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Ciclo do Extremo-Norte #1

Chove nos campos de Cachoeira

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Trecho da obra:

"Sim, como veio tão bela! Perdera aquela brutalidade, aquele riso, aquele desleixo. Veio calma na sua marcha para a maternidade. Eutanázio abriu mais os olhos. Ninguém ficou na saleta.

Desejou passar a mão naquele ventre que crescia vagaroso como a enchente, com a chuva que estava caindo sobre os campos. Desejaria beijá-lo. Está vendo ali a criação, a Gênesis, a Vida. Via nela qualquer coisa de satisfeito, de profundamente calmo e de inocente. Não dava mostra nenhuma de sofrimento, nem de queixa nem de ostentação. Era como terra no inverno. Seu ventre recebeu o amor uma terra. Como a terra dos campos de Cachoeira recebia as grandes chuvas. Por isso ela já humilhava-o de maneira diferente. Tinha sido falada em Cachoeira, enganada, traída,e não mostrava senão a aceitação do filho como um triunfo. Tinha um filho, tinha um filho, seu ventre estava alto e belo. E ele no fundo da rede ia morrer sem aceitar a morte, sem ter aceitado a vida. Quando podia se reconciliar com ela, a serenidade daquele ventre humilhava-o, cobria-o de ridículo. Irene estava mansa, sorria para ele com um sorriso de ser fecundado, de criatura que renova em si mesma a vida. Irene restituíra-se a si mesma. O sorriso dela era manso e nascia de seu coração como luz de amanhecer. Quanto ele não souber sofrer! Morria miserável, ridículo,com aquele medo na entranha, nos ossos. Diante de Irene queria se encher duma coragem imensa para aceitar o seu destino. Irene era o Princípio do Mundo. As grandes chuvas lhe traziam o filho. Seus peitos cresciam, se enchiam de leite como os das vacas. Ela era tão magnificamente animal, que em seu rosto calmo, em seu ventre, em suas mãos só havia inocência, a inocência de todo o mistério criador. Só ela era a vida! Só ela era a vida!"

***
“Um Noé desconhecido. Um livro estupendo. Vieram juntos do Pará, trouxeram aquela gente, aquelas paisagens, a vida de um pedaço do Brasil – a vida vivida. A fôrça de Dalcídio Jurandir está realidade que ele foi encontrando em longas viagens pelo interior, no contato da sua juventude com a natureza e as criaturas presas a ela. Não é um autor que escreve. É um homem que fala.”
- Álvaro Moreyra, poeta, cronista e jornalista.

“Uma Obra da maior importância pelo conteúdo humano e a denúncia de uma determinada situação social.“
- Herberto Sales, jornalista e escritor.

401 pages, Paperback

First published January 1, 1941

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About the author

Dalcidio Jurandir

15 books13 followers
Dalcídio Jurandir Ramos Pereira (Ponta de Pedras, ilha do Marajó, Pará, 10 de janeiro de 1909 — 16 de junho de 1979) foi um romancista brasileiro.

Estudou em Belém até 1927. Em 1928 partiu para o Rio de Janeiro, onde trabalhou como revisor na revista Fon-Fon. Em 1931 retornou para Belém. Foi nomeado auxiliar de gabinete da Interventoria do Estado. Escreveu para vários jornais e revistas.

Militante comunista, foi preso em 1936, permanecendo dois meses no cárcere. Em 1937 foi preso novamente, e ficou quatro meses retido, retornando somente em 1939 para o Marajó, como inspetor escolar.

Escreveu para vários veículos e acabou como repórter da Imprensa Popular, em 1950. Nos anos seguintes viajou à União Soviética, Chile e publicou o restante de sua obra, inclusive em outros idiomas.

Em 1972, a Academia Brasileira de Letras concede ao autor o Prêmio Machado de Assis, entregue por Jorge Amado, pelo conjunto de sua obra.

