Lamarque analisa diversas perspectivas da relação entre narrativa e verdade. A tese central é que as narrativas são proposições de um ponto de vista e, como tal, filtram o facto que reportam, são, portanto, opacas. A opacidade da narrativa surge no momento em que se introduz uma personagem ou um evento: o facto é indistinto da descrição sob a qual é apresentado e, portanto, forma e conteúdo são a mesma coisa.
O livro divide-se em 10 capítulos que são ensaios perfeitamente aptos a uma leitura individual. O problema que pode vir disto é uma espécie de redundância que provavelmente se aponta aos leitores que estão direccionados a um determinado ensaio. Tem, portanto, duas modalidades de leitura previstas: como manual acerca da opacidade narrativa (em relação a personagens, factos, verdade ou aplicabilidade), ou como conjunto de ensaios que reúnem temas abrangentes da teoria da narrativa (literária or otherwise).
A análise de Lamarque é interessante por não se adscrever unicamente à intenção do autor, à morfologia da obra ou às expectativas dos leitores, mas ao conjunto inteiro das práticas em que se envolve literatura. Nesse sentido, é Wittgensteineano, bebe das teorias da linguagem como jogo e do sentido da linguagem não se distinguir do contexto do seu uso. A literatura acontece na sua prática e é por via da prática (leitura) que se depreendem sentidos.
Uma das recorrentes preocupações é com a assimilação de vidas a narrativas. Lamarque preocupa-se com as pessoas que constroem uma identidade de um modo narrativo, como se vissem capítulos nos progressos que fazem em vida, quando esse tipo de categorização não é nem empírica nem lógica. A grande distinção entre vida e narrativa é que a vida não tem um enquadramento deliberado intencional como acontece com as narrativas. Este tipo de identificação da vida com narrativas pode vir de uma desconstrução dos mecanismos que presidem às biografias, onde não é raro procurar dar-se um valor de desenvolvimento narrativo aos progressos e insucessos que são incidentes relativos aos biografados.
Apesar da grande teoria de Lamarque se condensar no capítulo 8 onde explica os fundamentos, características e finalidades de teorizar a opacidade das narrativas, o capítulo em que a wit do crítico se destaca é o posterior: «Aesthetics and Literature: A problematic relation?» que perspectiva os problemas que têm vindo a ser levantados pela teoria e crítica literária acerca da aplicabilidade do pensamento estético à literatura. Peca, por outro lado, por de seguida pretender tirar a psicologia da crítica («On keeping psychology out of literary criticism»), o que não me parece ser tão distinguível da estética — apesar das intenções parecerem boas.
Recomenda-se a quem se interessar em relações entre literatura e facto/verdade, auto/biografias, literatura e história e mesmo jornalismo.