Do livro, só li a novela ou breve romance que dá uma conclusão à história da família Angstrom. Assim, não li os contos que compõem a primeira metade da obra.
Caso queira continuar a leitura, saiba que há spoilers. Acho que essa novela, *Coelho se cala*, só é lida por quem percorreu os quatro livros anteriores.
Foi uma longa jornada até aqui. Ao longo do ano passado, li os quatro primeiros romances da série. Com a morte de Harry "Coelho" Angstrom ao final do quarto livro, parecia que a história havia se encerrado.
Updike, no entanto, oferece uma espécie de epílogo. Como nas outras obras, há um intervalo de dez anos em relação ao livro anterior. Aqui, o ano é 1999: fim do milênio, medo do bug e outras inquietações.
No início, o protagonismo é de Janice, esposa de Harry. Surpreendentemente, ela se casou com Ronnie Harrison, marido da (também) falecida amante de Harry. Ronnie era, ainda, o detestado amigo/adversário do falecido.
Janice sente a chegada da velhice. Pouco a pouco, vai perdendo a vitalidade e se depara com o choque da aparição da filha perdida de Harry. A mãe dela vivera com ele por uns três meses no longínquo 1959 e, antes de morrer, contou à filha que seu verdadeiro pai era Coelho. A moça, Annabelle, procura então as pessoas que tiveram alguma ligação com ele.
A chegada de Annabelle serve também para que Updike transfira o protagonismo de Janice para Nelson. Agora, aos 43 anos, ele vive com a mãe e Ronnie. Sua mulher pediu o divórcio e levou os filhos para Ohio.
Nelson trabalha como assistente social. Parece feliz no trabalho, parece ser bom no que faz e gostar disso. A chegada de Annabelle representa, para ele, um alívio, preenchendo, de alguma forma, o vazio que sente desde a morte da irmã bebê, também em 1959.
A vida de Nelson está em um momento de crise: foi abandonado pela mulher e mora com a mãe e o padrasto. O trabalho parece ser seu refúgio, mas ali também enfrenta dificuldades, especialmente com um paciente com quem sente proximidade, mas que talvez saiba ser incapaz de ajudar.
Há muitas lembranças de Harry, muita exposição de seus problemas, mas também muito afeto. De certa maneira, parece que Nelson finalmente está amadurecendo. Ele protege Annabelle no catastrófico almoço de Ação de Graças, uma primeira catarse que o leva a sair de casa.
Há uma segunda grande catarse quando ele, Pru (sua ex-mulher), o amigo Billy e Annabelle voltam de um jantar e de uma ida ao cinema. Estão os quatro no carro, com Nelson ao volante. Ele provoca a irmã para que confesse algumas experiências íntimas e violências que sofreu do padrasto. Isso a liberta e a aproxima de Billy. É uma sessão de psicoterapia improvisada no carro, que também reaproxima Nelson de Pru.
O livro termina com Nelson se reconciliando com a ex-mulher. Ele deixa a cidade e o emprego para se reunir a ela em Ohio. Ao mesmo tempo, Pru e Billy ficam juntos. Antes disso, Nelson já havia conversado por telefone com Ronnie, e ambos parecem ter acertado os ponteiros. Aliás, Janice e Ronnie devem se mudar de vez para a Flórida.
Na ligação telefônica que encerra o livro, Annabelle pergunta se, caso se casasse com Billy, Nelson a levaria ao altar. Ele responde que sim.
Ao final do livro, parece que cada um — e, principalmente, Nelson — encontrou paz suficiente para seguir com a vida. Um belo desfecho para a saga dos Angstrom. Já sinto falta deles.
“Uma das características simpáticas das pessoas disfuncionais é que elas não guardam rancor” (249)
“Em apenas dez anos, o tempo transformou aquele homem espetacular em pó” (262)
“...a vida, de modo geral, é uma lengalenga” (321)