Em 2001, concorreu com outras personalidades ao título de "Paraense do Século". No mesmo ano, em novembro, foi realizado o Colóquio Dalcídio Jurandir, homenagem aos 60 anos da primeira publicação de Chove nos Campos de Cachoeira.

Em 2008, o Governo do Estado do Pará instituiu o Prêmio de Literatura Dalcídio Jurandir.

Em 2009 comemorou-se o centenário do escritor.

Escreveu:

Série Extremo-Norte:

Chove nos Campos de Cachoeira (1941)
Marajó (1947)
Três Casas e um Rio (1958)
Belém do Grão Pará (1960)
Passagem dos Inocentes (1963)
Primeira Manhã (1968)
Ponte do Galo (1971)
Os Habitantes (1976)
Chão dos Lobos (1976)
Ribanceira (1978)

Série Extremo-Sul:

Linha do Parque (1959)

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1 (2%)
Displaying 1 - 12 of 12 reviews
Profile Image for André Sá.
50 reviews1 follower
August 9, 2015
Lindo demais! Os rios que sobem e descem e as pessoas que são arrastadas e se deixam levar nas enchentes e vazantes da vida, dinâmica de maré que afeta as pestanas: ora cheias ora secas de lágrimas.
Profile Image for Neide Kertzman.
105 reviews7 followers
August 30, 2016
Leitura difícil e cativante. A linguagem regional dificultou um pouco a fluidez da leitura. Por outro lado, a riqueza da caracterização das personagens, os sentimentos e acontecimentos surpreendentes e a ambientação cheia de detalhes me encantaram.
Profile Image for Gabrielle Alves.
101 reviews6 followers
August 17, 2025
O apagamento do paraense Dalcídio Jurandir é de uma perda inominável e escrevo essa resenha como um convite para que você, leitor(a), conheça a grandeza do escritor vencedor do Prêmio Machado de Assis 1972 e faça parte do seu renascer.

Chove nos campos de cachoeira nos apresenta a história marajoara da vila de cachoeira através dos seus moradores ribeirinhos e pescadores, a casa movimentada, a festa do boi e, principalmente, a vida e pensamentos de dois irmãos: Alfredo e Eutanázio. Alfredo é filho de uma mulher negra seringueira e um homem branco (uma miscigenação que lhe desperta conflitos raciais internos), ele é um sonhador nato, brinca com uma semente de Tucumã e constrói o seu faz-de-conta de esperanças: o "progresso" para a vila, um Brasil que dá certo, sua mudança para a sonhada Belém dos teatros, dos bondes, do Círio. Já Eutanázio, como o próprio nome já dá a pista, é melancólico, niilista, ciumento, amargurado, resignado, não acredita que seja possível sair daquele ciclo de angústia da sua vila, do seu amor impossível. Repleto de sonhos natimortos.

Os sonhos vieram abaixo como paredões desabados. Mas nem tudo parece que está morto. No meio dos sonhos mortos, dos desejos extintos, das esperanças abortadas, haverá algum tímido desejo palpitando, algum sonho, alguma esperança com sinal de vida. O certo é que os desejos apodreceram e por medo da contaminação era melhor deixar tudo enterrado para acabar mais depressa. Porque, enfim, os que ainda mostrassem sinais de vida, tarde ou cedo morreriam inevitavelmente.


Fiquei completamente encantada com a escrita de Dalcídio por conseguir traduzir tanto do que vejo em minha avó (paraense como ele): o senso de humor afiado, as gírias, a sua capacidade de nomear cada fruto, cada árvore, cada semente, cada oscilação de um rio e uma quantidade infinita de causos. Todos os moradores ganham apelido, que nem o meu avô que passou a ser chamado de urubu pelos amigos de minha avó em Belém pq ele andava torto kkkk Inclusive, o livro entrega boas doses de delírios românticos (amei mt, me lembrou um pouco Isabel Allende e Gabo).

