seguinte: ”Descobri uma escrita poética, marcante e extremamente sensível. Nem tudo é dito. Muito deve ser entendido nas entrelinhas, na força das palavras, no ritmo dos versos, nas frases curtas, compassadas que marcam o tempo que passa (…)”. Hoje, após a leitura deste belíssimo livro (belo em todos os aspectos), mantenho a minha opinião e acrescento que há um maior amadurecimento poético, a subjectividade colocada na escrita é mais vincada e por conseguinte a participação do leitor torna-se mais premente. Como leitora atenta e amante de textos belos, de poesia deixei-me conduzir pelas “palavras” da Ana, pela sua escrita ritmada, visual e muito sensorial. O ritmo é variável, adequado ao estado de alma do leitor… vagaroso, torrencial, “deslizante”, reflexivo, “súbito”… gosto desta volubilidade. Os temas são, ilusoriamente, diversos (solidão, morte, mar, amor, mulher, ausência,…), contudo, na minha opinião, a existência de um fio condutor - o TEMPO liga-os e torna-os uno (a tal unidade que já referi). Se atentarmos aos títulos dos poemas, podemos constatar isso mesmo. O Tempo surge na espera, na solidão, na brevidade da vida, na morte, na ausência, na verdade, na suspensão (“Oh ampulheta/Inclina-te um pouco/Suspende o cair do grão”), na saudade, no mergulho, na esperança, no silêncio, no prazer, na cadência, no vazio da escrita: “No extremo do vértice Vejo plenamente o vazio a 360 graus Flicto-me para o salto Sobre o limite da linha Mergulho no nada Desta página em branco Afogo-me Nas palavras inexistentes.” O drama, aqui presente, do escritor perante a página em branco e nas palavras inexistentes, transborda para mim, leitora, em magia, deslumbramento. Não me canso de o ler. De os ler, todos.
Para terminar, ofereço-vos uns versos do poema “antes de depois”. É um convite à leitura e à descoberta da beleza e da sensualidade presentes no sapato que “ficou encostado à mesa de cabeceira/Erguido/Cristalizado/(…)Contemplo-o/o momento que foi/E assim permaneceu/como se eu ainda estivesse dentro dele. (…)”. Intuem a tal subjectividade presente na escrita e que exige do leitor uma participação efectiva? Recomendo a leitura deste e dos outros livros da Ana Zorrinho. É na simplicidade das palavras que por vezes descobrimos caminhos que nos emocionam e nos fazem sorrir.