Depois da detenção, quase caiu em desânimo: aquilo foi mal feito, falhou – mas pensou: “Agora, temos outra coisa que é preciso fazer bem: morrer” – e animou-se.
Leonid Andréev é, para mim, o melhor contista russo, mas “História dos Sete Enforcados” e “Pensamento”, as duas histórias reunidas neste volume sob a égide do livre-arbítrio, ficam muito aquém das leituras anteriores.
“Pensamento”, a confissão alucinada de um homicida, é ligeiramente superior, mas arrasta-se durante mais páginas do que deveria, enquanto “História dos Sete Enforcados”, um libelo contra a pena de morte, talvez tenha sido lido na altura errada, logo após “Amanhecer” de Elie Wiesel, um relato muito mais pungente sobre a contagem decrescente até ao momento da execução.
História dos Sete Enforcados – 3*
Numa cadeia, aguardam pelo cadafalso sete pessoas, dois homens condenados por homicídio violento, e um grupo de cinco presumíveis terroristas, apanhados pouco antes de um atentado contra um ministro do czar, que Andréev descreve nas últimas horas de vida.
Não só lhe tiraram a roupa, mas também lhe arrancaram o sol, o ar, o barulho e a luz, as acções e a fala. A morte ainda não chegara, mas também já não era a vida.
Os criminosos de delito comum não me interessaram de todo, sendo a reacção das duas mulheres e três homens bombistas mais complexa e inconstante à medida que a hora se aproxima. Sendo a intenção destes dissidentes mandarem-se pelos ares juntamente com a sua vítima, intrigou-me o debate interno de cada um deles na solitária.
Enquanto caminhava para o perigo e para a morte por sua própria vontade, enquanto tinha a sua morte nas mãos, mesmo sendo uma morte de aparência terrível, as coisas eram fáceis e até divertidas para ele: afogava na liberdade infinita, na afirmação destemida e firme da sua vontade atrevida aquele pavor pequenino e encarquilhado, aquele medo de velhota. (...) Mas, de repente, aconteceu aquela mudança brusca, louca, aturdidora. Já não vai onde lhe apetece, mas é levado para onde o querem levar. (…) Já não pode escolher livremente entre a vida e a morte, como toda a gente.
Pensamento – 3,5*
A minha relativa insociabilidade que, no fundo, não é mais do que um sinal da mente saudável que prefere passar tempo a sós consigo própria e com os livros, em vez de perder tempo em conversas fiadas e fúteis, podia passar por misantropia patalógica.
Preso pelo homicídio de um amigo e agora internado numa instituição psiquiátrica, o Dr. Kérjentsev redige um esclarecimento a explicar que não é louco, apenas elaborou um intrincado plano em que fingiu sê-lo para escapar à prisão. Numa espécie de “Catch 22” às avessas em que, ao tentar provar que não é doido, mostra o quão doido é, o médico, um narrador de credibilidade duvidosa à medida que o conto avança, narra os acontecimentos que levaram ao assassínio premeditado do marido de uma mulher que o repelira, acabando por ser dominado por aquilo que pensava dominar: os seus pensamentos.
O que experimentei de mais terrível naquele momento foi a consciência de não me conhecer e nunca me ter conhecido. Enquanto o meu “eu” permanecia na minha cabeça bem alumiada, onde tudo evolui e vive pela ordem lógica, eu compreendia-me e conhecia-me, raciocinava sobre o meu carácter e os planos, e achava que era o potentado. Agora, descobria que não era potentado nenhum, mas sim um escravo, mísero e impotente.