Ele a viu comendo um taperebá perto do poço. Os dentes de Clara deixavam a marca na polpa da fruta e riam com os fiapos do taperebá. A boca úmida devia estar doce como a fruta. As frutas pareciam ter aparecido no mundo para terem prazer também em ser saboreadas por Clara. As frutas eram mais gostosas comidas por ela, partidas por aqueles dentes.


Depois do verão de queimadas, chega o inverno amazônico, e como chove nos alagáveis campos de cachoeira! Um livro de ficção climática antes mesmo desse termo existir. Ainda mais pelas mudanças que acontecem no final do livro e elevam a vila de cachoeira para CIDADE de cachoeira... será que testemunhamos um possível começo do fim daquele modo de vida que existia até então? Só lendo os próximos livros pra saber!

Dentre tantos personagens, Salu, leitor ávido, passa a história inteira lendo livros e livros, e quando chegam as chuvas que ele passa a ler ainda mais. Major Alberto acumula catálogos e se perde neles. Felícia, a prostituta, sofre com a pobreza e, em seu quarto, pendura um pôster com o arranha-céu de Nova York. Dalcídio nos introduz a esses objetos de fuga (ou construção?) da realidade: o caroço de tucumã de Alfredo, o livro, os catálogos, até Nova York. Todos querem mais nesses melancólicos campos de cachoeira.

Você não vai encontrar esse livro em uma versão física facilmente, talvez como raridade em algum sebo, mas ele está disponível no Kindle Unlimited e isso, pelo menos, nos permite acessar a obra de alguma forma. Existem alguns projetos de relançamento das obras do autor ainda em 2025 e esse é o primeiro livro do ciclo do extremo-norte, uma saga composta por 7 livros.

LEIA DALCÍDIO JURANDIR!!!!!!!!!!!!!!

@leiturasdagabrielle
Profile Image for Felipe Vieira.
789 reviews19 followers
July 24, 2022
3,5

Chove nos Campos da Cachoeira é um outro livro com aspecto de novela das seis. O que de certa maneira já é algo bem gostoso de ser e acompanhar. A meu ver Dalcídio Jurandir quis construir um livro em que o mais importante ali seriam as relações e as comunicações entre os personagens. Ele consegue fazer isso. Cria vilarejo no interior paraense com muitos personagens e vai narrando histórias que vão se entrelaçando. Todo mundo conhece todo mundo. Isso foi gostoso de acompanhar. No entanto, eu achei que faltou um enredo que apoiasse essas relações. Algo mais profundo. Os dois personagens mais presentes, Alfredo e Eutanázio, até possuem motivações mais concretas nessa história, mas não são desenvolvidas. Por causa disso em vários momentos o livro cai em um marasmo que atrapalha o andamento da história. O tédio bate com frequência. Se houvesse mais conflitos bem trabalhados envolvendo os outros personagens talvez ficasse mais interessante. Até existem, mas não foram tão bem trabalhados. Enfim, é um livro interessante que infelizmente possui deslizes. É claro que estamos falando de uma saga e talvez Jurandir tenha trabalhado melhor nos livros seguintes. Recomendo para quem quer sair do eixo Sudeste-Sul de literatura.
Profile Image for Elielton Castro.
128 reviews1 follower
January 17, 2025
Iniciei um projeto para 2025 de ler ao menos um autor ou autora de cada Estado brasileiro, de preferência um que eu ainda não tenha lido, e parti do meu próprio Estado, Pará. Com isso, achei esta obra de Dalcídio Jurandir: uma história simplória, mas demasiadamente humana. Gosto sobretudo da forma como ela se expande aos poucos, sem nunca perder o fio da meada, apresentando as diferentes figuras da ilha de Cachoeria. É quase como se o leitor estivesse sendo apresentado aos registros históricos de um povoado, aos pequenos fatos que vão se encaixando e se entrelaçando. O ponto central, creio eu, encarnado na figura de Eutanázio, traduz bem o tom melancólico do título: as águas de um inverno de descontentamento. Não à toa, o autor o liga sutilmente à obra Dores do mundo (uma referência e tanto, assim como outras que se espalham no texto e criam uma dimensão tanto de personagens quanto do autor). Muito bom.

"— Diga... Por que os... livros ficam... Ficam... À margem? Por que também... O homem... Fica também... Na margem da... da... vida? Da nossa própria da... nossa própria... Consciência? Consciência? Hem? Diga-me!"
Profile Image for Adriano Tiegs.
199 reviews2 followers
January 17, 2023
Me entristece o fato de, somente em 2019, eu ter conhecido Dalcídio Jurandir e sua importância para a literatura da região norte e nacional. Agora em 2022, finalizo a leitura de sua primeira obra, publicada originalmente em 1941, e saio desta experiência feliz por tê-la tido.
Ainda que eu tenha demorado mais do que gostaria para finalizar a leitura, principalmente por achar alguns capítulos muito lentos, no geral, senti a história fluindo bem e de maneira cativante. A vila de Cachoeira (a protagonista do livro em minha opinião, ainda que personagens como Alfredo e Eutanásio se destaquem em relação à outros), com seus problemas, aflições e desigualdades sociais, me lembra muito o local onde vivo atualmente (uma cidade pequenina e desigual do interior do Amazonas), onde as pessoas têm muito pouco, mas vivem todos os dias superando os tropeços, e tentando não ceder às amarguras), e isso tornou a leitura um pouco mais especial.
Muito em breve, certamente, lerei mais obras do chamado Ciclo do Extremo-Norte de Dalcídio.
Profile Image for lu.
70 reviews
November 7, 2024
mesmo com a quantidade exagerada de personagem que tem nesse livro eu gostei muito do contraste entre os irmãos, um marcado pelos sonhos de ir pra cidade e o outro pela pelo decadência individual. isso é uma coisa que eu conheço porque sou paraense e ele botou muitas marcas da nossa região aqui, além dos anseios e angústias que a gente tem. achei engraçado que nesse livro todo mundo tem alguma insatisfação consigo mesmo e o desejo de viver a vida do outro que igualmente passa por algumas merdas. mas é justamente a construção desses personagens junto com as escolhas narrativas que vão revelando cada vez mais detalhes sobre eles que da o molho da escrita do dalcídio
Profile Image for Jamyle Aires.
1 review
December 31, 2025
É estranho como um passado e uma vida ribeirinha aparentemente “distantes” ainda hoje nos conectam por meio de palavras e situações familiares a quem conhece, viveu ou ouviu histórias dessa vida marajoara. A vida marcada pela angústia e pelo desejo dos irmãos Alfredo e Eutanázio desperta um sentimento de pertencimento na leitura, mesmo em quem nunca viveu essa realidade. Algumas palavras e termos podem exigir uma leitura mais atenta de quem não está familiarizado, mas a narrativa convida o leitor a fazer esse esforço. É chover nos campos molhados do Marajó indicar a leitura de Dalcídio Jurandir e, sendo uma leitora do Norte, não faço mais do que minha obrigação; porém, para os de fora, especialmente, é o tipo de leitura que gera empatia e ampliação de mundo.
Profile Image for Julia Carvalho Bandeira.
10 reviews
August 29, 2022
Belíssimo livro de estreia de um dos maiores da literatura brasileira. Cheio de regionalismos da Ilha do Marajó e do norte do Brasil, representa muito bem a cosmovisão de parte do nosso povo, através da adaptação da forma de viver de acordo com as estações do ano, da linguagem, das tradições culturais (comidas, ritos, eventos), das perspectivas de futuro (o comum sonho de êxodo em direção à capital). Viva Dalcídio, e que sua obra seja cada vez mais popularizada.
Profile Image for Flavia Barata.
6 reviews
November 29, 2025
Um belo retrato do meu país Marajó (e da decadência da alta sociedade pós borracha)
Displaying 1 - 12 of 12 reviews

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